A Forma que está acima de todas
Vimos que existem muitas Formas perfeitas: a Beleza em si, a Justiça em si. Platão dá um passo a mais e diz que há uma Forma no topo de todas, a mais importante de todas, sem a qual nenhuma das outras serviria de nada: a Ideia do Bem. Ele a chama de o conhecimento mais alto que existe, e diz que só por causa dela todas as outras coisas se tornam úteis e valiosas.
33 Nobre pensamento. Mas você imagina que vamos deixar de perguntar qual é esse conhecimento mais alto? Não, eu disse, pergunte se quiser. Mas tenho certeza de que você já ouviu a resposta muitas vezes, e agora ou não me entende ou, como mais acho, está disposto a ser inconveniente. Pois muitas vezes lhe disseram que a ideia do bem é o conhecimento mais alto, e que todas as outras coisas só se tornam úteis e vantajosas pelo uso que fazem dela.
O Bem é tão alto que Platão diz uma frase ousada: ele está "além do ser". Quer dizer que o Bem não é só mais uma coisa que existe entre as outras. Ele é a fonte de onde todas as outras tiram tanto o seu existir quanto a possibilidade de serem conhecidas. É o princípio supremo, a raiz de tudo. Como explicar algo tão alto a quem nunca pensou nisso? Platão sabe que é difícil e, em vez de definir, conta uma comparação genial.
A analogia do Sol
Pense no que o sol faz pela visão. Você tem olhos saudáveis e há cores diante de você, mas no escuro não enxerga nada. Falta uma terceira coisa: a luz. O sol é quem derrama essa luz e torna tudo visível. Sem o sol, os olhos são inúteis e as cores ficam escondidas. O sol não é a visão nem o olho, mas é o autor da visão, aquilo que faz o ver acontecer.
21 Então o sol não é a visão, mas o autor da visão, reconhecido por ela mesma? É verdade, ele disse. E é a este que eu chamo de filho do bem, que o bem gerou à sua própria semelhança. Ele está para o mundo visível, em relação à visão e às coisas da visão, assim como o bem está para o mundo intelectual, em relação à mente e às coisas da mente.
Agora vem a chave. Platão diz: o Bem é, no mundo das ideias, exatamente o que o sol é no mundo visível. Assim como o sol torna as coisas visíveis e dá vida a elas, o Bem torna as Formas cognoscíveis e dá a elas o seu ser. Quando a mente se volta para a verdade iluminada pelo Bem, ela entende. Quando se volta para o mundo das coisas que mudam, ela só tateia, como um olho na penumbra. O Bem é o sol da verdade.
A Linha Dividida: os degraus da realidade
Platão fecha com uma imagem que organiza tudo de uma vez. Imagine uma linha cortada em duas partes desiguais, e depois cada parte cortada de novo. São quatro pedaços, e eles formam uma escada que vai do menos real e mais confuso até o mais real e mais claro. Embaixo ficam as sombras e os reflexos. Subindo, as coisas físicas. Mais acima, os objetos do raciocínio, como os da matemática. E no topo, as Formas puras, alcançadas pela razão, com a Ideia do Bem coroando tudo.
31 Agora pegue uma linha cortada em duas partes desiguais e divida cada uma delas de novo na mesma proporção. Suponha que as duas divisões principais correspondam, uma ao visível, a outra ao inteligível. Depois compare as subdivisões quanto à clareza ou falta de clareza, e você verá que a primeira seção, na esfera do visível, é feita de imagens. E por imagens quero dizer, em primeiro lugar, as sombras, e em segundo lugar, os reflexos na água e em corpos sólidos, lisos e polidos, e coisas do tipo. Você entende? Sim, entendo.
| Degrau da Linha (de baixo para cima) | O que se enxerga | Que estado é |
|---|---|---|
| Sombras e reflexos | Aparências de aparências | Imaginação, o mais incerto |
| Coisas físicas | Plantas, animais, objetos | Crença, opinião sobre o visível |
| Objetos do pensamento | Números, figuras da matemática | Entendimento, com hipóteses |
| As Formas e o Bem | A Justiça, a Beleza, o Bem em si | Razão pura, o conhecimento mais alto |
Repare que conhecer, para Platão, é subir essa escada. Quanto mais real é o que você contempla, mais verdadeiro é o seu conhecimento. A próxima página conta a história mais famosa de toda a obra, que transforma essa subida numa cena inesquecível: a alegoria da caverna.