O Banquete 8
O diálogo de Platão sobre o amor (Eros): sete discursos num banquete ateniense que culminam na ascensão da alma do belo sensível ao Belo em si
A irrupção de Alcibíades e o elogio de Sócrates
Quando Sócrates terminou de falar, todos o aplaudiram, e Aristófanes começava a dizer alguma coisa sobre a alusão que Sócrates fizera ao próprio discurso dele, quando de repente houve uma grande batida na porta da casa, como de foliões, e ouviu-se o som de uma tocadora de flauta. Agatão disse aos criados: "Vão ver quem é. Se for algum dos nossos amigos, mandem entrar; se não, digam que já não estamos bebendo, mas descansando."
Pouco depois ouviram a voz de Alcibíades no pátio, muito bêbado e gritando alto, perguntando onde estava Agatão e mandando que o levassem até ele. Então a tocadora de flauta e alguns dos seus acompanhantes o ampararam e o trouxeram, e ele parou à porta, coroado com uma densa grinalda de hera e violetas, com muitíssimas fitas na cabeça.
E disse: "Salve, amigos. Vocês aceitam um homem completamente bêbado como companheiro de bebida, ou vamos embora depois de só coroar Agatão, que foi para isso que viemos? Eu ontem não consegui aparecer, mas agora estou aqui com estas fitas na cabeça, para tirá-las da minha própria cabeça e cingir com elas a cabeça do mais sábio e mais belo dos homens, se posso chamá-lo assim."
"Vocês vão rir de mim por eu estar bêbado? Pois mesmo que riam, eu sei muito bem que estou dizendo a verdade. Mas me digam logo: entro com a condição combinada, ou não? Vão beber comigo ou não?"
Todos gritaram que entrasse e se reclinasse, e Agatão em pessoa o convidou. Então ele foi conduzido pelos seus acompanhantes e, enquanto tirava as fitas para coroar Agatão, com elas diante dos olhos, não enxergou Sócrates, e foi sentar-se ao lado de Agatão, entre ele e Sócrates, pois Sócrates abrira espaço ao percebê-lo. Sentando-se, ele saudou Agatão e o coroou.
Agatão disse: "Criados, tirem as sandálias de Alcibíades, para que ele se recline como terceiro neste leito."
"Pois sim", disse Alcibíades, "mas quem é este terceiro companheiro de bebida conosco?" E, virando-se, viu Sócrates. Ao vê-lo, deu um salto e exclamou: "Por Héracles, o que é isto? Sócrates aqui? De novo deitado de tocaia para mim, aparecendo de repente onde eu menos esperava que estivesse. E agora, por que veio? E por que se deitou justamente aqui? Não ao lado de Aristófanes, nem de qualquer outro que seja ou queira ser engraçado, mas você deu um jeito de ficar ao lado do mais belo da casa."
Sócrates disse: "Agatão, veja se você me defende, porque a paixão deste homem por mim virou um problema sério. Desde que me tornei objeto do amor dele, não me é mais permitido olhar nem conversar com nenhum rapaz bonito, senão ele, de tão ciumento e invejoso, faz coisas absurdas: me insulta e mal consegue tirar as mãos de cima de mim. Veja, então, que ele não faça algo agora. Ou nos reconcilie, ou me proteja se ele tentar usar de violência, porque a loucura e o ardor amoroso dele me dão muito medo."
"Não há reconciliação possível entre nós dois", disse Alcibíades. "Mas por isso eu me vingo de você outra hora. Agora, Agatão, me dê algumas das fitas, para que eu cinja também esta cabeça admirável dele, e ele não reclame de que coroei você e não coroei a ele, que vence todos os homens em discurso, e não só uma vez, como você anteontem, mas sempre." E, pegando algumas fitas, coroou Sócrates e se reclinou.
Depois de reclinado, disse: "Muito bem, senhores. Vocês me parecem sóbrios, e isso não se pode admitir. Têm que beber, pois foi essa a condição combinada. Então eu me elejo presidente da bebida até que vocês estejam bem bêbados. Agatão, que tragam alguma taça grande. Aliás, não é preciso. Garoto, traga aquele balde de resfriar vinho", disse, ao ver que ele cabia mais de oito copos.
Encheu-o, bebeu-o primeiro todo, e mandou enchê-lo de novo para Sócrates, dizendo: "Quanto a Sócrates, senhores, este truque meu de nada serve, pois, por mais que se mande beber, ele bebe tudo e nunca fica mais bêbado." O criado encheu, e Sócrates bebeu.
