Capítulos

Três cristãos condenados diante do prefeito Úrbico

2 Apologia de Justino Mártir

Contexto Histórico

A Segunda Apologia de Justino Mártir foi redigida como resposta direta a eventos concretos de perseguição ocorridos em Roma. O texto relata o caso de um mestre cristão chamado Ptolomeu, que foi condenado à morte pelo prefeito urbano Quinto Lólio Úrbico simplesmente por confessar ser cristão, sem que nenhum crime específico lhe fosse imputado. Quando um homem chamado Lúcio protestou publicamente contra a injustiça da sentença, também foi executado. Justino narra ainda o caso de uma mulher que se converteu ao cristianismo, abandonou as práticas imorais do marido e pediu o divórcio; o marido, em represália, denunciou seu professor cristão às autoridades. A tradição manuscrita apresenta o texto como dirigido aos romanos e ao Senado, mas em pelo menos um ponto ele interpela diretamente o imperador. O objetivo é expor a arbitrariedade das perseguições: os cristãos eram punidos pelo simples nome, e não por atos ilícitos demonstráveis.

O caso que motivou o livro

Por que motivo condenaste à morte um homem, que ninguém provou ser adúltero, ou fornicador, ou assassino, ou ladrão, ou salteador, ou, por fim, réu de algum crime, mas que apenas confessou levar o nome de cristão?

Justino Mártir, 2 Apologia de Justino Mártir 2:16

Autoria e Datação

A obra é atribuída a Justino Mártir (c. 100-165 d.C.), filósofo nascido em Flavia Neápolis (atual Nablus, na Cisjordânia), que se converteu ao cristianismo após percorrer diversas escolas filosóficas. É um dos apologistas cristãos mais citados do século II. A datação da Segunda Apologia depende da prefeitura urbana de Úrbico, exercida entre c. 146 e 160 d.C.: daí a faixa usual de c. 150 a 160 d.C., que alguns estendem até 161, ano da morte de Antonino Pio, mencionado como vivo no texto. Justino foi posteriormente preso em Roma durante o reinado de Marco Aurélio e decapitado por volta de 165 d.C., junto a seis companheiros, por recusar-se a oferecer sacrifício ao imperador.

O texto chegou até nós por meio de um único manuscrito de valor independente: Parisinus graecus 450, copiado em 11 de setembro de 1364, provavelmente no Império Bizantino. Cerca de 1.200 anos separam a morte de Justino do manuscrito mais antigo de suas obras. Um fragmento de papiro do século IV (P.Oxy. 5129), descoberto em Oxirrinco, preserva parte da Primeira Apologia e é anterior ao Parisinus, mas não cobre a Segunda.

Relação com a Primeira Apologia

A relação entre as duas Apologias é debatida. A leitura majoritária hoje é que as duas formavam originalmente uma só obra, separada depois na transmissão manuscrita, ou que a Segunda é um apêndice escrito para a Primeira. Uma leitura tradicional mais antiga as tratava como obras independentes, compostas em ocasiões distintas. Denis Minns e Paul Parvis, editores do texto grego, propõem uma terceira via: a Segunda seria um conjunto de fragmentos e rascunhos que Justino acumulou enquanto revisava a Primeira. A Segunda é bem mais breve (quinze capítulos curtos contra sessenta e oito da Primeira) e repete argumentos da Primeira. Gênero literário, público e ocasião seguem em aberto, como mostra o debate no Harvard Theological Review sobre o gênero da obra.

Conteúdo Principal

Além da denúncia das execuções injustas, a Segunda Apologia desenvolve um argumento filosófico de amplo alcance: o conceito do Logos Spermatikos (em grego, "palavra seminal" ou "semente do Verbo"). O termo vem da física estóica; Justino o reaproveita em sentido cristão, e o alcance exato dessa reapropriação continua discutido pelos estudiosos. Justino argumenta que o Logos divino, identificado com Cristo, disseminou sementes de verdade e razão por toda a humanidade antes da encarnação. Por isso, pensadores pagãos como Sócrates, Heráclito e Musônio, citados nominalmente por ele, partilhavam parcialmente desse Logos ao viverem conforme a razão. O desenvolvimento mais explícito da ideia aparece nos capítulos 7, 10 e 13 desta edição, onde Justino afirma que cada pessoa falou bem na proporção da parte que lhe coube do Logos spermatikos. Esse argumento cumpria dupla função apologética: explicar por que a verdade aparecia em autores pagãos sem invalidar a exclusividade do cristianismo, e demonstrar que os cristãos não eram hostis à razão ou à filosofia.

O texto também responde à objeção de por que os cristãos não recorrem ao suicídio para escapar das perseguições, e discute a natureza da providência divina diante do sofrimento dos justos.

A divisão em capítulos varia entre as edições modernas. Os roteiros abaixo seguem a numeração do texto publicado aqui.

Por que os cristãos não se matam

Anjos, demônios e os deuses dos poetas

Contra os estóicos: destino, liberdade e fim do mundo

O Verbo seminal e os filósofos

Portanto, tudo o que de bom foi dito por eles, pertence a nós, cristãos, porque nós adoramos e amamos, depois de Deus, o Verbo, que procede do mesmo Deus ingênito e inefável.

Justino Mártir, 2 Apologia de Justino Mártir 13:4

A polêmica com Crescente, o cínico

A conversão de Justino e o pedido final

Importância Histórica

A Segunda Apologia é considerada, junto com a Primeira, um dos textos fundacionais da apologética cristã e um dos primeiros esforços sistemáticos de diálogo entre o cristianismo e a tradição filosófica greco-romana. O Logos Spermatikos marcou a teologia posterior, sobretudo o modo como escritores cristãos passaram a tratar fé e razão. Clemente de Alexandria e Orígenes desenvolveram a mesma linha. Justino é contado entre os Padres da Igreja e venerado como mártir por católicos, ortodoxos e anglicanos.