De onde vêm as virtudes
Já temos as três partes, na cidade e na alma: razão, ânimo e apetite. Agora Platão mostra que de cada arranjo dessas partes nasce uma virtude. Não são quatro virtudes soltas. São quatro nomes para a saúde de uma alma bem organizada. Vamos ver uma de cada vez.
| Virtude | Onde mora | O que é, em uma linha |
|---|---|---|
| Sabedoria | Na razão (governantes) | Saber o que é bom para o todo e decidir certo |
| Coragem | No ânimo (guerreiros) | Manter firme o que se deve e não se deve temer |
| Temperança | Em todas as partes juntas | O acordo de que a razão deve mandar |
| Justiça | Em todas as partes juntas | Cada parte fazendo o seu próprio trabalho |
As duas que residem num lugar só
A sabedoria é fácil de localizar. Ela está na parte que pensa e aconselha, a razão, que na cidade são os governantes. Uma cidade é sábia por causa do bom conselho dos poucos que sabem. A coragem também tem endereço fixo: está no ânimo, nos guerreiros. É a capacidade de segurar a opinião correta sobre o que temer, sob o calor do medo e do prazer, sem largá-la.
As duas que costuram tudo
A temperança é diferente. Ela não fica num andar só. É como uma música que percorre toda a escala. É o acordo entre as três partes de que a razão deve governar, sem ninguém se rebelar. É o autodomínio: o melhor de você no comando do pior. E a justiça, o alvo do livro inteiro, é a última. Platão a encontra logo depois de fechar as outras três:
32 E assim, eu disse, podemos considerar que três das quatro virtudes foram descobertas em nossa cidade. A última dessas qualidades que tornam uma cidade virtuosa deve ser a justiça, se ao menos soubéssemos o que ela é. A conclusão é óbvia.
A justiça é a virtude que torna todas as outras possíveis: é cada parte cumprindo o seu papel, o que deixa cada uma livre para ser sábia, corajosa e temperante. Tira a justiça e tudo desmorona.
Por que isso atravessou os séculos
Essas quatro, sabedoria, coragem, temperança e justiça, ficaram conhecidas como as virtudes cardeais. A palavra vem do latim cardo, que significa dobradiça. São as virtudes nas quais a vida boa se apoia e gira, como uma porta na sua dobradiça. Séculos depois, pensadores cristãos como Agostinho e Tomás de Aquino adotaram exatamente essas quatro, somaram a elas as três virtudes da fé (fé, esperança e caridade) e montaram o esqueleto da moral cristã. O leigo que reza ou ouve falar em virtude cardeal está, sem saber, pisando num degrau construído por Platão nestas páginas.