Erixímaco disse: "O que é isto, Alcibíades? Não vamos conversar nem cantar nada sobre a taça, mas beber simplesmente como quem tem sede?"
Alcibíades respondeu: "Erixímaco, ótimo filho de um pai ótimo e equilibradíssimo, salve."
"Igualmente para você", disse Erixímaco, "mas o que fazemos?"
"O que você mandar. É preciso te obedecer, pois um homem que é médico vale por muitos outros. Mande, então, o que quiser."
"Escute", disse Erixímaco. "Antes de você chegar, decidimos que cada um de nós, por turnos, da esquerda para a direita, faria sobre o Amor o mais belo discurso que pudesse, em elogio a ele. Todos nós já falamos. Você, que não falou e bebeu, é justo que fale, e, depois de falar, mande em Sócrates o que quiser, e ele no vizinho à direita, e assim por diante."
"Você fala bem, Erixímaco", disse Alcibíades, "mas comparar o discurso de um bêbado com os de homens sóbrios não é justo. Além disso, meu caro, você acredita em algo do que Sócrates acabou de dizer? Não sabe que é tudo o contrário do que ele falava? Pois este aqui, se eu elogiar na presença dele qualquer outro, deus ou homem, não vai tirar as mãos de cima de mim."
"Cale a boca", disse Sócrates. "Por Posídon", disse Alcibíades, "não diga nada contra isso, porque eu não elogiaria nenhum outro estando você presente."
"Pois faça assim, se quiser", disse Erixímaco: "elogie Sócrates."
"Como assim?", disse Alcibíades. "Acha que devo, Erixímaco? Devo cair em cima dele e me vingar diante de vocês?"
"Ei", disse Sócrates, "o que você tem em mente? Vai me elogiar para fazer rir? Ou o que vai fazer?"
"Vou dizer a verdade. Veja se você permite." "A verdade eu permito", disse Sócrates, "e até mando que diga."
"Não vou perder tempo", disse Alcibíades. "E faça assim: se eu disser algo que não seja verdade, me interrompa no meio, se quiser, e diga que estou mentindo, pois de propósito não vou mentir em nada. Mas, se eu lembrar as coisas de modo desordenado, não estranhe, porque não é nada fácil, no estado em que estou, enumerar com fluência e em ordem todas as tuas esquisitices."
"Vou tentar elogiar Sócrates, senhores, por meio de imagens. Ele talvez ache que é para fazer rir, mas a imagem é por causa da verdade, não da graça. Afirmo que ele é parecidíssimo com aqueles silenos que ficam nas lojas dos escultores, que os artesãos fabricam segurando flautas ou seringas na boca, e que, abertos ao meio, mostram dentro imagens de deuses.
E afirmo também que ele se parece com o sátiro Mársias. Que na aparência você é semelhante a eles, Sócrates, nem você mesmo discordaria. Que também no resto você se parece, ouça em seguida.
Você é insolente, ou não? Se não admitir, apresento testemunhas. E não é flautista? É, e muito mais admirável do que aquele. Mársias encantava os homens com instrumentos, pela força que vinha da boca, e ainda hoje encanta quem toca as melodias dele (refiro-me às que Olimpo tocava, ensinado por Mársias). As melodias dele, tocadas por um bom flautista ou por uma flautista qualquer, são as únicas que prendem a alma e revelam quem precisa dos deuses e dos mistérios, porque são divinas. Você só difere dele nisto: faz a mesma coisa sem instrumento, com palavras nuas.
De qualquer modo, quando ouvimos outro falar, mesmo um orador muito bom, nenhum de nós se comove. Mas quando alguém te ouve, ou ouve as tuas palavras na boca de outro, ainda que quem fale seja medíocre, seja mulher, homem ou rapaz, ficamos arrebatados e possuídos.
Eu, senhores, se não fosse parecer completamente bêbado, teria jurado a vocês o que eu mesmo já sofri e ainda sofro com as palavras deste homem. Quando o escuto, o coração me salta muito mais do que o dos coribantes, e as lágrimas me escorrem por causa das palavras dele, e vejo muitíssimos outros sentindo o mesmo. Ouvindo Péricles e outros bons oradores, eu achava que falavam bem, mas não sentia nada disso, nem minha alma se perturbava nem se indignava por estar como escrava. Mas por causa deste Mársias muitas vezes fiquei em tal estado que me pareceu que a vida que levo não valia a pena.
