Onde Sócrates Não é Cristão: os Limites de um Sábio Pagão

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Admirar Sócrates não é batizá-lo. A leitura cristã honesta de um pagão precisa marcar com clareza onde ele acerta e onde ele simplesmente não alcança, porque não tinha como alcançar. Sócrates morreu quatro séculos antes de Cristo. Tudo o que ele tem é a razão, e a razão sozinha chega longe, mas não chega ao Evangelho. Estes são os limites.

A esperança dele é palpite; a do cristão é promessa

Sócrates encara a morte com calma, mas a base dessa calma é frágil. Ele oferece duas hipóteses (o sono sem sonhos ou a viagem da alma) e admite não saber qual é verdade. Tudo vem precedido de "se for verdade o que dizem". É uma esperança construída por raciocínio, não uma certeza recebida.

16 Vamos pensar de outra maneira, e veremos que boa razão para esperar que a morte seja um bem. A morte é uma de duas coisas: ou é como não ser nada, sem nenhuma sensação de coisa alguma, ou, como dizem, é uma mudança e mudança de morada da alma deste mundo para outro lugar.

O cristão tem outra coisa. Não um palpite sobre o além, mas a notícia de um homem que morreu e voltou, e que prometeu o mesmo aos seus. A serenidade cristã diante da morte não repousa na razão do moribundo, mas num fato fora dele: a ressurreição de Cristo.

54 E, quando isto que é corruptível se revestir da incorruptibilidade, e isto que é mortal se revestir da imortalidade, então cumprir-se-á a palavra que está escrita: Tragada foi a morte na vitória.

55 Onde está, ó morte, o teu aguilhão? Onde está, ó inferno, a tua vitória?

56 Ora, o aguilhão da morte é o pecado, e a força do pecado é a lei.

57 Mas graças a Deus que nos a vitória por nosso Senhor Jesus Cristo.

A virtude por esforço, e a virtude por graça

O sábio pagãoO Evangelho
A virtude se conquista pelo exame e pelo esforço da razãoA virtude é fruto da graça: "sem mim nada podeis fazer"
A esperança no além é hipótese provávelA vida eterna é promessa garantida pela ressurreição
Deus é uma instância vaga, um sinal interior, "o deus" sem rostoDeus se revela como Pai, em Cristo, conhecível e pessoal
O justo confia que nenhum mal o atingeO justo é salvo, não por mérito, mas pela misericórdia

Sócrates acreditava que conhecer o bem já bastava para fazer o bem, como se o mal fosse só ignorância. O cristianismo conhece um problema mais fundo: o homem muitas vezes vê o bem e mesmo assim escolhe o mal. Não falta só informação, falta cura. E essa cura não vem da razão, vem da graça.

5 Eu sou a videira, vós as varas; quem está em mim, e eu nele, esse muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer.

Como ler então

A Apologia fica entre os textos que mostram até onde a alma humana sobe sozinha, guiada pela razão e pela coragem. É alto, e merece respeito. Mas é o cume de uma montanha cercada de nuvem: Sócrates vê que existe algo acima e mais sábio que o homem, e morre confiando nisso sem poder nomeá-lo. O cristão lê essa busca com gratidão, reconhece nela a marca do Deus que não se deixa sem testemunho nem entre os pagãos, e sabe que o nome que faltava a Sócrates é o que Paulo anunciou em Atenas: o Deus desconhecido, agora revelado.

22 E, estando Paulo no meio do Areópago, disse: Homens atenienses, em tudo vos vejo um tanto supersticiosos;

23 Porque, passando eu e vendo os vossos santuários, achei também um altar em que estava escrito: AO DEUS DESCONHECIDO. Esse, pois, que vós honrais, não o conhecendo, é o que eu vos anuncio.

19 Porquanto o que de Deus se pode conhecer neles se manifesta, porque Deus lho manifestou.

20 Porque as suas coisas invisíveis, desde a criação do mundo, tanto o seu eterno poder, como a sua divindade, se entendem, e claramente se vêem pelas coisas que estão criadas, para que eles fiquem inescusáveis;