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Palavras de Mórmon
Interpolação breve do compilador Mórmon, escrita cerca de quatro séculos depois dos livros que a cercam, explicando por que anexou as placas menores de Néfi ao seu resumo
Sobre o livro
Palavras de Mórmon é um capítulo único com 18 versículos e não é narrativa: é uma nota editorial. Quem fala é Mórmon, o compilador a quem a obra atribui o resumo de quase todos os livros seguintes, e ele explica por que juntou determinado conjunto de registros ao material que já havia abreviado.
Pela cronologia interna, Mórmon escreve por volta do ano 385 d.C., mais de trezentos anos depois de quase todos os eventos que compila, e está para entregar o registro ao filho Morôni. Na ordem impressa, porém, o texto aparece no meio da obra, entre Ômni e Mosias. Esse deslocamento é o que torna o livro peculiar.
Placas maiores e placas menores
Entender esta nota exige entender a arquitetura documental que o Livro de Mórmon descreve para si mesmo. A obra afirma se apoiar em dois conjuntos distintos de registros feitos por Néfi:
As placas maiores de Néfi seriam o registro político e histórico: reis, guerras, governo do povo. As placas menores de Néfi seriam o registro religioso: pregação, profecia e revelação. É desse segundo conjunto que vêm os livros iniciais da obra, de 1 Néfi até Ômni.
Mórmon diz que, ao terminar o resumo das placas maiores até o reinado do rei Benjamim, encontrou as placas menores, gostou do que leu por causa das profecias sobre a vinda de Cristo, e decidiu anexá-las ao seu registro. Acrescenta que faz isso por um propósito sábio, sussurrado pelo Espírito, cujo alcance ele mesmo declara não conhecer.
E faço isto com um sábio propósito; pois assim me é sussurrado, segundo o Espírito do Senhor que está em mim. E agora, eu não sei todas as coisas, mas o Senhor sabe todas as coisas que hão de acontecer.
As 116 páginas perdidas
A leitura desta nota editorial é inseparável de um episódio documentado da história da produção do livro, ocorrido em 1828, em Harmony, na Pensilvânia, e em Palmyra, Nova York.
Martin Harris, fazendeiro próspero que financiava o projeto e servia de escriba, pediu insistentemente a Joseph Smith para levar o manuscrito já traduzido e mostrá-lo à família. Depois de duas recusas atribuídas a resposta divina, obteve permissão na terceira tentativa, mediante juramento de mostrá-lo apenas a cinco familiares nomeados. Levou consigo cerca de 116 páginas manuscritas, correspondentes ao chamado Livro de Leí. O material se perdeu e nunca foi recuperado. As circunstâncias exatas do desaparecimento não são conhecidas.
Joseph Smith não retraduziu a parte perdida. A explicação registrada, hoje na seção 10 de Doutrina e Convênios, foi que homens mal-intencionados poderiam ter alterado o manuscrito para depois exibir as diferenças e desacreditar a tradução. No lugar do material perdido entrou o conteúdo das placas menores, que cobriria o mesmo período por outro ângulo. Palavras de Mórmon é a costura que emenda esse bloco substituto ao restante da obra, e o texto passa de Palavras de Mórmon 1:18 direto para o começo de Mosias.
As duas leituras do episódio são conhecidas e opostas. A leitura SUD vê aqui providência antecipada: um autor antigo teria sido inspirado a preservar um registro paralelo, sem saber por quê, mil e quatrocentos anos antes de o registro fazer falta. A leitura crítica vê solução narrativa de um autor do século XIX diante de um problema prático, com a nota editorial fazendo a costura do material substituto. Os fatos externos, a perda em 1828 e a não retradução, são comuns às duas versões. O que difere é a explicação, e nenhuma das duas é decidida pelos documentos disponíveis.
A parte final e o rei Benjamim
Os últimos versículos mudam de assunto e passam a narrar o rei Benjamim: contendas internas, invasão lamanita, o rei combatendo com a espada de Labão, falsos Cristos e falsos profetas silenciados, e por fim a paz restabelecida. Essa seção liga diretamente à abertura de Mosias, e alguns estudiosos SUD, notando a continuidade de estilo, sugerem que ela pertencia originalmente ao começo daquele livro. É hipótese sobre a formação do texto, não posição oficial.
Manuscritos e fontes
Não há manuscrito antigo de Palavras de Mórmon. Sobrevivem parte do manuscrito original de 1829, o manuscrito do impressor preparado para a tipografia de E. B. Grandin e a primeira edição de 1830. Sobre as 116 páginas, o que existe são relatos posteriores de Joseph Smith, de Lucy Mack Smith e de Martin Harris, e o texto que hoje figura como seção 10 de Doutrina e Convênios. As páginas em si nunca reapareceram.
Paralelo bíblico útil: o cuidado com o registro escrito e a consciência do escriba diante da posteridade aparecem também no fim do quarto evangelho, quando o autor comenta a seletividade do que registrou.