A Teologia da Divina Comédia: Bíblia e Escolástica no Poema

Um poema feito de Bíblia e teologia

A Comédia é uma síntese poética de toda a cultura cristã medieval. Dante não decora a viagem com versículos: ele constrói o além inteiro com a matéria da fé. A própria estrutura da obra, descida ao pecado, purificação, subida à glória, é o desenho da vida cristã. E o poema engaja a Escritura de propósito, do começo ao fim.

A "selva escura" e o "caminho perdido" do canto inicial ecoam a linguagem bíblica do justo que se desvia e da ovelha perdida que o pastor procura. A imagem do ser humano que se extravia e precisa ser buscado pela graça é o motor de toda a viagem.

4 Que homem dentre vós, tendo cem ovelhas, e perdendo uma delas, não deixa no deserto as noventa e nove, e vai após a perdida até que venha a achá-la?

A herança da escolástica

A ossatura intelectual do poema vem da escolástica, a teologia das universidades medievais, e em especial de Tomás de Aquino, que aparece em pessoa no Paraíso. A divisão dos pecados no Inferno segue a Ética de Aristóteles relida por Tomás; a doutrina do livre-arbítrio, da graça e da Redenção que Beatriz expõe no Paraíso é tomista. Dante poetiza a maior síntese teológica de seu tempo.

As notas e referências cruzadas desta edição mostram essa trama passagem por passagem: o terremoto da Paixão que rachou as pontes do Inferno (ligado a Mateus 27), as ordens dos anjos no Paraíso (de Pseudo-Dionísio e das cartas de Paulo), a descida de Cristo aos infernos que esvaziou o Limbo dos patriarcas. O leitor pode abrir cada passagem e conferir a fonte bíblica ao lado do verso.

34 O amor, que ao coração nobre rapidamente se prende, prendeu este aqui por causa do belo corpo que me foi tirado; e o modo ainda me fere.