Onde Platão Não é Cristão: os Limites e Como Ler com Proveito

Quatro lugares onde a fé tem de dizer não

As páginas anteriores mostraram o quanto a fé colheu de Platão. Esta página faz o contrário, e é igualmente importante: aponta onde a República cruza uma linha que o cristão não pode cruzar. Não para condenar Platão, que escreveu como pagão quatro séculos antes de Cristo e não tinha como saber o que ainda viria, mas para que ninguém leia o livro pensando que tudo ali combina com o Evangelho. Não combina.

O primeiro ponto já apareceu: o Bem de Platão é impessoal e não cria. Ele é fonte do ser do mundo, mas não fez o mundo do nada por uma decisão livre, como ensina a fé ("no princípio criou Deus os céus e a terra"). A criação do nada, do absoluto zero, é uma ideia bíblica que a filosofia grega nunca teve. Esse é o primeiro abismo entre os dois.

A reencarnação do mito de Er

O segundo é mais sério ainda, e fecha o livro. A República termina com o mito de Er, um soldado que morre, visita o além e volta para contar. E o que ele conta é reencarnação: as almas, depois de julgadas, escolhem uma nova vida e voltam a nascer, de novo e de novo, num ciclo sem fim, podendo até renascer como animais. A própria fala da deusa do destino anuncia "um novo ciclo de vida e de morte para a raça mortal".

2 "Ouçam a palavra de Láquesis, a filha da Necessidade. Almas efêmeras, eis o começo de um novo ciclo de vida e de morte para a raça mortal. Não será um destino que escolherá vocês: vocês é que escolherão o seu destino. Aquele que tirar o primeiro número escolherá primeiro a vida à qual ficará ligado por necessidade.

A fé cristã rejeita isso de frente. A Escritura ensina que "aos homens está ordenado morrerem uma só vez, vindo depois disso o juízo": uma vida, não muitas. E a esperança cristã não é a alma trocando de corpo para sempre, e sim a ressurreição do mesmo corpo, transformado e glorificado. Aqui a herança platônica da alma imortal, que vimos na primeira página, mostra seu reverso perigoso: levada até o fim por Platão, ela vira reencarnação, justamente o que o cristianismo nega.

A mentira nobre, a família abolida e o elitismo

Há ainda problemas morais e políticos. Para manter sua cidade ideal unida, Platão propõe o que ele mesmo chama de "mentira nobre": uma falsidade inventada pelos governantes, contada ao povo como se fosse verdade sagrada, para que cada um aceite seu lugar. Ele assume que governar bem exige enganar os governados para o bem deles.

18 Então, como inventaremos uma daquelas mentiras necessárias de que falávamos pouco, uma única mentira nobre capaz de convencer, se possível, os próprios governantes, ou pelo menos o resto da cidade? Que tipo de mentira?, ele perguntou.

Para o cristão, isso esbarra direto no mandamento de não dar falso testemunho e na figura de Cristo, que se diz a própria Verdade e diz que a verdade liberta. Um regime fundado numa mentira útil, por mais bem-intencionada, é estranho ao Evangelho.

Na mesma linha, Platão propõe abolir a família entre seus guardiões: as mulheres e os filhos seriam "de todos em comum", e nenhum pai conheceria o próprio filho, para que ninguém preferisse os seus aos da cidade.

27 A lei que vem na sequência desta e de tudo o que veio antes, eu disse, é a seguinte: as mulheres dos nossos guardiões serão de todos em comum, e seus filhos também serão de todos em comum, e nenhum pai conhecerá o próprio filho, nem nenhum filho o próprio pai. Sim, ele disse, essa é uma onda bem maior que a outra, e tanto a possibilidade quanto a utilidade dessa lei são muito mais discutíveis.

E vai além, propondo controlar quem tem filhos com quem, unindo "os melhores aos melhores" e desencorajando os demais, uma forma antiga de eugenia, para "manter o rebanho em ótima condição".

40 Pois bem, eu disse, estabelecemos o princípio de que os melhores de cada sexo devem se unir aos melhores com a maior frequência possível, e os piores aos piores o mais raramente possível; e que se devem criar os filhos dos primeiros, mas não os dos segundos, se quisermos manter o rebanho em ótima condição. Ora, esses procedimentos precisam ser um segredo que os governantes conhecem, ou haverá o risco de o nosso rebanho, como se pode chamar os guardiões, se rebelar. É bem verdade.

Tudo isso bate de frente com a fé, que põe o casamento e a família entre as coisas santas, que defende cada vida sem cálculo de "qualidade", e que vê a pessoa, mesmo a mais fraca, como imagem de Deus. Some-se a isso o elitismo de fundo da República, onde poucos sábios mandam e a maioria obedece sem nunca alcançar a verdade, e fica claro: a cidade de Platão não é a Cidade de Deus.

Então como o cristão lê um pagão genial?

Se há tanto a recusar, por que ler? Porque a tradição cristã, desde o início, soube colher o trigo e deixar o joio. O modelo está na própria Bíblia. Em Atenas, no Areópago, o apóstolo Paulo prega aos filósofos gregos e, em vez de xingá-los, cita os poetas pagãos deles: "nele vivemos, e nos movemos, e existimos". Ele aproveita a verdade que havia naquela cultura para apontar o caminho ao Deus vivo.

28 Porque nele vivemos, e nos movemos, e existimos; como também alguns dos vossos poetas disseram: Pois somos também sua geração.

Essa postura tem base mais funda. Paulo ensina que as qualidades invisíveis de Deus podem ser percebidas por qualquer um, a partir das coisas criadas, pela razão natural. Há, portanto, uma luz que brilha mesmo fora da Igreja, e é essa luz que faz um pagão como Platão acertar tanto sobre a virtude, a alma e o Bem supremo.

20 Porque as suas coisas invisíveis, desde a criação do mundo, tanto o seu eterno poder, como a sua divindade, se entendem, e claramente se vêem pelas coisas que estão criadas, para que eles fiquem inescusáveis;

Mas a colheita vem com um alerta. O mesmo Paulo adverte para que ninguém se deixe levar por uma "filosofia vã" que aprisiona em vez de libertar. As duas coisas andam juntas: aproveitar a razão como aliada, e não trocar por ela o Deus que a razão sozinha jamais alcançaria.

8 Tende cuidado, para que ninguém vos faça presa sua, por meio de filosofias e vãs sutilezas, segundo a tradição dos homens, segundo os rudimentos do mundo, e não segundo Cristo;

Agostinho deu a essa atitude uma imagem inesquecível. Quando os hebreus saíram do Egito, levaram consigo o ouro e a prata dos egípcios, e com esse ouro pagão fizeram objetos para o culto do Deus verdadeiro. Do mesmo modo, disse ele, o cristão pode "despojar os egípcios": tomar o que há de verdadeiro e bom nos pagãos, como as virtudes e a alma imortal de Platão, e pô-lo a serviço da fé, deixando para trás os ídolos. Lido assim, com discernimento, Platão deixa de ser ameaça ou ídolo e vira o que sempre foi de melhor: uma das mentes que mais longe chegou tentando, só com a razão, vislumbrar o alto. E o cristão sabe que esse alto, que Platão chamou de Bem, tem um nome, um rosto, e nos amou primeiro.

Não é por acaso que o cristão se sente, no mundo, um pouco como o prisioneiro que saiu da caverna: estrangeiro aqui embaixo, com a cidadania lá no alto. Paulo diz que "a nossa pátria está nos céus". Platão sentiu a saudade da luz. A fé diz de onde ela vem.