Cânticos 1
Cântico dos Cânticos de Salomão.
O título hebraico 'shir ha-shirim' ('cântico dos cânticos') é um superlativo, isto é, 'o mais sublime dos cânticos', a mesma construção de 'rei dos reis' ou 'santo dos santos'. A atribuição a Salomão é tradicional, mas a maioria dos estudiosos modernos data a composição como tardia (período persa ou helenístico, séc. V-III a.C.), por causa de aramaísmos e de palavras de empréstimo: o persa 'pardes' ('parque, pomar', 4:13) e o provável grego 'appiryon' ('liteira, padiola', 3:9). A própria expressão 'que é de Salomão' pode significar 'dedicado a' ou 'no estilo de' Salomão, não autoria direta.Quanto ao gênero, Cânticos é poesia amorosa, sem enredo contínuo, lei ou teologia explícita (Deus sequer é nomeado no livro). O texto se organiza como um diálogo entre uma jovem (a 'amada', chamada 'Sulamita' em 6:13), seu 'amado' e um coro de mulheres, as 'filhas de Jerusalém'. Daí duas tradições de leitura: a literal, que vê uma celebração do amor humano e do desejo sexual; e a alegórica, que historicamente garantiu sua entrada no cânon. No judaísmo a alegoria lê o amor entre YHWH e Israel; no cristianismo, entre Cristo e a Igreja (ou a alma). A canonicidade foi debatida entre os rabinos; Rabi Akiva (séc. II d.C.) a defendeu com a célebre frase de que 'todas as Escrituras são santas, mas o Cântico dos Cânticos é o santo dos santos' (Mishná, Yadayim 3:5).