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2 Apologia de Justino Mártir
Contexto Histórico
A Segunda Apologia de Justino Mártir foi redigida como resposta direta a eventos concretos de perseguição ocorridos em Roma. O texto relata o caso de um mestre cristão chamado Ptolomeu, que foi condenado à morte pelo prefeito urbano Quinto Lólio Úrbico simplesmente por confessar ser cristão, sem que nenhum crime específico lhe fosse imputado. Quando um homem chamado Lúcio protestou publicamente contra a injustiça da sentença, também foi executado. Justino narra ainda o caso de uma mulher que se converteu ao cristianismo, abandonou as práticas imorais do marido e pediu o divórcio; o marido, em represália, denunciou seu professor cristão às autoridades. A tradição manuscrita apresenta o texto como dirigido aos romanos e ao Senado, mas em pelo menos um ponto ele interpela diretamente o imperador. O objetivo é expor a arbitrariedade das perseguições: os cristãos eram punidos pelo simples nome, e não por atos ilícitos demonstráveis.
O caso que motivou o livro
- Justino diz que o que aconteceu sob Urbico o forçou a redigir o discurso — (2 Apologia de Justino Mártir 1:1)
- A mulher se torna casta ao conhecer os ensinamentos de Cristo e tenta persuadir o marido — (2 Apologia de Justino Mártir 2:2)
- Ela apresenta o libelo de repúdio e se separa depois da viagem do marido a Alexandria — (2 Apologia de Justino Mártir 2:6)
- Sem poder atingir a mulher, o marido denuncia Ptolomeu, que a instruíra na doutrina — (2 Apologia de Justino Mártir 2:9)
- Perguntado apenas se era cristão, Ptolomeu confessa e é acorrentado no cárcere — (2 Apologia de Justino Mártir 2:11)
- Lúcio protesta: nada foi provado contra o condenado além do nome de cristão — (2 Apologia de Justino Mártir 2:16)
- Lúcio agradece a condenação, e um terceiro que sobreveio também é morto — (2 Apologia de Justino Mártir 2:19)
Por que motivo condenaste à morte um homem, que ninguém provou ser adúltero, ou fornicador, ou assassino, ou ladrão, ou salteador, ou, por fim, réu de algum crime, mas que apenas confessou levar o nome de cristão?Justino Mártir, 2 Apologia de Justino Mártir 2:16
Autoria e Datação
A obra é atribuída a Justino Mártir (c. 100-165 d.C.), filósofo nascido em Flavia Neápolis (atual Nablus, na Cisjordânia), que se converteu ao cristianismo após percorrer diversas escolas filosóficas. É um dos apologistas cristãos mais citados do século II. A datação da Segunda Apologia depende da prefeitura urbana de Úrbico, exercida entre c. 146 e 160 d.C.: daí a faixa usual de c. 150 a 160 d.C., que alguns estendem até 161, ano da morte de Antonino Pio, mencionado como vivo no texto. Justino foi posteriormente preso em Roma durante o reinado de Marco Aurélio e decapitado por volta de 165 d.C., junto a seis companheiros, por recusar-se a oferecer sacrifício ao imperador.
O texto chegou até nós por meio de um único manuscrito de valor independente: Parisinus graecus 450, copiado em 11 de setembro de 1364, provavelmente no Império Bizantino. Cerca de 1.200 anos separam a morte de Justino do manuscrito mais antigo de suas obras. Um fragmento de papiro do século IV (P.Oxy. 5129), descoberto em Oxirrinco, preserva parte da Primeira Apologia e é anterior ao Parisinus, mas não cobre a Segunda.
Relação com a Primeira Apologia
A relação entre as duas Apologias é debatida. A leitura majoritária hoje é que as duas formavam originalmente uma só obra, separada depois na transmissão manuscrita, ou que a Segunda é um apêndice escrito para a Primeira. Uma leitura tradicional mais antiga as tratava como obras independentes, compostas em ocasiões distintas. Denis Minns e Paul Parvis, editores do texto grego, propõem uma terceira via: a Segunda seria um conjunto de fragmentos e rascunhos que Justino acumulou enquanto revisava a Primeira. A Segunda é bem mais breve (quinze capítulos curtos contra sessenta e oito da Primeira) e repete argumentos da Primeira. Gênero literário, público e ocasião seguem em aberto, como mostra o debate no Harvard Theological Review sobre o gênero da obra.
