Antiguidades Judaicas - Livro VI 10
Livro VI: Samuel, Saul e a ascensão de Davi
Saul inveja Davi por seu glorioso sucesso e busca um pretexto para enredá-lo na promessa que lhe fizera de dar-lhe sua filha em casamento, mas sob a condição de que ele lhe trouxesse seiscentas cabeças dos filisteus.
As mulheres deram a Saul o motivo de sua inveja e de seu ódio contra Davi. Elas saíram ao encontro do exército vitorioso com címbalos, tambores e toda sorte de manifestações de alegria, e cantavam assim: as esposas diziam que "Saul matou seus muitos milhares de filisteus", e as virgens respondiam que "Davi matou seus dez mil". Quando o rei as ouviu cantar dessa maneira, e percebeu que cabia a ele a menor parte dos elogios, enquanto o número maior, os dez mil, era atribuído ao jovem, refletiu consigo mesmo que, depois de um aplauso tão grandioso, nada mais faltava a Davi senão o reino. Então começou a ter medo e a desconfiar dele. Por isso o afastou do posto que ocupava antes, pois era seu escudeiro, posição que, por medo, lhe parecia próxima demais. Assim o fez comandante de mil homens e lhe concedeu um cargo melhor em si mesmo, mas que ele julgava mais seguro para si próprio. Queria enviá-lo contra o inimigo e às batalhas, na esperança de que ele fosse morto em conflitos tão perigosos.
Mas Davi tinha Deus ao seu lado aonde quer que fosse, e por isso prosperava muito em tudo o que empreendia. Era visível que tinha enorme sucesso, tanto que a filha de Saul, que ainda era virgem, apaixonou-se por ele. Seu afeto cresceu de tal forma que não pôde ser escondido, e o pai dela ficou sabendo. Saul ouviu isso com satisfação, pretendendo usar o fato como armadilha contra Davi, e esperava que aquilo se tornasse a causa de sua ruína e de seus riscos. Disse, então, aos que o informaram do amor de sua filha, que de bom grado daria a virgem em casamento a Davi, e declarou: "Comprometo-me a casar minha filha com ele, se me trouxer seiscentas cabeças de meus inimigos", supondo que, diante de uma recompensa tão ampla, e querendo conquistar grande glória ao empreender algo tão perigoso e improvável, Davi se lançaria imediatamente à tarefa e assim morreria pelas mãos dos filisteus. "E meus planos a respeito dele darão certo conforme a minha vontade, pois ficarei livre dele e o terei morto, não por minhas mãos, mas pelas de outro homem." Então ordenou a seus servos que sondassem como Davi reagiria a essa proposta de casar com a moça. Eles começaram a lhe falar assim: que o rei Saul o amava, como também todo o povo, e que desejava sua aliança pelo casamento com essa moça. A isso ele respondeu: "Parece-lhes coisa de pouca importância tornar-se genro do rei? A mim não parece, sobretudo porque sou de uma família humilde, sem nenhuma glória ou honra." Quando Saul foi informado por seus servos da resposta de Davi, disse: "Digam a ele que não quero dinheiro algum nem dote da parte dele, o que seria antes pôr minha filha à venda do que dá-la em casamento. Desejo apenas um genro que tenha em si coragem e todas as demais virtudes, das quais via que Davi era dotado. O que quero receber dele, por casar com minha filha, não é ouro nem prata, nem que traga riquezas da casa de seu pai, mas apenas alguma vingança sobre os filisteus, e de fato seiscentas cabeças deles, do que não se poderia trazer presente mais desejável nem mais glorioso. Prefiro muito mais obter isso do que qualquer um dos dotes habituais por minha filha, ou seja, que ela se case com um homem desse caráter, alguém que tenha o testemunho de ter vencido os inimigos."
Quando essas palavras de Saul chegaram a Davi, ele ficou contente e supôs que Saul realmente desejava essa aliança com ele. Por isso, sem se permitir deliberar mais nem ponderar consigo se o proposto era possível, difícil ou não, ele e seus companheiros atacaram imediatamente o inimigo e foram cumprir o que fora estabelecido como condição do casamento. E porque era Deus quem tornava tudo fácil e possível a Davi, ele matou muitos [filisteus], cortou as cabeças de seiscentos deles e foi ao rei. Mostrando-lhe essas cabeças de filisteus, exigiu que recebesse sua filha em casamento. Saul, então, não tendo como escapar de seus compromissos, por considerar coisa vil parecer mentiroso ao prometer esse casamento, ou parecer ter agido com traição ao lançá-lo a algo praticamente impossível para tê-lo morto, deu-lhe sua filha em casamento. O nome dela era Mical.