Os Três Tipos de Amizade Segundo Aristóteles

Ninguém vive bem sozinho

Aristóteles dedica dois livros inteiros da Ética a um único assunto: a amizade. Pode parecer demais. Mas para ele faz todo o sentido. Por mais virtude, dinheiro ou talento que uma pessoa tenha, ela não vive bem sozinha. O ser humano foi feito para a companhia, e uma vida boa é, antes de tudo, uma vida com bons amigos ao redor.

A palavra grega que ele usa é philia. Ela é mais larga que nossa palavra "amizade": cobre o carinho entre amigos, mas também o afeto na família, entre colegas, entre quem faz negócios juntos. Antes de qualquer coisa, Aristóteles faz uma pergunta simples: quando dizemos que duas pessoas são "amigas", do que estamos falando? E ele percebe que não há uma resposta só. Há três.

As três razões para gostar de alguém

A ideia central é fácil. As pessoas se aproximam umas das outras por três motivos diferentes, e cada motivo gera um tipo diferente de amizade. Ou alguém é útil para nós, ou é agradável de ter por perto, ou é simplesmente uma pessoa boa. Dessas três razões nascem os três tipos.

O próprio Aristóteles abre o assunto contando exatamente isso: como há três coisas pelas quais alguém pode ser amado, há também três tipos de amizade.

1 Esses motivos são diferentes uns dos outros por natureza, e por isso também são diferentes as formas correspondentes de afeição e de amizade. Existem, portanto, três tipos de amizade, em número igual ao das coisas que podem ser amadas. Em cada caso uma afeição mútua e reconhecida, e os que se amam desejam o bem um ao outro naquilo pelo qual se amam.

A amizade por utilidade

A primeira é a amizade por utilidade. Aqui, uma pessoa gosta da outra pelo que ganha com ela. Pense no colega de trabalho com quem você troca favores, no vizinho que rega suas plantas enquanto você viaja, no contato que abre portas. Há carinho de verdade, mas ele está apoiado num proveito.

O problema dessa amizade é que ela dura só enquanto dura o proveito. No dia em que o outro deixa de ser útil, ou em que você muda de emprego, de cidade, de necessidade, o vínculo se desfaz quase sozinho. Não houve traição nenhuma. É que ele nunca foi feito de outra coisa além da utilidade.

A amizade por prazer

A segunda é a amizade por prazer. Aqui você gosta da pessoa porque a companhia dela é agradável: é divertida, faz rir, é boa de conversa, é o parceiro de festa perfeito. É o tipo de amizade mais comum entre os jovens, diz Aristóteles, porque eles vivem guiados pela emoção e correm atrás do que é gostoso agora.

Essa também é frágil, e pelo mesmo motivo. O que nos agrada muda com o tempo. O que era divertido aos vinte anos cansa aos quarenta. Quando o prazer some, a amizade some junto. Por isso esses laços nascem depressa e acabam depressa.

A amizade por virtude

A terceira é a amizade perfeita, a única que Aristóteles considera amizade no sentido pleno. Ela acontece entre duas pessoas boas, que querem o bem uma da outra não pelo que tiram disso, mas por amor à própria pessoa. O amigo é amado por ser quem é, e não por ser útil ou divertido.

Repare na diferença. Nas duas primeiras, no fundo, cada um ama a si mesmo: ama o proveito ou o prazer que recebe, e o outro é só o meio. Na terceira, ama-se o outro de verdade. E como essa amizade se apoia no caráter da pessoa, e o caráter é coisa estável, ela é a única que resiste ao tempo. Não vira as costas quando o vento muda.

É por isso que Aristóteles diz que o amigo verdadeiro é como "um outro eu". Você se importa com a vida dele como se importa com a sua. Esse tipo de amizade traz, de quebra, tudo que as outras duas tinham separado: a pessoa boa também acaba sendo útil e agradável de conviver. Só que isso vem por acréscimo, não é o motivo.

O preço dela é ser rara. Pessoas assim são poucas, e uma amizade dessas exige tempo e convivência. Como diz o provérbio que Aristóteles cita, ninguém conhece o outro de verdade antes de ter comido muito sal junto, ou seja, antes de ter partilhado a vida por anos. Os três tipos não são degraus de uma escada, mas é fácil ver que só o último merece de fato o nome.