O problema da sobrevivência
Se o dilúvio destruiu toda a carne, e se os gigantes pertenciam ao mundo antes do dilúvio, eles deveriam ter desaparecido com ele. No entanto, a Bíblia continua falando de gigantes muito depois: os espias em Canaã relatam ter visto nefilins, há povos inteiros descritos como gigantescos, e Davi enfrenta Golias séculos mais tarde. Isso cria uma tensão narrativa real, e o próprio texto de Gênesis parece já antecipá-la.
"E também depois disso"
A frase-chave está em Gênesis 6:4: havia gigantes na terra naqueles dias, "e também depois". Essa pequena cláusula sugere que a presença de gigantes não se limitava ao período pré-diluviano. O texto bíblico, em vez de afirmar que os gigantes foram extintos pelo dilúvio, deixa em aberto que houve gigantes "também depois", o que prepara o terreno para suas aparições posteriores.
4 Havia naqueles dias gigantes na terra; e também depois, quando os filhos de Deus entraram às filhas dos homens e delas geraram filhos; estes eram os valentes que houve na antiguidade, os homens de fama.
33 Também vimos ali gigantes, filhos de Anaque, descendentes dos gigantes; e éramos aos nossos olhos como gafanhotos, e assim também éramos aos seus olhos.
Os ecos: anaquins, refains, emins, Ogue
O Antigo Testamento traz um vocabulário inteiro de povos de grande estatura, tratados como aparentados ou herdeiros dos nefilins. Os anaquins, filhos de Anaque, são vinculados aos nefilins pelos próprios espias e depois extirpados por Josué. Os refains aparecem como antigos habitantes gigantes; os emins e os zamzumins são descritos como "altos como os gigantes". Ogue, rei de Basã, é apresentado como o último remanescente dos refains, com um leito de ferro de proporções enormes.
10 (Os emins dantes habitaram nela; um povo grande e numeroso, e alto como os gigantes.
11 Também estes foram considerados gigantes como os anaquins; e os moabitas os chamavam emins.
11 Porque só Ogue, o rei de Basã, restou dos gigantes; eis que o seu leito, um leito de ferro, não está porventura em Rabá dos filhos de Amom? De nove côvados, o seu comprimento, e de quatro côvados, a sua largura, pelo côvado comum.
21 Naquele tempo veio Josué, e extirpou os anaquins das montanhas de Hebrom, de Debir, de Anabe e de todas as montanhas de Judá e de todas as montanhas de Israel; Josué os destruiu totalmente com as suas cidades.
22 Nenhum dos anaquins foi deixado na terra dos filhos de Israel; somente ficaram alguns em Gaza, em Gate, e em Asdode.
| Povo / figura | Onde aparece | Relação com os gigantes |
|---|---|---|
| Nefilins | Gn 6:4; Nm 13:33 | Os gigantes originais |
| Anaquins | Nm 13:33; Js 11:21-22 | Ligados aos nefilins pelos espias |
| Refains | Gn 14:5; Dt 3:11 | Antigos habitantes gigantes |
| Emins / zamzumins | Dt 2:10-11, 20-21 | "Altos como os gigantes" |
| Ogue de Basã | Dt 3:11 | Último remanescente dos refains |
| Golias | 1 Sm 17:4 | Gigante filisteu de Gate |
4 Então saiu do arraial dos filisteus um homem guerreiro, cujo nome era Golias, de Gate, que tinha de altura seis côvados e um palmo.
Como Jubileus tenta resolver
O Livro dos Jubileus enfrenta o problema de frente. Ao recontar a história, ele detalha o destino dos filhos dos Vigilantes em uma genealogia da violência: os nefilins, os gigantes e os elios se matam mutuamente em cadeia até quase se exterminarem, e Deus envia a espada para que se destruam uns aos outros antes do dilúvio. Jubileus também repete que foi por causa da fornicação dos Vigilantes com as filhas dos homens que veio o dilúvio, organizando assim a memória dos gigantes como um capítulo encerrado, ainda que seus ecos persistam.
21 Pois devido a essas três coisas veio o dilúvio sobre a terra, a saber, devido à fornicação em que os Vigilantes contra a lei de seus estatutos se prostituíram após as filhas dos homens, e tomaram esposas de todas as que escolheram: e eles deram início à impureza.
22 E eles geraram filhos os Nefilins, e todos eles eram diferentes, e eles devoravam uns aos outros: e os Gigantes mataram os Nefilins, e os Nefilins mataram os Eljos, e os Eljos a humanidade, e um homem a outro.
23 E cada um se vendeu para trabalhar iniquidade e derramar muito sangue, e a terra foi cheia de iniquidade.
24 E depois disso pecaram contra os animais e pássaros, e tudo o que se move e anda sobre a terra: e muito sangue foi derramado sobre a terra, e toda imaginação e desejo dos homens imaginava vaidade e mal continuamente.
25 E o Senhor destruiu tudo da face da terra; por causa da maldade de suas ações, e por causa do sangue que derramaram no meio da terra Ele destruiu tudo.
A resposta da própria Bíblia é menos sistemática. Ela não explica em termos genealógicos como os gigantes reaparecem, mas a cláusula "e também depois" e a continuidade de vocabulário sugerem que o narrador tratava os gigantes pós-diluvianos como ecos narrativos dos nefilins originais, povos de estatura extraordinária que Israel encontra e enfrenta na conquista da terra, e cujo arquétipo culmina na figura de Golias diante de Davi.