E isto, Sócrates, você não vai dizer que não é verdade. Mesmo agora tenho consciência de que, se quisesse dar ouvidos a ele, não aguentaria, e sentiria o mesmo. Pois ele me força a admitir que, faltando-me ainda tanta coisa, eu descuido de mim mesmo e cuido dos assuntos dos atenienses. Então, à força, como quem foge das sereias, tapo os ouvidos e me afasto, para não ficar sentado ao lado dele até envelhecer.
Diante dele, e só dele entre os homens, eu sinto algo que ninguém imaginaria haver em mim: vergonha de alguém. Só dele tenho vergonha. Porque tenho consciência de que não consigo contestar que se deve fazer o que ele manda, mas, quando me afasto, sou vencido pela honra diante da multidão. Então fujo dele como um escravo fugido, e quando o vejo tenho vergonha do que admiti. Muitas vezes eu gostaria que ele não estivesse mais entre os homens, mas, se isso acontecesse, sei bem que sofreria muito mais, de modo que não sei o que fazer com este homem.
Eu e muitos outros já sofremos coisas assim com o som de flauta deste sátiro. Mas ouçam de mim outras coisas, de como ele é semelhante àqueles a quem o comparei, e que poder admirável ele tem. Saibam bem que nenhum de vocês o conhece, mas eu vou revelá-lo, já que comecei.
Vocês veem que Sócrates é apaixonado pelos rapazes bonitos, está sempre em volta deles e perde a cabeça por eles, e ao mesmo tempo ignora tudo e nada sabe. Essa pose dele não é digna de um sileno? É, e muito. Por fora ele se reveste disso, como o sileno esculpido. Mas, aberto por dentro, de quanta sensatez vocês acham que ele está cheio, meus companheiros de bebida? Saibam que, se alguém é belo, ou rico, ou tem alguma outra honra das que a multidão tanto valoriza, nada disso lhe importa, e ele despreza tudo isso mais do que se poderia imaginar, e nos considera nada. Passa a vida inteira fingindo ignorância e brincando com as pessoas.
Mas quando ele fica sério e se abre, não sei se alguém já viu as imagens que tem dentro. Eu já vi uma vez, e me pareceram tão divinas, douradas, belíssimas e admiráveis, que tive que fazer tudo o que Sócrates mandasse. Achando que ele estava interessado na minha beleza, julguei que era um achado e uma sorte enorme minha, pois, agradando a Sócrates, eu poderia ouvir tudo o que ele sabia. É que eu tinha um conceito espantosamente alto da minha beleza de rapaz.
Com esse plano em mente, eu, que antes nunca ficava a sós com ele sem um criado, naquela vez dispensei o criado e fiquei sozinho com ele. Tenho que dizer a vocês toda a verdade, então prestem atenção, e, se eu mentir, Sócrates, me desminta. Fiquei a sós com ele, senhores, e achei que logo ele falaria comigo o que um amante fala com seu amado quando estão sozinhos, e fiquei feliz. Nada disso aconteceu. Ele conversou comigo como sempre, passou o dia comigo e foi embora.
Depois disso o convidei a fazer ginástica comigo, e fiz ginástica com ele, achando que assim conseguiria algo. Ele se exercitou e lutou comigo muitas vezes, sem ninguém presente. E o que dizer? De nada me adiantou. Como por aí eu não chegava a nada, decidi atacar o homem com força e não desistir, já que tinha começado, mas descobrir de uma vez como era a coisa. Eu o convidei para jantar, exatamente como um amante que arma um plano contra o amado.
Nem nisso ele me obedeceu logo, mas com o tempo se deixou convencer. Quando veio a primeira vez, depois de jantar quis ir embora, e naquela hora, por vergonha, eu o deixei ir. Tornei a armar meu plano e, quando terminamos de jantar, fiquei conversando noite adentro, e, quando ele quis ir embora, com a desculpa de que era tarde, eu o forcei a ficar. Ele se deitou no leito ao lado do meu, no mesmo em que jantara, e ninguém mais dormia no aposento, só nós.
Até este ponto da história eu poderia contar a qualquer um. Mas o que vem a seguir vocês não me ouviriam dizer, se, primeiro, segundo o ditado, o vinho, com ou sem crianças, não fosse verdadeiro, e, depois, se me parecesse justo esconder um feito magnífico de Sócrates, agora que entrei a elogiá-lo.
