A despedida nas próprias cartas
O apóstolo Paulo, segundo a tradição, foi decapitado em Roma durante a perseguição de Nero, na mesma época da morte de Pedro. A decapitação, e não a cruz, é atribuída ao seu status de cidadão romano: a lei romana poupava o cidadão das formas mais infamantes de execução, reservadas a escravos e não cidadãos. A própria cidadania de Paulo é registrada no livro de Atos.
25 E, quando o estavam atando com correias, disse Paulo ao centurião que ali estava: É-vos lícito açoitar um romano, sem ser condenado?
26 E, ouvindo isto, o centurião foi, e anunciou ao tribuno, dizendo: Vê o que vais fazer, porque este homem é romano.
27 E, vindo o tribuno, disse-lhe: Dize-me, és tu romano? E ele disse: Sim.
28 E respondeu o tribuno: Eu com grande soma de dinheiro alcancei este direito de cidadão. Paulo disse: Mas eu o sou de nascimento.
29 E logo dele se apartaram os que o haviam de examinar; e até o tribuno teve temor, quando soube que era romano, visto que o tinha ligado.
O Novo Testamento não narra a morte de Paulo. O livro de Atos termina com ele preso em Roma, aguardando julgamento. Mas a Segunda Carta a Timóteo, apresentada como suas últimas palavras, soa como uma despedida de quem sabe que o fim chegou: "estou sendo já oferecido por libação, e o tempo da minha partida está próximo".
6 Porque eu já estou sendo oferecido por aspersão de sacrifício, e o tempo da minha partida está próximo.
7 Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé.
8 Desde agora, a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, justo juiz, me dará naquele dia; e não somente a mim, mas também a todos os que amarem a sua vinda.
20 Segundo a minha intensa expectação e esperança, de que em nada serei confundido; antes, com toda a confiança, Cristo será, tanto agora como sempre, engrandecido no meu corpo, seja pela vida, seja pela morte.
21 Porque para mim o viver é Cristo, e o morrer é ganho.
22 Mas, se o viver na carne me der fruto da minha obra, não sei então o que deva escolher.
23 Mas de ambos os lados estou em aperto, tendo desejo de partir, e estar com Cristo, porque isto é ainda muito melhor.
As fontes antigas
Como no caso de Pedro, a fonte mais antiga é 1 Clemente (c. 96), que recorda os muitos sofrimentos de Paulo, suas prisões e seu testemunho no Oriente e no Ocidente antes de partir. No século 2, os Atos de Paulo narram sua decapitação, e Tertuliano registra que Paulo foi morto pela espada em Roma, comparando seu fim ao do apóstolo Pedro e ao do Batista. A tradição localiza a execução na via Ostiense, onde mais tarde se ergueria a basílica de São Paulo Extramuros.
6 Por causa do ciúme e da contenda, Paulo, com o seu exemplo, mostrou o prêmio da perseverança paciente. Depois de ter estado sete vezes preso, ter sido expulso para o exílio, ter sido apedrejado, ter pregado no Oriente e no Ocidente, ele conquistou a nobre fama que foi a recompensa da sua fé,
9 Então Paulo foi trazido até ele, conforme o decreto; e ele manteve sua palavra, de que ele fosse decapitado. E Paulo disse: César, não é por pouco tempo que vivo para o meu rei; e, se você me decapitar, isto farei: ressuscitarei e me mostrarei a você, para que saiba que não estou morto, mas vivo para o meu Senhor Jesus Cristo, que vem julgar o mundo.
5 Assim, anunciando-se publicamente como o primeiro entre os principais inimigos de Deus, ele foi levado a matar os apóstolos. Registra-se, portanto, que Paulo foi decapitado na própria Roma e que Pedro, igualmente, foi crucificado sob Nero. Esse relato sobre Pedro e Paulo é confirmado pelo fato de que seus nomes se conservam nos cemitérios daquele lugar até hoje.
O veredicto histórico é semelhante ao de Pedro: o martírio de Paulo em Roma sob Nero é antigo e multiplamente atestado, e largamente aceito como provável; a forma exata, a decapitação, é coerente com sua cidadania e com a tradição, mas repousa sobre fontes do segundo século em diante.