Capítulos

Anais - Livro V
A morte de Lívia e o início da queda de Sejano (livro fragmentário)
Sobre a obra
Os Anais são a última obra de Públio Cornélio Tácito (c. 56 a c. 120 d.C.), senador e considerado o maior historiador de Roma. Escritos por volta de 116 d.C., cobrem o período de 14 a 68 d.C., da morte de Augusto à de Nero. Dos dezesseis livros originais sobrevivem I a VI e XI a XVI, e mesmo esses chegaram incompletos: o V ficou reduzido a um fragmento, falta o começo do XI e o XVI se interrompe no meio de uma frase.
Este é o Livro V, o mais mutilado dos que chegaram até nós. Dele resta um punhado de capítulos: o começo, que trata do ano 29 d.C., e um fragmento posterior, já do fim de 31. Entre os dois há uma lacuna de cerca de dois anos, e é dentro dela que estava a narrativa da queda de Sejano.
O que sobrevive: o ano 29
O livro abre com a morte de Júlia Augusta, isto é, Lívia, viúva de Augusto e mãe de Tibério, em idade muito avançada. Tácito registra que Tibério não compareceu ao funeral, alegando excesso de ocupações, e que limitou as honras votadas em memória dela. A leitura que ele propõe é direta: com a morte da mãe cai o último freio.
Em seguida chega ao Senado uma carta do imperador contra Agripina e seu filho Nero César. O Senado hesita, o povo se reúne com as imagens dos dois e afirma que a carta é falsa, e Sejano trata as manifestações como prova de conspiração. O texto sobrevivente para pouco depois disso.
A lacuna: o que se perdeu
O que falta é justamente o episódio mais dramático do reinado. Sejano foi denunciado no Senado e executado em 18 de outubro de 31 d.C., e a narrativa de Tácito sobre a manobra que o derrubou não existe mais. Não sabemos o que ele escreveu. Para esses meses dependemos de outras fontes, sobretudo do livro 58 de Dião Cássio, de uma passagem célebre da sátira 10 de Juvenal e de inscrições e fastos.
Vale dizer com clareza o que isso significa: a lacuna não é uma passagem obscura ou disputada, é ausência física de texto. Qualquer reconstrução do que Tácito teria dito ali é conjectura, e este índice não a faz.
A divisão entre V e VI é editorial
Os livros I a VI dos Anais dependem de um único manuscrito, o Primeiro Medíceo, copiado na Alemanha por volta de 850, provavelmente no mosteiro de Fulda, hoje na Biblioteca Medicea Laurenziana em Florença. Não há cópia independente para colacionar.
Nesse manuscrito não há uma divisão clara entre o quinto e o sexto livro. Até a edição de Justo Lípsio, no século 16, tudo o que hoje se numera de V,1 a VI,51 era impresso como um livro só. A separação atual é decisão de editor e segue em disputa: Haase (1848) sustentou que o Livro V terminava em V,5, logo antes da lacuna, e que o começo do VI se perdeu dentro dela, o que faria o fragmento aqui numerado V,6-11 pertencer ao Livro VI; Woodman defende a divisão de Lípsio, que é a que as edições em geral retêm. A numeração dos capítulos varia entre edições pela mesma razão.
O fragmento final: depois da queda
O que resta do livro depois da lacuna já se passa no fim de 31 d.C., com Sejano morto. São capítulos sobre o acerto de contas: discursos no Senado, processos contra quem lhe fora próximo, a execução dos filhos dele, cujo relato Tácito transmite com a observação de que não havia precedente para executar uma virgem, e os corpos lançados às Gemônias.
Vêm ainda o caso de um jovem que se fez passar por Druso, filho de Germânico, e reuniu seguidores na Grécia, e a rixa pública entre os cônsules Fulcínio Trião e Mêmio Régulo sobre quem fora mais tíbio contra os partidários de Sejano. O livro termina aí.
Por que este livro importa
Os anos cobertos aqui, 29 a 31 d.C., caem na janela que os evangelhos associam ao ministério público de Jesus, cuja cronologia é debatida: o início costuma ser situado entre 28 e 30, e a crucificação em 30 ou 33. Lucas data o começo da pregação de João Batista pelo décimo quinto ano de Tibério, o mesmo imperador cuja corte este livro descreve. A relação é de contexto, não de conteúdo: Tácito não trata da Judeia nestes capítulos, e o estado mutilado do texto é, ele próprio, uma lição sobre o quanto se perdeu da documentação do século 1.