Além disso, tenho a dor de quem foi mordido por uma cobra. Dizem que quem passou por isso só quer contar como é a quem também foi mordido, pois só esses entenderiam e perdoariam se a pessoa ousou fazer e dizer qualquer coisa de dor. Eu fui mordido por algo mais doloroso e na parte mais dolorosa em que se pode ser mordido: o coração, ou a alma, ou seja lá como se chame, ferido e mordido pelas palavras da filosofia, que pegam mais ferozes que uma víbora quando se prendem a uma alma jovem e não sem dom, e a fazem fazer e dizer qualquer coisa.
E vejo aqui à minha volta Fedros, Agatões, Erixímacos, Pausânias, Aristodemos e Aristófanes. E o próprio Sócrates, para que falar dele, e quantos outros? Todos vocês compartilham da loucura e do delírio filosófico. Por isso todos vão me ouvir, pois vão perdoar o que foi feito então e o que se diz agora. Mas os criados, e qualquer outro grosseiro e profano, ponham portões enormes nos ouvidos.
Pois bem, senhores, quando a lamparina se apagou e os criados estavam fora, decidi que não devia ter rodeios com ele, mas dizer livremente o que eu pensava. Sacudindo-o, falei: "Sócrates, você está dormindo?" "Não", respondeu. "Sabe o que eu decidi?" "O que, exatamente?", disse ele.
"Você me parece o único pretendente digno de mim, mas vejo que hesita em falar comigo. Eu penso assim: acho muito tolo não te agradar nisto, ou em qualquer outra coisa que você precisasse dos meus bens ou dos meus amigos. Para mim nada é mais importante do que me tornar o melhor possível, e creio que ninguém é mais capaz de me ajudar nisso do que você. Por isso eu teria muito mais vergonha diante dos sábios por não agradar a um homem assim do que vergonha diante da multidão tola por agradá-lo."
Ele, ao ouvir, com muita ironia e bem ao seu modo habitual, disse: "Meu caro Alcibíades, é provável que você não seja tolo de fato, se for verdade o que diz de mim, e se há em mim algum poder pelo qual você possa se tornar melhor. Você deve estar vendo em mim uma beleza extraordinária, muito superior à boa forma que há em você.
Se, vendo isso, você tenta se associar a mim e trocar beleza por beleza, está pensando em levar grande vantagem sobre mim, pois tenta adquirir a verdade do belo em troca da aparência, e de fato pretende trocar ouro por bronze. Mas, meu caro, olhe melhor, para não escapar a você que não sou nada. A visão da mente começa a enxergar com agudeza quando a visão dos olhos começa a perder o vigor. E você ainda está longe disso."
E eu, ouvindo, respondi: "Da minha parte, é isto. Nada do que falei foi dito de outro modo do que penso. Agora você mesmo decida o que julga melhor para você e para mim." "Nisto você fala bem", disse ele. "No tempo que vem decidiremos e faremos o que nos parecer melhor sobre isto e sobre o resto."
Eu, depois de ouvir e dizer isso, e de ter lançado, por assim dizer, minhas flechas, achava que o tinha ferido. Levantei-me e, sem deixar que ele dissesse mais nada, cobri-o com a minha capa, pois era inverno, deitei-me sob o manto puído dele, abracei aquele homem verdadeiramente divino e admirável e fiquei deitado a noite inteira. E isto também, Sócrates, você não vai dizer que é mentira.
Mas, depois que fiz tudo isso, ele se mostrou tão acima de mim, desprezou e riu da minha beleza e a insultou tanto (e era justo nisso que eu achava ser alguma coisa, senhores juízes, pois são juízes do desdém de Sócrates): saibam, pelos deuses e pelas deusas, que me levantei depois de dormir com Sócrates sem nada de mais ter acontecido, como se eu tivesse dormido ao lado de um pai ou de um irmão mais velho.
Depois disso, que disposição vocês acham que eu tinha, sentindo-me humilhado, mas admirando a natureza, a sensatez e a coragem dele, tendo encontrado um homem como eu jamais imaginei encontrar em inteligência e firmeza? De modo que eu não conseguia me irritar com ele e me privar da sua companhia, nem achava jeito de atraí-lo. Eu sabia bem que ele era muito mais invulnerável a dinheiro do que Ajax era ao ferro, e a única coisa com que eu achava que iria pegá-lo me escapara. Então eu não sabia o que fazer, e andava mais escravizado por aquele homem do que ninguém jamais foi por outro.
