O Banquete 3

O diálogo de Platão sobre o amor (Eros): sete discursos num banquete ateniense que culminam na ascensão da alma do belo sensível ao Belo em si

Pausânias e os dois Amores: o celeste e o vulgar

Depois de Fedro vieram outros oradores de quem Aristodemo não se lembrava bem. Ele passou direto para o discurso de Pausânias, que disse: Fedro, acho que o tema não foi proposto da forma certa. Pedimos elogios ao Amor sem mais nada, como se fosse simples.
Se existisse um único Amor, tudo bem. Mas não existe um. E, como não um só, o mais correto seria primeiro dizer qual deles merece elogio.
Vou tentar consertar isso. Primeiro indico qual Amor se deve elogiar, e então o elogio de modo digno do deus.
Todos sabemos que não Afrodite sem Amor. Se houvesse uma Afrodite, haveria um Amor. Mas, como duas deusas, é forçoso que haja também dois Amores.
E como não seriam duas as deusas? Uma é a mais velha, sem mãe, filha de Urano, e a chamamos de Afrodite Urânia, a celeste. A outra é mais jovem, filha de Zeus e de Dione, e a chamamos de Afrodite Pandêmia, a comum.
Logo, é correto chamar de Amor Pandêmio aquele que colabora com a segunda deusa, e de Amor Urânio o que colabora com a primeira. Devemos elogiar todos os deuses, mas é preciso tentar dizer o que cabe a cada um.
Toda ação é assim: por si mesma, não é nem bela nem feia. Por exemplo, o que fazemos agora: beber, cantar, conversar. Nada disso é belo em si. O que decide é o modo como se faz: bem feito, torna-se belo; mal feito, torna-se feio.
O mesmo vale para o amar e para o Amor. Nem todo amor é belo nem digno de elogio, mas apenas aquele que nos leva a amar de modo belo.
O Amor da Afrodite Pandêmia é mesmo vulgar e age ao acaso. É o amor que sentem os homens medíocres. Eles amam tanto mulheres quanto rapazes, amam mais o corpo que a alma, e escolhem os parceiros mais tolos que encontram, pois pensam em conseguir o que querem, sem se importar se é de modo belo ou não.
Por isso lhes acontece de agir ao acaso, com igual indiferença pelo bem e pelo seu contrário. Esse amor vem da deusa mais jovem, que na sua origem tem parte tanto do feminino quanto do masculino.
o Amor da Afrodite Urânia vem de uma deusa que não tem parte no feminino, mas no masculino, e que é também a mais velha, livre de toda devassidão. Por isso os inspirados por esse amor se voltam para o que é por natureza mais forte e dotado de mais inteligência.
para reconhecer os que são movidos de modo puro por esse amor: eles não se apaixonam por crianças, mas quando o outro começa a ter discernimento, mais ou menos quando a barba começa a crescer.
Pois quem começa a amar nessa fase está disposto a conviver a vida inteira com a pessoa, sem enganá-la, sem tomá-la na ingenuidade da juventude para depois rir dela e correr atrás de outra.
Devia até haver uma lei proibindo amar crianças, para que tanto empenho não se gastasse no incerto. Pois não se sabe onde vai dar o caráter de uma criança, se em vício ou em virtude, na alma e no corpo.
Os homens bons impõem essa regra a si mesmos por vontade própria. Mas seria bom obrigar também esses amantes vulgares a fazer o mesmo, assim como, na medida do possível, os impedimos de assediar mulheres livres.
São eles que criaram a fama, a ponto de alguns ousarem dizer que ceder a um amante é vergonhoso. Dizem isso olhando para esses sujeitos, vendo a falta de tato e a injustiça deles. Pois nenhuma ação feita com ordem e dentro da lei mereceria, com justiça, ser censurada.
A lei sobre o amor é simples e fácil de entender na maioria das cidades, mas aqui em Atenas e em Esparta ela é confusa. Em Élis e na Beócia, e onde as pessoas não têm jeito para falar, ficou estabelecido sem rodeios que ceder a um amante é belo, e ninguém, jovem ou velho, diria que é vergonhoso. Assim, eu suponho, eles se poupam do trabalho de convencer os jovens com discursos, que não sabem falar bem.
na Jônia e em muitos lugares sob domínio dos bárbaros isso é tido por vergonhoso. Para os bárbaros, por causa das tiranias, isso é vergonhoso, assim como a filosofia e o exercício físico. Pois, acho eu, não convém aos governantes que nasça grandeza de espírito nos governados, nem amizades fortes e laços de união, que o amor, mais que tudo, costuma inspirar.
Os tiranos daqui aprenderam isso na prática: o amor de Aristogíton e a firme amizade de Harmódio, ao se consolidarem, derrubaram o poder deles. Assim, onde ficou estabelecido que ceder a um amante é vergonhoso, isso se deve à maldade de quem fez a lei: à ganância dos governantes e à covardia dos governados. E onde se decidiu sem mais que é simplesmente belo, isso se deve à preguiça de espírito de quem fez a lei.
Aqui foi estabelecido algo muito melhor que isso, mas, como eu disse, não é fácil de entender. Repare que se diz ser mais belo amar abertamente que às escondidas, e que é especialmente belo amar os mais nobres e melhores, mesmo que sejam menos bonitos que outros.
Repare também no apoio extraordinário que todos dão ao amante, como se ele não fizesse nada vergonhoso. Se ele conquista a pessoa, acham bonito; se não conquista, acham feio. E, para a tentativa de conquistar, a lei concede ao amante liberdade para fazer feitos espantosos e ainda ser elogiado.
