Capítulos

Helamã
A deterioração da sociedade nefita sob as combinações secretas de Gadiânton e a pregação de Samuel, o lamanita, que anuncia do alto de um muro os sinais que marcarão o nascimento e a morte de Cristo
Sobre o livro
Helamã é o décimo livro do Livro de Mórmon, publicado em Palmyra, Nova York, em março de 1830 por Joseph Smith. Tem 16 capítulos. Na narrativa interna, é um resumo feito pelo profeta Mórmon a partir dos registros de Helamã, filho de Helamã, e de seus filhos Néfi e Leí, e cobre cerca de meio século, entre 52 a.C. e 1 a.C.
Sobre a origem do texto há duas leituras que não se conciliam. A posição de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias (SUD) é que o livro traduz um registro antigo gravado em placas de metal, entregue a Joseph Smith por um mensageiro angelical e vertido para o inglês por dom divino. A posição predominante entre historiadores e arqueólogos fora da tradição SUD é que se trata de uma composição do século XIX, sem registro material anterior a 1830. Nenhuma placa está disponível para exame; existem depoimentos assinados de três e de oito testemunhas que afirmam tê-las visto. Este índice apresenta as duas posições e não decide entre elas.
O texto em português é a tradução oficial da Igreja SUD, feita a partir do inglês. A divisão em capítulos e versículos numerados é editorial, adotada na edição de 1879.
O que o livro narra
Helamã descreve um período de instabilidade política crescente entre os nefitas. A narrativa alterna assassinatos de juízes supremos, disputas pelo governo, guerras com os lamanitas, a pregação de dois missionários nefitas em território lamanita e, ao final, a chegada de um profeta lamanita que anuncia o nascimento e a morte de Cristo.
Sequência narrativa
- Disputa pelo cargo de juiz supremo e assassinato de Paorã por Quiscúmen — (Helamã 1:9)
- Gadiânton assume a liderança do bando secreto — (Helamã 2:4)
- Néfi e Leí pregam entre os lamanitas e são cercados por fogo na prisão — (Helamã 5:23)
- Os ladrões de Gadiânton tomam o governo nefita — (Helamã 6:39)
- Néfi prega da torre em seu jardim, em Zaraenla — (Helamã 7:10)
- Ciclo de orgulho, queda, aflição e arrependimento descrito por Mórmon — (Helamã 12:1)
- Samuel, o lamanita, prega do alto da muralha de Zaraenla — (Helamã 13:2)
- Os sinais do nascimento de Cristo: uma noite sem escuridão e uma nova estrela — (Helamã 14:3)
- Os sinais da morte de Cristo: três dias de trevas e cataclismos — (Helamã 14:20)
- Flechas e pedras não atingem Samuel; alguns creem, outros endurecem o coração — (Helamã 16:2)
As combinações secretas de Gadiânton
O tema mais característico do livro é o bando de Gadiânton, uma sociedade secreta unida por juramentos e sinais, dedicada a assassinato, roubo e tomada do poder. O texto a chama de combinação secreta e a apresenta como a causa da ruína final da nação nefita.
E eis que no fim deste livro vereis que esse mesmo Gadiânton veio a ser a causa da ruína, sim, da destruição quase completa do povo de Néfi.
Aqui há um ponto de divergência documentado. Pesquisadores que leem o Livro de Mórmon como obra do século XIX apontam o contexto imediato de sua publicação: em setembro de 1826, William Morgan, pedreiro de Batavia, Nova York, desapareceu quando preparava a publicação de um livro que revelava rituais maçônicos. A suspeita recaiu sobre maçons locais e desencadeou uma forte agitação antimaçônica no oeste do estado de Nova York, região onde vivia a família Smith. Surgiu um Partido Antimaçônico que disputou eleições estaduais e teve peso na campanha presidencial de 1828. A imprensa dessa onda descrevia a maçonaria como uma combinação secreta ligada por juramentos de sangue, expressão e imagens que reaparecem na descrição do bando de Gadiânton.