Tudo isso já havia acontecido antes de partirmos juntos na expedição a Potideia, onde comíamos juntos. Ali, em primeiro lugar, no aguentar fadigas ele superava não só a mim, mas a todos os outros. Quando éramos obrigados, cortados de suprimentos, a ficar sem comer, como acontece em campanha, os outros não eram nada comparados a ele em resistência.
Por outro lado, nos banquetes, era o único capaz de aproveitar, e, embora não quisesse beber, quando era forçado vencia a todos, e, o mais admirável de tudo, nenhum homem jamais viu Sócrates bêbado. Disso, aliás, creio que logo teremos a prova.
E quanto a suportar o frio (pois os invernos ali são terríveis), ele fazia coisas admiráveis. Uma vez, com uma geada das mais terríveis, e estando todos ou sem sair de casa, ou, se saíam, agasalhados com uma quantidade incrível de roupa e calçados, com os pés enrolados em feltros e peles de cordeiro, ele saiu em meio a isso vestindo um manto como o que costumava usar antes, e, descalço, atravessava o gelo mais facilmente que os outros calçados. Os soldados o olhavam de través, como se ele os desprezasse.
Isso bastaria. Mas vale ouvir que feito este homem firme ousou realizar lá, certa vez, na campanha. Tendo se posto a refletir sobre algo, ficou parado de manhã examinando aquilo, e, como não chegava a uma conclusão, não desistia, mas continuava parado procurando. Já era meio-dia, e os homens repararam, e admirados diziam uns aos outros que Sócrates estava parado pensando em algo desde o amanhecer.
Por fim, alguns dos jônios, à noite, depois de jantar (era verão), trouxeram suas esteiras para fora, dormiram no fresco e ao mesmo tempo o vigiavam, para ver se ele ficaria de pé a noite toda. Ele ficou parado até o amanhecer e o nascer do sol. Depois fez uma prece ao sol e foi embora.
E, se quiserem, nas batalhas (pois é justo dar isto a ele): quando houve aquela batalha em que os generais me deram o prêmio de bravura, nenhum outro homem me salvou senão ele, que, ferido eu, não quis me abandonar, mas salvou ao mesmo tempo as minhas armas e a mim. E eu, Sócrates, na ocasião pedi aos generais que dessem o prêmio a você, e disto você não vai me censurar nem dizer que minto. Mas, como os generais olhavam para a minha posição e queriam dar o prêmio a mim, você mesmo se mostrou mais empenhado que os generais em que eu o recebesse, e não você.
E ainda, senhores, valia a pena ver Sócrates quando o exército recuava em fuga de Delos. Por acaso eu estava presente, montado a cavalo, e ele a pé, com armas pesadas. Ele recuava, com os homens já dispersos, junto com Laques. Eu os encontro, e, assim que os vi, os animo e digo que não os abandonaria.
Ali contemplei Sócrates melhor ainda que em Potideia, pois eu, a cavalo, corria menos perigo. Primeiro, o quanto ele superava Laques em sangue-frio. Depois me pareceu, Aristófanes, como você disse, que ele caminhava lá como aqui, todo empertigado e revirando os olhos, observando com calma amigos e inimigos, deixando claro a todos, mesmo de longe, que, se alguém tocasse naquele homem, ele se defenderia com vigor. Por isso ele e o companheiro se retiraram em segurança, pois quase ninguém na guerra ataca os que se portam assim, e perseguem os que fogem de cabeça.
Muitas outras coisas admiráveis se poderiam dizer em elogio de Sócrates. Mas, das outras qualidades, talvez se pudesse dizer o mesmo de outro homem. O que é digno de toda admiração é não ser semelhante a homem nenhum, nem dos antigos nem dos atuais. Pois, ao Aquiles que existiu, se poderia comparar Brásidas e outros, e ao Péricles, Nestor e Antenor (e há outros), e do mesmo modo se poderia comparar os demais. Mas a este homem, no que tem de estranho, ninguém, por mais que procure, achará algo nem perto, nem dos de agora nem dos antigos, a não ser se o comparasse, a ele e às suas palavras, não a homem nenhum, mas aos silenos e sátiros.
Pois isto eu deixei de dizer no começo: as palavras dele também são parecidíssimas com os silenos que se abrem. Se alguém quisesse ouvir os discursos de Sócrates, à primeira vista pareceriam muito ridículos, de tais palavras e expressões eles se revestem por fora, como a pele de um sátiro insolente.