Conteúdo Principal
Além da denúncia das execuções injustas, a Segunda Apologia desenvolve um argumento filosófico de amplo alcance: o conceito do Logos Spermatikos (em grego, "palavra seminal" ou "semente do Verbo"). O termo vem da física estóica; Justino o reaproveita em sentido cristão, e o alcance exato dessa reapropriação continua discutido pelos estudiosos. Justino argumenta que o Logos divino, identificado com Cristo, disseminou sementes de verdade e razão por toda a humanidade antes da encarnação. Por isso, pensadores pagãos como Sócrates, Heráclito e Musônio, citados nominalmente por ele, partilhavam parcialmente desse Logos ao viverem conforme a razão. O desenvolvimento mais explícito da ideia aparece nos capítulos 7, 10 e 13 desta edição, onde Justino afirma que cada pessoa falou bem na proporção da parte que lhe coube do Logos spermatikos. Esse argumento cumpria dupla função apologética: explicar por que a verdade aparecia em autores pagãos sem invalidar a exclusividade do cristianismo, e demonstrar que os cristãos não eram hostis à razão ou à filosofia.
O texto também responde à objeção de por que os cristãos não recorrem ao suicídio para escapar das perseguições, e discute a natureza da providência divina diante do sofrimento dos justos.
A divisão em capítulos varia entre as edições modernas. Os roteiros abaixo seguem a numeração do texto publicado aqui.
Por que os cristãos não se matam
- A objeção: matai-vos uns aos outros e ide de uma vez para o vosso Deus — (2 Apologia de Justino Mártir 3:1)
- Deus não fez o mundo por acaso, mas por causa do gênero humano — (2 Apologia de Justino Mártir 3:2)
- Matar-se impediria que outros nascessem e fossem instruídos nos ensinamentos divinos — (2 Apologia de Justino Mártir 3:3)
- Não negam sob interrogatório porque não têm consciência de mal algum — (2 Apologia de Justino Mártir 3:4)
Anjos, demônios e os deuses dos poetas
- Deus entregou o cuidado das coisas sob o céu aos anjos que designou — (2 Apologia de Justino Mártir 4:2)
- Os anjos violam a ordem, se deixam vencer pelo amor às mulheres e geram os demônios — (2 Apologia de Justino Mártir 4:3)
- Os demônios escravizam os homens e semeiam assassínios, guerras e adultérios — (2 Apologia de Justino Mártir 4:4)
- Poetas e mitógrafos atribuíram a Deus e a seus filhos o que anjos e demônios fizeram — (2 Apologia de Justino Mártir 4:5)
- Os poetas deram aos deuses o nome que cada demônio pusera em si mesmo — (2 Apologia de Justino Mártir 4:6)
- O Pai do universo, sendo ingênito, não tem nome imposto — (2 Apologia de Justino Mártir 5:1)
- Pai, Deus, Criador e Senhor não são nomes, mas denominações tiradas de suas obras — (2 Apologia de Justino Mártir 5:2)
- Cristãos exorcizam pelo nome de Jesus onde encantadores e feiticeiros falharam — (2 Apologia de Justino Mártir 5:4)
Contra os estóicos: destino, liberdade e fim do mundo
- Deus adia o fim do universo por causa da semente dos cristãos espalhada pelo mundo — (2 Apologia de Justino Mártir 6:1)
- O dilúvio nas duas tradições: aquele que chamamos Noé e vós chamais Deucalião — (2 Apologia de Justino Mártir 6:2)
- Haverá conflagração universal, mas não a transformação cíclica que os estóicos ensinam — (2 Apologia de Justino Mártir 6:3)
- Anjos e homens foram criados livres, e por isso o castigo é justo — (2 Apologia de Justino Mártir 6:5)
