Capítulos

Dois grupos se encontrando junto a uma coluna de pedra antiga

Ômni

Livro de capítulo único escrito por cinco guardiões sucessivos do registro. Narra a descoberta do povo de Zaraenla, sobrevivente de outra migração vinda de Jerusalém, e a entrega das placas ao rei Benjamim

Sobre o livro

Ômni é um capítulo único com 30 versículos, o último dos livros breves do Livro de Mórmon antes de Palavras de Mórmon e Mosias. Sua peculiaridade formal é clara: não tem um autor, tem cinco.

O registro passa de mão em mão dentro de uma mesma linhagem e de seus sucessores: Ômni, filho de Jarom, depois Amaron, Quêmis, Abinadom e por fim Amaléqui. Cada um escreve poucos versículos, quase sempre para dizer que escreve pouco, e entrega as placas ao seguinte. O capítulo cobre cerca de duzentos anos da cronologia interna da obra.

Sobre a origem do texto, a tradição dos Santos dos Últimos Dias o entende como tradução de registro antigo, e a leitura acadêmica majoritária fora dela como composição do século XIX. Este índice descreve o conteúdo e apresenta as duas posições onde elas divergem.

Os cinco guardiões

A cadeia de custódia do registro

  • Ômni, homem de guerra, que se declara iníquo e não guardou os estatutos(Ômni 1:2)
  • Amaron, que registra a destruição da parte mais iníqua dos nefitas(Ômni 1:5)
  • Quêmis, irmão de Amaron, autor de um único versículo(Ômni 1:9)
  • Abinadom, que diz não conhecer revelação além do que já está escrito(Ômni 1:11)
  • Amaléqui, o mais extenso, que narra Mosias e o encontro com Zaraenla(Ômni 1:12)

A voz de Abinadom chama atenção pelo contraste com o restante da obra. Ele afirma que não conhece revelação nem profecia que não tenha sido escrita, e encerra. É uma das poucas passagens do Livro de Mórmon em que um narrador declara não ter nada de espiritual a acrescentar.

O povo de Zaraenla e a migração de Mulek

A parte mais discutida do livro está na narração de Amaléqui. Mosias, avisado a fugir da terra de Néfi, conduz seu povo pelo deserto e encontra outro povo já estabelecido, chamado povo de Zaraenla. Esse povo teria saído de Jerusalém na época em que Zedequias, rei de Judá, foi levado cativo para a Babilônia, atravessado as grandes águas e chegado à mesma terra.

E aconteceu que Mosias descobriu que o povo de Zaraenla saíra de Jerusalém na época em que Zedequias, rei de Judá, fora levado cativo para a Babilônia.

Ômni 1:15

O texto descreve esse grupo como numeroso, sem registros escritos, com o idioma corrompido e sem religião estruturada. Depois do encontro, os dois povos se unem sob Mosias como rei. Passagens posteriores do Livro de Mórmon identificam o fundador desse grupo como Mulek, filho de Zedequias.

A tensão com 2 Reis 25 e Jeremias 52

A Bíblia relata a queda de Jerusalém com um detalhe duro. Os filhos de Zedequias são mortos diante dele, e em seguida ele é cegado e levado para a Babilônia. A afirmação aparece duas vezes, em livros diferentes.

(2Rs 25:7)

(Jr 52:10)

Se todos os filhos de Zedequias morreram em Ribla, um filho sobrevivente que emigra para as Américas não cabe no relato bíblico. A objeção é direta.

A resposta SUD tem dois movimentos. O primeiro é textual: o hebraico de 2 Reis 25:7 diz que mataram os filhos de Zedequias, sem a palavra todos, o que deixaria margem para um filho ausente ou muito jovem. O segundo é onomástico: Jeremias 38:6 cita um Malquias, filho do rei, e um selo de pedra inscrito Malkiyahu, filho do rei apareceu no mercado de antiguidades em 1991. Robert F. Smith (1984) propôs que Mulek seja forma hipocorística de Malkiyahu, e Jeffrey Chadwick argumentou que o rei implícito em Jeremias 38 seria Zedequias.

(Jr 38:6)

A contestação tem três movimentos. O selo não veio de escavação controlada: sem procedência, sua autenticidade foi questionada, entre outros por André Lemaire, e material comprado no mercado não sustenta identificação de pessoa. O título filho do rei em selos hebraicos pode designar cargo administrativo, e não parentesco, leitura corrente na epigrafia noroeste-semítica; Chadwick contesta e sustenta que o termo sempre indica filho biológico, sem que o debate esteja encerrado. E o nome Malkiyahu é comum no período, o que enfraquece o vínculo com um indivíduo específico.

Sobre o argumento do silêncio, os dois lados marcam ponto. Jeremias 52:10 repete a execução, o que a crítica lê como confirmação; a defesa observa que também ali falta a palavra todos, e que a crítica considera Jeremias 52 um apêndice paralelo a 2 Reis 25, e não um segundo testemunho independente.

O estado da questão é este: o texto bíblico afirma a morte dos filhos sem quantificar, a defesa SUD oferece uma brecha filológica possível e um paralelo onomástico discutido, e a crítica considera a brecha insuficiente. Não há evidência arqueológica de migração do Levante para as Américas no século VI a.C. que arbitre a disputa. Este índice registra as duas posições e não decide entre elas.

A pedra gravada e Coriântumr

Amaléqui narra ainda que trouxeram a Mosias uma grande pedra gravada, que ele interpretou pelo dom e poder de Deus. A inscrição contava a história de Coriântumr e da destruição de seu povo, cujos primeiros pais teriam vindo da torre quando o Senhor confundiu a língua. É a ponte narrativa para o livro de Éter, e a alusão bíblica é a Babel de Gênesis 11.

(Gn 11:7)

Manuscritos

Não existe manuscrito antigo de Ômni. A base documental é a mesma de toda a obra: o manuscrito original ditado em 1828 e 1829, do qual sobrevive cerca de um quarto, o manuscrito do impressor e a edição de 1830 saída da tipografia de E. B. Grandin, em Palmyra. As placas descritas na narrativa de origem não estão disponíveis para exame.