A resposta de pesquisadores SUD tem duas frentes. A primeira é lexical: a palavra combinação era de uso comum no inglês dos séculos XVIII e XIX no sentido de conspiração, e há ocorrências da expressão anteriores a 1826 e posteriores a 1830 com o mesmo sentido, o que enfraquece a suposição de que ela seja um marcador exclusivo da polêmica antimaçônica. A segunda é comparativa: sociedades secretas com juramentos, sinais e captura de instituições públicas são um fenômeno historicamente amplo, documentado em contextos que vão de bandos do Mediterrâneo antigo a organizações mesoamericanas, de modo que a semelhança não exigiria uma fonte de 1826.
Os críticos respondem que o argumento lexical resolve só uma parte do problema: a objeção não é o vocábulo isolado, e sim o conjunto de traços reunidos no mesmo lugar, juramentos secretos, sinais de reconhecimento, proteção mútua dos membros e infiltração no judiciário, que corresponde ponto a ponto ao retrato feito pela imprensa antimaçônica que circulava a poucos quilômetros da casa onde o livro foi ditado. O debate segue aberto, e não há evidência externa que o feche em favor de nenhum dos lados.
Samuel, o lamanita
Os capítulos 13 a 15 trazem o discurso de Samuel, profeta lamanita que prega do alto da muralha de Zaraenla depois de ter sido expulso da cidade. É a única figura lamanita do Livro de Mórmon a quem se atribui um discurso profético extenso, num livro cuja voz narrativa é sistematicamente nefita, e o texto usa isso para inverter o julgamento moral corrente: o povo tido como apóstata prega ao povo tido como eleito.
Samuel dá datas e sinais verificáveis dentro da própria narrativa. Cinco anos depois de seu discurso nasceria o Filho de Deus; o sinal seria um dia, uma noite e um dia sem escuridão, mais uma estrela nova. Na morte de Cristo haveria três dias de trevas, tempestades, terremotos e transformação do relevo.
Eis que haverá grandes luzes no céu, de modo que na noite anterior a sua vinda não haverá escuridão, tanto que aos homens parecerá ser dia.
O cumprimento desses sinais é narrado adiante, no livro de 3 Néfi, o que faz de Helamã a preparação literária direta para o clímax da obra. A relação com os evangelhos também é objeto de discussão. Leitores SUD veem coerência com o relato de trevas na crucificação registrado em Mateus, Marcos e Lucas, e leem os sinais americanos como manifestação paralela do mesmo evento. Historiadores observam que o discurso de Samuel descreve os sinais com um grau de detalhe e uma cronologia que os evangelhos não fornecem, e que o texto pressupõe categorias cristãs já formadas, o que para eles indica composição posterior aos evangelhos.
Como o livro é lido hoje
Para a Igreja SUD e para as demais denominações do movimento restauracionista fundado por Joseph Smith, Helamã é escritura, lido em ciclo devocional junto com a Bíblia. Fora dessas comunidades, o livro é estudado sobretudo como documento da religião norte-americana do século XIX, e alguns pesquisadores literários o analisam como narrativa histórica extensa, independentemente da questão de origem.
Sobre a base material da narrativa, o quadro é o seguinte. Não há atestação arqueológica independente das cidades, dos povos ou dos personagens nomeados no livro, e nenhuma sociedade científica não confessional endossa a geografia nefita. Pesquisadores SUD que trabalham com o modelo de geografia limitada em território mesoamericano sustentam que a ausência de identificação não equivale a refutação, dado que a maior parte dos sítios da região não foi escavada e que topônimos antigos raramente sobrevivem. Críticos respondem que o problema não é a ausência de um nome, e sim a ausência de qualquer traço de uma civilização com escrita hebraica ou egípcia, cavalos, carros, aço e trigo nas Américas pré-colombianas, itens que o texto menciona. As duas posições estão publicadas e nenhuma foi retirada.