A Ceia foi a Páscoa, ou foi antes da Páscoa?
Os quatro evangelhos concordam que Jesus foi crucificado numa sexta-feira, véspera do sábado. Divergem, porém, sobre a relação dessa sexta com a Páscoa judaica, e a diferença muda o dia da morte em relação à festa.
Nos três Sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas), a Última Ceia é explicitamente a refeição da Páscoa, preparada no dia em que se imolava o cordeiro. Jesus come a Páscoa com os discípulos e é preso na mesma noite. A crucificação, no dia seguinte, cai no próprio dia da festa (15 de nisã).
12 E, no primeiro dia dos pães ázimos, quando sacrificavam a páscoa, disseram-lhe os discípulos: Aonde queres que vamos fazer os preparativos para comer a páscoa?
15 E disse-lhes: Desejei muito comer convosco esta páscoa, antes que padeça;
João apresenta o quadro de forma diferente. Para ele, a ceia ocorre "antes da festa da Páscoa". No julgamento, os acusadores não entram no pretório para não se contaminarem e poderem comer a Páscoa, que portanto ainda não havia chegado. E João data a crucificação no "dia da preparação da Páscoa", quando os cordeiros eram mortos no templo.
1 Ora, antes da festa da páscoa, sabendo Jesus que já era chegada a sua hora de passar deste mundo para o Pai, como havia amado os seus, que estavam no mundo, amou-os até o fim.
28 Depois levaram Jesus da casa de Caifás para a audiência. E era pela manhã cedo. E não entraram na audiência, para não se contaminarem, mas poderem comer a páscoa.
14 E era a preparação da páscoa, e quase à hora sexta; e disse aos judeus: Eis aqui o vosso Rei.
| Questão | Sinóticos | João |
|---|---|---|
| A Última Ceia foi... | A refeição da Páscoa | Antes da Páscoa |
| Jesus morre em... | 15 de nisã (dia da festa) | 14 de nisã (véspera) |
| Coincide com... | O dia da Páscoa | A imolação dos cordeiros |
O que está em jogo
A diferença não é trivial: nos Sinóticos Jesus celebra a Páscoa e depois morre; em João ele morre na hora exata em que os cordeiros pascais eram sacrificados, reforçando o tema do "Cordeiro de Deus". As harmonizações propõem calendários diferentes em uso na época (por exemplo, um calendário solar tipo Qumran ao lado do oficial), ou releem as expressões de João como referências à preparação do sábado dentro da semana pascal. A leitura factual nota que a divergência pode ser histórica ou teológica, mas que, lida ao pé da letra, os textos colocam a morte em dias distintos em relação à festa.
E a hipótese da quarta-feira?
Alguns grupos defendem que Jesus foi crucificado numa quarta-feira, não numa sexta. O argumento parte do "sinal de Jonas": Jesus anuncia que ficaria "três dias e três noites" no coração da terra, e entre a tarde de sexta e a madrugada de domingo não cabem três noites completas. Na reconstrução, o "sábado" que se aproximava na morte de Jesus não seria o sábado semanal, mas um sábado anual, o primeiro dia da festa dos Pães Asmos, que naquele ano teria caído na quinta-feira. João chama aquele sábado de "grande dia", o que daria apoio à leitura.
40 Pois, como Jonas esteve três dias e três noites no ventre da baleia, assim estará o Filho do homem três dias e três noites no seio da terra.
31 Os judeus, pois, para que no sábado não ficassem os corpos na cruz, visto como era a preparação (pois era grande o dia de sábado), rogaram a Pilatos que se lhes quebrassem as pernas, e fossem tirados.
A hipótese, porém, colide com os próprios textos. Marcos define o dia da morte como "a preparação, isto é, a véspera do sábado", e paraskeuē já era no primeiro século o nome técnico da sexta-feira. Lucas encadeia os dias sem folga: as mulheres veem o sepultamento, descansam "o sábado" (um só) e vão ao túmulo "no primeiro dia da semana". E a contagem judaica de dias era inclusiva: parte de um dia contava como o dia inteiro, de modo que "três dias e três noites" funcionava como expressão idiomática para um intervalo que toca três dias, exatamente como Ester jejua "três dias, noite e dia" e aparece diante do rei "ao terceiro dia". Por isso a cronologia da sexta-feira é a leitura da esmagadora maioria dos historiadores e das igrejas, e a divergência real entre os evangelhos não está no dia da semana, em que os quatro concordam, mas na relação daquela sexta com a Páscoa.
42 E, chegada a tarde, porquanto era o dia da preparação, isto é, a véspera do sábado,
56 E, voltando elas, prepararam especiarias e ungüentos; e no sábado repousaram, conforme o mandamento.
16 Vai, ajunta a todos os judeus que se acharem em Susã, e jejuai por mim, e não comais nem bebais por três dias, nem de dia nem de noite, e eu e as minhas servas também assim jejuaremos. E assim irei ter com o rei, ainda que não seja segundo a lei; e se perecer, pereci.