Os mesmos fatos, lidos por duas lentes que discordam. Nenhuma das vozes fala pela posição da página: elas existem para que você veja o argumento mais forte de cada lado.
Mateus manda à Galileia; Lucas proíbe sair de Jerusalém. A letra aponta para lados opostos.
O ponto de partida da harmonização proposta repousa sobre um terreno mais frágil do que a página deixa transparecer. A ordem 'vão para a Galileia, lá o verão' (mc16:7) pertence ao Marcos original, mas a tradição manuscrita mostra que esse Evangelho terminava em mc16:8, com as mulheres fugindo do túmulo em silêncio e medo, sem qualquer aparição do ressurreto. Os doze versículos seguintes (o chamado 'final longo', mc16:9-20) estão ausentes dos dois manuscritos gregos mais antigos e completos, o Sinaítico e o Vaticano, além da Antiga Latina, do Siríaco Sinaítico e de testemunhos armênios e georgianos. O consenso da crítica textual, registrado por Bruce Metzger e pela maioria dos editores do Novo Testamento grego, é que esse final foi acrescentado depois, justamente para suavizar uma conclusão que os copistas julgaram abrupta demais. Em outras palavras, o evangelho mais antigo não tinha aparição alguma a narrar: ele apenas aponta para a Galileia como promessa.
É sobre esse vetor (túmulo manda para o norte) que Mateus e Lucas se bifurcam de forma reveladora. Mateus segue Marcos e leva os onze a um monte na Galileia, sem pisar em Jerusalém depois da ressurreição. Lucas faz o oposto exato: apaga a ordem de ir à Galileia, comprime Emaús, a aparição na sala e a ascensão num único domingo em torno de Jerusalém, e põe na boca de Jesus o mandamento de permanecer na cidade (lc24:49). O detalhe que a harmonização tem de contornar é que isso não é silêncio seletivo, é instrução contrária. Quando dois autores partem da mesma fonte (Marcos) e um conserva a viagem ao norte enquanto o outro a substitui por uma ordem de não sair da cidade, o que se observa é redação teológica, cada evangelista moldando a geografia da ressurreição conforme o programa do seu livro. Para Lucas, Jerusalém é o centro do qual o Evangelho irradiará em Atos; a cidade precisa ser o palco.
A saída clássica, distribuir tudo nos quarenta dias de Atos 1:3 e dizer que João, ao fechar na Galileia (cap. 21), autoriza a leitura combinada, esbarra num obstáculo que vem do próprio Lucas. O mesmo autor que em lc24 narra a ascensão na noite de Páscoa, em at1:4 manda os discípulos não se afastarem de Jerusalém. Como observa Bart Ehrman, isso é difícil de conciliar com Mateus, para quem os discípulos saíram de Jerusalém e viram Jesus na Galileia antes da ascensão. A harmonização precisa supor que a ordem de 'permanecer na cidade' foi dada não na Páscoa, mas só no dia da ascensão, leitura que o texto de Lucas não sustenta sozinho, já que ele encadeia os eventos como se fossem do mesmo dia. Vale notar ainda que João 21 é amplamente tido pela crítica como um apêndice posterior ao capítulo 20, que já trazia um encerramento, o que enfraquece usá-lo como a ponte natural entre as duas geografias.
Concedo o que a evidência não fecha: harmonizar Galileia e Jerusalém não é logicamente impossível, e ninguém pode provar que não houve aparições nos dois lugares. Mas a questão não é o que é possível, e sim o que o conjunto dos textos mais economicamente explica. Quatro narrativas que divergem sobre onde, quando e quantas vezes o ressurreto se mostrou, mais um evangelho que originalmente não narrava aparição nenhuma, descrevem com precisão o que se espera de testemunhos humanos compostos em décadas e comunidades distintas, cada um com sua ênfase. Isso não diz nada contra a fé na ressurreição como convicção religiosa. Diz muito, porém, contra a tese de inerrância literal: um texto ditado sem erro por um único autor divino não deixaria seus discípulos correndo para o norte num evangelho e proibidos de sair da cidade no seguinte. A tensão é da letra, e é a letra que a doutrina da inerrância se propõe a defender.