Se alguém ousasse fazer essas mesmas coisas buscando qualquer outro objetivo, atrairia as piores censuras. Imagine alguém que, para conseguir dinheiro, um cargo ou poder, fizesse o que os amantes fazem: súplicas e rogos nos pedidos, juramentos, dormir à porta da pessoa, aceitar uma escravidão que nenhum escravo aceitaria.
Seria impedido de agir assim por amigos e por inimigos: uns censurando a bajulação e a baixeza, outros envergonhados por ele. Mas ao amante que faz tudo isso recai um encanto, e a lei lhe permite agir sem censura, como quem faz algo belíssimo.
E o mais surpreendente, segundo dizem muitos: ao amante os deuses perdoam quando ele quebra um juramento, pois dizem que não existe juramento de amor. Assim, deuses e homens deram toda a liberdade ao amante, conforme a lei daqui. Por esse lado, alguém pensaria que amar e ser amado é tido por belíssimo nesta cidade.
Mas, por outro lado, os pais põem tutores para vigiar os filhos amados e os proíbem de conversar com os amantes. Os colegas e amigos zombam quando veem algo assim, e os mais velhos não impedem nem repreendem quem zomba. Quem olha para isso pensaria o contrário: que aqui se considera tudo isso a coisa mais vergonhosa.
A verdade, eu acho, é esta: a questão não é simples, como se disse no início. A coisa em si não é nem bela nem feia. Feita de modo belo, é bela; feita de modo feio, é feia. É feio ceder a um homem mau e de modo mau; é belo ceder a um homem bom e de modo belo.
Mau é o amante vulgar, que ama o corpo mais que a alma. Ele nem é constante, pois ama uma coisa que não é constante. Assim que murcha a flor do corpo que ele desejava, ele voa para longe, desonrando tantas palavras e promessas. o amante de um caráter bom permanece a vida toda, pois se uniu a algo constante.
A nossa lei quer testar bem esses dois tipos, para cedermos a um e fugirmos do outro. Por isso ela incentiva uns a perseguir e outros a fugir, promovendo provas e exames para revelar a que grupo pertence cada um, o que ama e o que é amado.
É por essa razão que, primeiro, considera-se vergonhoso entregar-se depressa: é preciso dar tempo ao tempo, que parece ser a boa prova de quase tudo. E é vergonhoso ser conquistado por dinheiro ou por poder político, seja porque alguém, maltratado, se acovarda e não resiste, seja porque, recebendo benefícios em dinheiro ou em cargos, não os despreza.
Pois nada disso parece firme ou constante, além de jamais nascer daí uma amizade nobre. Resta então, pela nossa lei, um caminho para o amado ceder de modo belo ao amante: o caminho da virtude.
Pois, assim como admitimos que servir ao amante de qualquer maneira não é bajulação nem coisa vergonhosa, também uma forma de servidão voluntária que não envergonha o amado: a que tem a virtude por meta.
De fato, é regra entre nós que, se alguém se dispõe a servir a outro acreditando que vai melhorar por causa dele, em sabedoria ou em algum outro aspecto da virtude, essa servidão voluntária não é vergonhosa nem é bajulação.
É preciso que essas duas leis se juntem numa só: a do amor aos jovens e a da filosofia e da virtude em geral. então é belo que o amado ceda ao amante.
Pois, quando o amante e o amado se encontram, cada um com a sua lei, um achando justo prestar qualquer serviço a quem o favorece, e o outro achando justo retribuir de qualquer modo a quem o torna sábio e bom, um capaz de contribuir para a inteligência e a virtude, o outro precisando adquirir educação e sabedoria, é então, quando essas duas leis coincidem, que se torna belo o amado ceder ao amante. Em nenhum outro caso.
Nesse caso, até ser enganado não é nada vergonhoso. Em todos os outros, ser ou não ser enganado traz igual vergonha.
Pois se alguém cede a um amante por julgá-lo rico, querendo dinheiro, e é enganado e não recebe nada porque o amante se revela pobre, isso é vergonhoso do mesmo jeito. Ele mostrou que, por dinheiro, prestaria qualquer serviço a qualquer um, e isso não é belo.
Pelo mesmo raciocínio: se alguém cede a outro por julgá-lo bom, esperando ficar melhor pela amizade dele, e é enganado porque o outro se revela mau e sem virtude, mesmo assim o engano é belo. Pois ele também mostrou o que vale: que, pela virtude e por se tornar melhor, faria tudo por qualquer um. E nada é mais belo que isso.
Assim, é totalmente belo ceder por causa da virtude. Esse é o amor da deusa celeste, o amor celeste, de grande valor para a cidade e para os indivíduos, pois obriga tanto o amante quanto o amado a cuidar muito da própria virtude. Todos os outros amores são da outra deusa, a comum. É esta, Fedro, a minha contribuição sobre o Amor, feita assim, de improviso.
Quando Pausânias fez sua pausa assim, com trocadilho, que os sábios me ensinam a falar), Aristodemo disse que seria a vez de Aristófanes. Mas, por excesso de comida ou por outro motivo, ele teve um soluço e não conseguia falar. Disse, então, a Erixímaco, o médico, que estava no leito abaixo dele: Erixímaco, é justo que você faça uma de duas coisas: ou cure o meu soluço, ou fale no meu lugar até ele passar.
Erixímaco respondeu: vou fazer as duas. Falo na sua vez, e você fala na minha quando o soluço passar. Enquanto eu falo, tente prender a respiração por um bom tempo, a ver se o soluço cessa. Se não, faça gargarejo com água. E, se for muito forte, pegue algo para fazer cócegas no nariz e espirre. Depois de espirrar uma ou duas vezes, mesmo o soluço mais forte vai parar. Aristófanes disse: pode começar logo, que eu faço isso.