Capítulos
Filemom
Autoria e Data de Composição
A autoria paulina de Filemom é aceita por consenso praticamente unânime entre os estudiosos, incluindo os mais críticos em relação a outras cartas do corpus paulino. A carta aparece no Cânon de Marcião (c. 140-150 d.C.) e no Fragmento Muratoriano (c. 180 d.C.), dois dos mais antigos registros canônicos conhecidos.
A data de composição mais aceita situa-se entre 61 e 63 d.C., durante a primeira prisão de Paulo em Roma. Essa datação é consistente com a de Colossenses, Filipenses e Efésios, cartas que também mencionam a situação de Paulo como prisioneiro e nomes de colaboradores em comum (como Onésimo, Aristarco e Epafras).
Manuscritos
Data dos manuscritos mais antigos: c. 200 d.C. a século IV d.C.
O Papiro 46 (P46, c. 200 d.C.) provavelmente não inclui Filemom: a questão é debatida, pois os fólios finais do códice estão perdidos e não há espaço calculado suficiente para as pastorais e Filemom juntos. O texto completo de Filemom aparece no Codex Sinaiticus e no Codex Alexandrinus (ambos do século IV-V). Com apenas 25 versículos, Filemom é a carta mais curta de Paulo no Novo Testamento.
Conteúdo Principal
Contexto e Elogio a Filemom
Intercessão por Onésimo
Pedido e Garantia de Paulo
A situação de Onésimo
A carta intercede por Onésimo, que Paulo encontrou estando preso e converteu. A reconstrução tradicional, fixada já no século IV por Crisóstomo e Ambrosiaster, faz de Onésimo um escravo fugitivo que roubara o senhor e por acaso cruzou com Paulo na cela. Convém registrar que esse roteiro é em larga medida importado para o texto, não extraído dele: a carta nunca afirma que Onésimo fugiu, nunca o chama de fugitivo, e a aparente alusão a uma dívida na passagem a seguir é uma condicional cortês, não uma confissão de furto. Os intérpretes patrísticos preencheram esses silêncios com o roteiro jurídico romano que conheciam.
Daí as reconstruções alternativas. Peter Lampe, nos anos 1980, observou que o termo latino fugitivus implicava fuga definitiva, ao passo que a carta pressupõe um Onésimo que volta, e propôs que ele tivesse procurado Paulo de propósito como amicus domini, figura do direito romano em que um amigo do senhor media um conflito doméstico sem que o escravo se tornasse foragido. John Knox chegou a sugerir que Onésimo nem fosse escravo, mas irmão de sangue estranhado de Filemom, tese minoritária porque o peso da evidência lexical (sobretudo doulos, no versículo a seguir) ainda favorece que fosse escravo. Cada uma dessas molduras é projetada sobre um documento que se recusa a confirmar qualquer das versões. O mesmo Onésimo reaparece como portador da carta aos colossenses, descrito como irmão fiel e amado:
O que Paulo pede
O nó da carta está no versículo 16, e é instrutivo justamente por não se resolver. Receber Onésimo "não já como servo, antes mais do que servo, como irmão amado" comporta ao menos três leituras mutuamente incompatíveis: que Filemom o alforrie (a leitura abolicionista, que lê "na carne e no Senhor" como liberdade civil somada à fraternidade eclesial); que o readmita sem castigo mantendo-o escravo, mudando só a qualidade afetiva da relação; ou, como sugere o versículo 13, que o devolva a Paulo para o ministério. O texto não escolhe. Paulo pressiona Filemom, "confiando na tua obediência" (versículo 21), e ao mesmo tempo evita qualquer ordem direta, "para que o teu benefício não fosse como por força, mas voluntário" (versículo 14). A ambiguidade parece menos acidente do que estratégia retórica: introduz a categoria "irmão" e deixa a decisão concreta para a consciência de Filemom. As passagens referidas:
A escravidão e a história de recepção
Filemom é um caso-limite da ética social cristã. Em nenhum momento Paulo declara a escravidão ilegítima; pede tratamento fraterno, e devolve o escravo em vez de proclamá-lo livre. O dado mais revelador da recepção é sua estabilidade: do século IV até o início do XIX, cerca de mil e quinhentos anos, a leitura padrão dos intérpretes foi a do escravo fujão reconduzido com brandura ao dono. A carta só passou a ser lida como texto antiescravista quando o debate abolicionista britânico e depois o norte-americano tornaram essa leitura necessária.
Nos Estados Unidos pré-Guerra Civil, a carta serviu de munição aos dois lados. Os defensores da escravidão tinham o argumento textualmente mais simples: o apóstolo, tendo em mãos um escravo cristão, o mandou de volta ao senhor. Os abolicionistas precisavam de um passo a mais, ler o "irmão amado" do versículo 16 como subversão implícita, ou deduzir uma manumissão que o texto não enuncia. Que dois campos morais opostos extraíssem do mesmo texto conclusões contrárias, ambos com alguma plausibilidade, indica que a carta não decide a questão que lhe perguntamos, porque não era a questão que seu autor estava respondendo.
Sem anacronismo, a crítica histórica não exige que Paulo fosse abolicionista nem o condena por não sê-lo: a escravidão era a infraestrutura econômica inquestionada do Mediterrâneo do século I, e a versão greco-romana não era a escravidão racial de plantação do Sul dos Estados Unidos (não era hereditária por raça e a manumissão era comum e socialmente esperada). Resta uma tensão real e não resolvida entre a igualdade batismal radical que a tradição paulina afirma em Gálatas ("nem escravo nem livre") e os códigos domésticos que mandam o escravo obedecer ao senhor em Colossenses e Efésios. Filemom expõe essa fissura sem suturá-la. Não sabemos o desfecho: a carta não diz se Filemom alforriou Onésimo.
Alguns pesquisadores identificam o Onésimo de Filemom com o bispo Onésimo de Éfeso mencionado por Inácio de Antioquia (início do século II), o que explicaria a preservação e circulação de uma carta tão breve. A identificação é sugestiva, mas não comprovada.