Lucas comprime (telescoping) e Atos explicita 40 dias; João preserva as duas geografias.
A divergência geográfica é real e não deve ser suavizada. Marcos e Mateus orientam o leitor para o norte: o anúncio no túmulo é explícito ("ele vai adiante de vós para a Galileia, ali o vereis", mc16:7), e Mateus encerra justamente num monte galileu com a grande comissão (mt28:16-17), sem registrar qualquer encontro com os onze em Jerusalém. Lucas faz o movimento oposto e concentra tudo no sul, em Jerusalém e arredores, dentro do mesmo domingo, e ainda coloca na boca de Jesus a ordem de permanecer na cidade (lc24:49), reforçada em Atos com o "não se afastar de Jerusalém" (at1:4). Quem trata isso como detalhe menor está fugindo do problema: são duas geografias teológicas distintas, e a leitura honesta começa admitindo que harmonizá-las exige trabalho, não uma nota de rodapé.
O ponto que muda a conversa é que o próprio Lucas, na obra que escreveu em seguida, afirma um período de quarenta dias de aparições (at1:3). Isso significa que o autor que mais "comprime" o cronograma é também o que mais o estica: ele sabia de um intervalo longo e mesmo assim narrou o evangelho como se tudo coubesse num dia. A categoria literária para isso não é "erro", é telescoping, a compressão narrativa que historiadores antigos praticavam rotineiramente, costurando eventos separados num único fôlego sem marcadores temporais. Lucas 24 não diz em momento algum que a ascensão ocorreu no mesmo domingo; ele simplesmente não insere as pausas, e o leitor moderno, condicionado a esperar cronologia linear, preenche o vazio. O mesmo Lucas que cabe um dia no evangelho explicita os quarenta dias em Atos, o que torna implausível ler a compressão como ignorância do autor sobre a duração real.
Quanto à seleção geográfica, vale notar o que João oferece sem ser forçado a isso: aparições em Jerusalém (cap. 20) seguidas de uma na Galileia (cap. 21), exatamente a sequência que a leitura combinada precisa. João não é um harmonizador tardio tapando buracos; ele preserva, de forma independente, as duas localidades que Lucas e Mateus isolaram cada qual de seu lado. N.T. Wright, em "The Resurrection of the Son of God", argumenta que cada evangelista organiza as aparições segundo um eixo teológico (Jerusalém como cumprimento e ponto de partida da missão em Lucas-Atos; a Galileia como o lugar do chamado original e da comissão universal em Mateus), e que essa seletividade temática é precisamente o que se esperaria de quatro narradores escrevendo com propósitos distintos, não de quatro relatos copiados. Convergência forçada seria mais suspeita de colusão do que essa divergência de ênfase.
O que permanece em aberto, e seria desonesto fingir o contrário, é a tensão entre lc24:49 e at1:4, a ordem de permanecer em Jerusalém, e o pressuposto de Mateus e Marcos de que os discípulos deveriam ir à Galileia. A harmonização cronológica resolve a sequência (aparições no sul, depois no norte, depois retorno a Jerusalém antes de Pentecostes), mas não dissolve totalmente o fato de que Lucas constrói uma teologia jerusalemita tão centrada que a Galileia some por completo de seu relato pós-ressurreição. A inspiração não exige que os quatro escrevessem o mesmo itinerário; exige que o evento subjacente, encontros reais com o ressurreto, sustente as quatro leituras. Isso a compressão lucana e o testemunho independente de João tornam coerente. O que a evidência não entrega é uma cronologia única e costurada que todos os quatro teriam reconhecido como sua, e quem promete isso está vendendo mais do que os textos comportam.