Capítulos

Um general idoso num monte, olhando um campo de batalha ao longe

Mórmon

O compilador da obra narra em primeira pessoa as guerras finais e a destruição do povo nefita na colina Cumora, e dirige um apelo aos leitores futuros do registro que estava resumindo

Sobre o livro

Mórmon é o penúltimo livro do Livro de Mórmon, publicado por Joseph Smith em Palmyra, Nova York, em março de 1830. Tem 9 capítulos e narra o fim da nação nefita, entre cerca de 321 e 421 d.C.

É o único livro da obra que leva o nome do compilador. Segundo a narrativa interna, Mórmon é o general e profeta que resume todos os registros anteriores e dá nome ao conjunto. Os capítulos 1 a 7 são atribuídos a ele; os capítulos 8 e 9 são atribuídos a seu filho Morôni, que termina o registro depois da morte do pai e escreve sozinho.

E meu pai também foi morto por eles e eu fiquei sozinho para escrever a triste história da destruição de meu povo.

Mórmon 8:3

Sobre a origem do texto há duas leituras que não se conciliam. A posição de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias (SUD) é que o livro traduz um registro antigo gravado em placas de metal. A posição predominante entre historiadores e arqueólogos fora da tradição SUD é que se trata de composição do século XIX. Este índice apresenta as duas posições sem decidir entre elas.

O que o livro narra

Sequência narrativa

  • Mórmon, aos dez anos, recebe de Amaron a incumbência sobre os registros(Mórmon 1:2)
  • Aos dezesseis anos assume o comando dos exércitos nefitas(Mórmon 2:2)
  • Mórmon recusa liderar um exército que quer guerra ofensiva(Mórmon 3:11)
  • Brutalização recíproca dos dois povos e retirada nefita(Mórmon 4:11)
  • Concentração do povo na terra de Cumora para a batalha final(Mórmon 6:2)
  • Lamento de Mórmon sobre os mortos(Mórmon 6:17)
  • Morôni prevê o aparecimento do registro em tempos futuros(Mórmon 8:16)
  • Morôni descreve a escrita usada nas placas como egípcio reformado(Mórmon 9:32)

As guerras finais e Cumora

A parte central do livro é uma sequência de campanhas cada vez mais destrutivas entre nefitas e lamanitas. Mórmon descreve o colapso moral dos dois lados, com massacres de prisioneiros, e retrata a própria liderança como derrota anunciada. O desfecho está no capítulo 6: Mórmon negocia com o rei lamanita a concentração de todo o seu povo na terra de Cumora, junto a um monte de mesmo nome, e ali trava a batalha final.

O texto contabiliza os mortos por unidades de dez mil. Mórmon lista treze comandantes nomeados, entre eles ele próprio e seu filho Morôni, e mais dez unidades sem nome, cada uma com seus dez mil, o que soma cerca de duzentos e trinta mil combatentes nefitas mortos em um único episódio, sem contar os que fugiram para o sul ou passaram para o lado inimigo. Sobrevivem vinte e quatro pessoas no campo.

E aconteceu que meus homens foram abatidos, sim, os dez mil que estavam comigo, e eu caí ferido no meio deles.

Mórmon 6:10

A questão arqueológica de Cumora

A colina onde, segundo Joseph Smith, ele recebeu as placas fica perto de Manchester, no condado de Ontário, estado de Nova York. Desde o século XIX ela é chamada de Cumora por membros da Igreja SUD, e a Igreja mantém ali um sítio histórico visitado por peregrinos.

Não há evidência arqueológica de uma batalha dessa escala naquele local. A colina de Nova York é uma morena glacial, e prospecções e escavações na área não encontraram ossadas em massa, armas, fortificações, valas comuns ou qualquer horizonte de destruição do século IV compatível com centenas de milhares de mortos. Um confronto desse porte deixaria vestígios abundantes e duráveis, e a região é bem estudada. Esse é um dos pontos em que críticos consideram a narrativa refutada em sua leitura tradicional.

Muitos pesquisadores SUD contemporâneos respondem separando duas coisas. Argumentam que o texto nunca identifica a colina onde Joseph Smith recebeu as placas com o monte Cumora da batalha, e que essa identificação nasceu de um costume posterior, não de uma revelação. Nessa leitura, chamada de teoria das duas Cumoras, a batalha teria ocorrido em outro lugar, provavelmente na Mesoamérica, dentro do modelo de geografia limitada adotado pela maior parte dos estudiosos SUD desde meados do século XX, e Morôni teria transportado as placas por conta própria até Nova York ao longo de décadas de fuga.

Essa proposta é contestada em duas frentes. De um lado, membros e pesquisadores SUD que defendem o modelo hemisférico tradicional apontam declarações de Joseph Smith, de Oliver Cowdery e de outros líderes do século XIX identificando a colina de Nova York com o campo de batalha, e sustentam que abandonar essa identificação contraria a tradição fundacional. De outro, críticos observam que a proposta afasta a objeção arqueológica de um lugar específico mas não a elimina, porque também não há na Mesoamérica um sítio com evidência de destruição em escala equivalente por volta de 385, nem qualquer traço material de uma população que escrevesse em caracteres derivados do egípcio ou do hebraico. Não há consenso, e a discussão continua em publicações dos dois lados.

Egípcio reformado

No capítulo 9, Morôni descreve a escrita usada nas placas e explica por que não escreveu em hebraico.

E agora, eis que escrevemos este registro de acordo com nosso conhecimento, em caracteres denominados por nós egípcio reformado.

Mórmon 9:32

Nenhum sistema de escrita com esse nome é conhecido pela egiptologia ou pela epigrafia americana, e não há inscrição pré-colombiana nas Américas em caracteres egípcios ou hebraicos reconhecida por especialistas fora da tradição SUD. Pesquisadores SUD observam que a expressão é uma descrição interna feita por um escriba, não um termo técnico moderno, e citam casos históricos de línguas semíticas escritas em sistemas emprestados e adaptados, como o aramaico em caracteres demóticos egípcios no Papiro Amherst 63, para argumentar que a prática descrita não é implausível em princípio. A objeção que permanece é factual e não conceitual: implausível ou não, nenhum documento assim foi encontrado nas Américas, e as placas não estão disponíveis para exame.

Como o livro é lido hoje

Para a Igreja SUD, Mórmon é escritura e cumpre duas funções: fecha a história nefita e explica como o registro chegou ao século XIX, já que é aqui que Morôni anuncia o aparecimento futuro do livro. Fora dessas comunidades, o texto costuma ser estudado como literatura religiosa norte-americana do século XIX, e alguns leitores o tratam como um dos trechos mais sombrios da obra, próximo em tom aos lamentos proféticos do Antigo Testamento.

Sobre a base histórica, o quadro é o mesmo do restante do Livro de Mórmon. Não há atestação independente dos povos, das cidades ou dos personagens nomeados. Pesquisadores SUD sustentam que a ausência de identificação não equivale a refutação, dado o estado da arqueologia mesoamericana. Críticos respondem que o problema é o silêncio material completo diante de uma civilização descrita como numerosa, alfabetizada e organizada em exércitos de dezenas de milhares. As duas posições estão publicadas e nenhuma foi retirada.