Ele fala de burros de carga, de ferreiros, de sapateiros e de curtidores, e parece sempre dizer as mesmas coisas com as mesmas palavras, de modo que qualquer pessoa inexperiente e tola riria dos seus discursos. Mas quem os vir abertos e penetrar dentro deles descobrirá, primeiro, que são os únicos discursos que têm sentido por dentro, e depois que são divinos, cheios de muitíssimas imagens da virtude, e que se estendem ao máximo, ou melhor, a tudo o que convém examinar a quem vai ser um homem belo e bom.
É isto, senhores, o que eu elogio em Sócrates. E, misturando o que censuro, contei a vocês as coisas em que ele me insultou. E não fez isso só comigo, mas também com Cármides, filho de Glaucão, com Eutidemo, filho de Diocles, e com muitíssimos outros, a quem ele engana fingindo-se de amante, quando na verdade fica sendo o amado, e não o amante. É o que eu também digo a você, Agatão: não se deixe enganar por ele, mas, aprendendo com os nossos sofrimentos, tome cuidado, e não vá, como diz o ditado, aprender feito criança só depois de sofrer."
Quando Alcibíades disse isso, houve risada da sua franqueza, porque parecia ainda apaixonado por Sócrates. Sócrates então disse: "Você me parece sóbrio, Alcibíades. Senão nunca teria, com tanta habilidade, dado tantas voltas para esconder o motivo de tudo isto que você disse, pondo-o no fim como se de passagem, como se não tivesse falado tudo por causa disto: indispor a mim e a Agatão, achando que eu devo amar só você e mais ninguém, e que Agatão deve ser amado por você e por mais ninguém. Mas você não passou despercebido, e este teu drama de sátiros e silenos ficou às claras. Caro Agatão, que ele não ganhe nada com isso: prepare-se para que ninguém indisponha a mim e a você."
Agatão disse: "De fato, Sócrates, parece que você tem razão. Concluo isso também do modo como ele se reclinou entre mim e você, para nos separar. Mas ele não vai ganhar nada com isso, pois eu vou para o teu lado e me reclino aí."
"Isso mesmo", disse Sócrates, "venha aqui e reclina-se abaixo de mim."
"Ó Zeus", disse Alcibíades, "veja o que sofro de novo com este homem. Ele acha que precisa me vencer em tudo. Mas, ao menos, homem admirável, deixe Agatão se reclinar entre nós."
"Impossível", disse Sócrates. "Você me elogiou, e eu, por minha vez, tenho que elogiar o vizinho à direita. Então, se Agatão se reclinar abaixo de você, não vai me elogiar de novo antes de ser elogiado por mim, vai? Deixe, homem admirável, e não tenha inveja de que eu elogie o rapaz, pois desejo muito fazer o elogio dele."
"Eba, eba", disse Agatão, "Alcibíades, de jeito nenhum eu fico aqui. Vou me mudar de lugar de qualquer modo, para ser elogiado por Sócrates."
"É sempre assim", disse Alcibíades. "Quando Sócrates está presente, ninguém mais consegue ficar com os bonitos. Veja como agora ele achou com facilidade um argumento convincente para que este aqui se reclinasse ao lado dele."
Agatão então se levantou para se reclinar junto de Sócrates, quando de repente um bando enorme de foliões chegou à porta e, encontrando-a aberta porque alguém saía, entrou direto até onde estavam e se reclinou. Tudo ficou cheio de barulho, e, já sem nenhuma ordem, foram forçados a beber muitíssimo vinho. Aristodemo disse que Erixímaco, Fedro e alguns outros foram embora, e que ele próprio pegou no sono e dormiu bastante, já que as noites eram longas.
Acordou já de madrugada, com os galos cantando, e, ao acordar, viu que os outros ou dormiam ou tinham ido embora, e que só restavam acordados Agatão, Aristófanes e Sócrates, bebendo de uma grande taça que passavam da esquerda para a direita. Sócrates conversava com eles. Aristodemo disse que não se lembrava do resto da conversa (pois não a acompanhara desde o início e estava sonolento), mas que o ponto principal era Sócrates forçando os dois a admitir que cabe ao mesmo homem saber fazer comédia e tragédia, e que quem é por arte autor de tragédias é também autor de comédias.
Forçados a concordar e não acompanhando bem o argumento, eles cochilavam. Primeiro Aristófanes adormeceu, e, quando já amanhecia, Agatão. Sócrates, tendo-os feito dormir, levantou-se e saiu, e Aristodemo, como de costume, o seguiu. Chegando ao Liceu, Sócrates se lavou e passou o dia como sempre, e, depois de passar assim o dia, ao anoitecer foi descansar em casa.