Capítulos

Um homem solitário ajoelhado em oração ao entardecer

Enos

Livro de capítulo único: o neto de Leí descreve uma oração que durou um dia e uma noite, o perdão que recebeu e sua súplica pela preservação do registro em favor dos lamanitas

Sobre o livro

Enos é um dos livros curtos do Livro de Mórmon, publicado por Joseph Smith em 1830, em Palmyra, Nova York. Tem um único capítulo com 27 versículos. No arranjo da obra, vem depois de Jacó e antes de Jarom.

O narrador se apresenta como Enos, filho de Jacó e neto de Leí, dentro da cronologia interna que situa a saída de Jerusalém por volta de 600 a.C. O próprio texto fecha a narrativa dizendo que haviam decorrido cento e setenta e nove anos desde essa saída.

A questão da origem do texto divide as posições e não se resolve aqui. Para A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, o livro é tradução de um registro antigo gravado em placas de metal. Para a maior parte dos historiadores fora dessa tradição, é composição do século XIX, produzida no ambiente religioso do interior de Nova York. Este índice descreve o texto e registra as duas leituras onde elas se chocam.

O que o livro narra

Enos conta que saiu para caçar e foi alcançado pelas palavras que ouvira do pai sobre a vida eterna. Ajoelhou-se e orou o dia inteiro e pela noite adentro. Recebe então uma voz que declara perdoados os seus pecados, e a resposta explica o perdão pela fé em Cristo, ainda antes da manifestação dele na carne.

A oração se expande em três círculos. Primeiro por si mesmo, depois pelos nefitas, e por fim pelos lamanitas, o grupo hostil. O pedido final é que os registros sejam preservados e um dia cheguem aos lamanitas. O restante do capítulo resume a vida de Enos: pregação, guerras contínuas entre os dois povos, agricultura e criação de animais, e a despedida do autor.

(Enos 1:4)

A luta de Enos e o eco de Peniel

O texto abre a narração chamando a experiência de luta perante Deus, e essa escolha de palavra aproxima o episódio de Gênesis 32, onde Jacó luta a noite toda com um homem no vau de Jaboque e dá ao lugar o nome de Peniel, face de Deus, por ter visto Deus face a face. O paralelo é reforçado porque o pai de Enos se chama justamente Jacó.

E relatar-vos-ei a luta que travei perante Deus antes de receber a remissão de meus pecados.

Enos 1:2

Autores SUD, entre eles John Tvedtnes e Matthew Roper (em artigo de 2001) e Matthew Bowen, tratam a semelhança como alusão literária deliberada de um autor antigo que conhecia a tradição patriarcal e a aplicava à própria biografia. O argumento se apoia num raro trocadilho hebraico: o verbo abaq, lutar, ocorre no Antigo Testamento apenas em Gênesis 32:24-25, e soa como o nome Jacó. Somam a isso o eco de Peniel na expressão perante Deus, literalmente à face de Deus.

A leitura crítica não nega o paralelo, apenas o explica de outro modo. Um autor do século XIX formado na leitura diária da King James reproduziria essa linguagem com naturalidade. O trocadilho hebraico, além disso, não está no texto: ele é reconstruído vertendo o inglês de volta para um hebraico hipotético, procedimento que os críticos consideram circular. Nenhum dos dois lados dispõe de manuscrito antigo do livro para dirimir a questão.

Vale notar a diferença de conteúdo, e não só a semelhança. Em Gênesis a luta é corporal e o desfecho é um novo nome, Israel. Em Enos a luta é oração, e o desfecho é a remissão de pecados.

(Gn 32:24)

Manuscritos e transmissão

Não existe manuscrito antigo do livro de Enos, nem em hebraico, nem em egípcio, nem em qualquer língua. O que se conserva são os documentos do processo de 1829 e 1830: parte do manuscrito original ditado por Joseph Smith, o manuscrito do impressor usado na tipografia de E. B. Grandin e as edições impressas a partir de 1830. As placas descritas na narrativa de origem não estão disponíveis para exame. Esse é um dado factual, aceito pelos dois lados, e cada tradição o interpreta a seu modo.

Temas em comum com a Bíblia

O livro trabalha temas que o leitor cristão reconhece de imediato: a perseverança na oração, a certeza do perdão, a intercessão pelos inimigos e a preservação do registro sagrado. A resposta que Enos recebe, atribuindo a cura à fé, ecoa a fórmula dos evangelhos.

(Lc 18:1)

(Mt 5:44)

Há também uma diferença doutrinária que convém deixar explícita, porque o texto a afirma sem rodeios: Enos é apresentado como crente em Cristo antes da encarnação, com nome e função já conhecidos. A teologia SUD sustenta que os profetas de todas as épocas tiveram conhecimento explícito de Cristo, e que o Antigo Testamento hebraico chegou até nós com essa clareza reduzida. A leitura cristã tradicional, católica, ortodoxa e protestante, entende o Antigo Testamento como promessa velada, cujo sentido cristológico só se abre depois da encarnação. As duas posições dependem de pressupostos distintos sobre a transmissão do texto, e nenhuma delas se decide por evidência manuscrita.