- Ninguém seria digno de louvor se não pudesse também voltar-se para o vício — (2 Apologia de Justino Mártir 6:6)
- Resposta à objeção de que as leis divergem entre os povos — (2 Apologia de Justino Mártir 9:3)
O Verbo seminal e os filósofos
- A semente do Verbo é ingênita em todo o gênero humano: Heráclito, Musônio e outros — (2 Apologia de Justino Mártir 7:1)
- Os cristãos vivem conforme o Verbo total, que é Cristo, e não só conforme uma parte — (2 Apologia de Justino Mártir 7:3)
- A religião cristã possui o Verbo inteiro, feito corpo, razão e alma — (2 Apologia de Justino Mártir 10:1)
- Filósofos e legisladores acertaram conforme a parte do Verbo que lhes coube — (2 Apologia de Justino Mártir 10:2)
- Sócrates foi acusado dos mesmos crimes: novos demônios e desprezo aos deuses da cidade — (2 Apologia de Justino Mártir 10:5)
- Em Cristo creram não só filósofos e homens cultos, mas artesãos e pessoas sem instrução — (2 Apologia de Justino Mártir 10:8)
- Cada um falou bem pela parte que lhe coube do Verbo seminal divino — (2 Apologia de Justino Mártir 13:3)
- Uma coisa é o germe e a imitação; outra, aquele mesmo de quem se participa — (2 Apologia de Justino Mártir 13:6)
Portanto, tudo o que de bom foi dito por eles, pertence a nós, cristãos, porque nós adoramos e amamos, depois de Deus, o Verbo, que procede do mesmo Deus ingênito e inefável.Justino Mártir, 2 Apologia de Justino Mártir 13:4
A polêmica com Crescente, o cínico
- Justino prevê ser vítima das ciladas de Crescente, amigo da desordem e da ostentação — (2 Apologia de Justino Mártir 8:1)
- Crescente acusa os cristãos de ateísmo sem saber uma palavra sobre eles — (2 Apologia de Justino Mártir 8:2)
- Justino diz tê-lo interrogado e demonstrado que ele nada sabe da doutrina cristã — (2 Apologia de Justino Mártir 8:4)
- O dito socrático: não se deve estimar nenhum homem acima da verdade — (2 Apologia de Justino Mártir 8:6)
- A fábula de Xenofonte: Héracles na encruzilhada, entre a virtude e a maldade — (2 Apologia de Justino Mártir 11:3)
- A virtude promete enfeites eternos, não adorno passageiro e corruptível — (2 Apologia de Justino Mártir 11:5)
A conversão de Justino e o pedido final
- Ainda platônico, Justino muda de ideia ao ver cristãos indo intrepidamente à morte — (2 Apologia de Justino Mártir 12:1)
- Escravos, meninos e mulheres torturados para repetir as calúnias contra os cristãos — (2 Apologia de Justino Mártir 12:4)
- A acusação de canibalismo devolvida aos ritos romanos que aspergem sangue humano — (2 Apologia de Justino Mártir 12:5)
- O pedido de que o livro seja subscrito e publicado, para que outros conheçam a religião cristã — (2 Apologia de Justino Mártir 14:1)
- Quem condena sem saber dá a sentença contra si próprio — (2 Apologia de Justino Mártir 14:2)
- A obra termina em súplica para que todos os homens conheçam a verdade — (2 Apologia de Justino Mártir 15:4)
Importância Histórica
A Segunda Apologia é considerada, junto com a Primeira, um dos textos fundacionais da apologética cristã e um dos primeiros esforços sistemáticos de diálogo entre o cristianismo e a tradição filosófica greco-romana. O Logos Spermatikos marcou a teologia posterior, sobretudo o modo como escritores cristãos passaram a tratar fé e razão. Clemente de Alexandria e Orígenes desenvolveram a mesma linha. Justino é contado entre os Padres da Igreja e venerado como mártir por católicos, ortodoxos e anglicanos.