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Concordia do Livre Arbítrio - Parte V
Parte V - Sobre a vontade de Deus
A Parte V na Obra
A Parte V da Concordia do Livre Arbítrio, publicada por Luís de Molina em 1588, é curta mas densa: três disputas que giram inteiras em torno de uma única frase de São Paulo, "Deus quer que todos os homens se salvem" (1 Timóteo 2:4). O problema é antigo e direto. Se Deus quer de fato a salvação de todos, por que nem todos se salvam? E se nem todos se salvam, a vontade de Deus não se cumpriu? A resposta a essa pergunta separa as grandes tradições cristãs até hoje, e Molina a enfrenta como ponte entre a liberdade humana e a providência, a predestinação e a reprovação divinas, temas das partes seguintes.
Molina escreve no centro da controvérsia De auxiliis, a disputa entre jesuítas e dominicanos sobre graça e livre-arbítrio que ocupou a Igreja por décadas. Sua ferramenta é a scientia media, o conhecimento intermediário pelo qual Deus sabe, com certeza, o que cada criatura livre escolheria em qualquer circunstância possível. Com ela, Molina quer afirmar uma vontade salvífica genuinamente universal sem cair em predestinação incondicional: Deus oferece graça suficiente a todos, conhece de antemão quem cooperaria com ela, e ordena a história a partir desse conhecimento, sem anular a escolha livre de ninguém.
Conteúdo do Livro
- Disputa 1: as várias interpretações de 1 Timóteo 2:4, "Deus quer que todos os homens se salvem", desde a leitura restritiva de Agostinho até a defesa de uma vontade salvífica de fato universal — (Concordia do Livre Arbítrio - Parte V 1:1)
- Disputa 2: a vontade de Deus sempre se cumpre? A distinção entre o que Deus quer de modo absoluto e o que quer de modo condicionado à resposta livre da criatura — (Concordia do Livre Arbítrio - Parte V 2:1)
- Disputa 3: Deus não é a causa do pecado, nem mesmo em sentido material, ainda que conheça e permita o ato livre que peca — (Concordia do Livre Arbítrio - Parte V 3:1)
- O versículo em disputa: "Deus quer que todos os homens se salvem e venham ao conhecimento da verdade", o texto-base de toda a Parte V — (1Tm 2:4)
A Vontade Salvífica Universal (1 Timóteo 2:4)
A Disputa 1 reúne as leituras concorrentes do versículo. Agostinho restringia o "todos": para ele, a frase não significa cada indivíduo sem exceção, mas todos os que de fato se salvam, ou todas as classes de pessoas (reis, súditos, judeus, gentios). Tomás de Aquino articulou a distinção que estrutura todo o debate posterior: Deus quer a salvação de todos por sua vontade antecedente, considerada antes das circunstâncias particulares, e não necessariamente por sua vontade consequente, que leva em conta os méritos e deméritos de cada um. O que Deus quer de modo absoluto sempre acontece; o que quer de modo antecedente pode não acontecer. Os teólogos também distinguem a vontade significada (o que Deus declara desejar, seus mandamentos e convites) da vontade de beneplácito (o que ele efetivamente decreta).
Molina mantém o "todos" em seu sentido pleno e universal, e é aí que sua posição se distingue. Para ele, Deus quer sinceramente a salvação de cada pessoa e oferece a cada uma os meios para alcançá-la; a diferença entre quem se salva e quem não se salva está na resposta livre, que Deus conhece de antemão pela scientia media sem por isso causá-la. A Disputa 2 examina então se a vontade de Deus sempre se cumpre, e a Disputa 3 protege o ponto mais delicado: que afirmar a vontade salvífica universal e a permissão do pecado não torna Deus a causa do pecado, nem mesmo em sentido material. Essa leitura não é consensual. A tradição reformada lê 1 Timóteo 2:4 de outro modo, em geral entendendo "todos os homens" como todo tipo de gente, não cada indivíduo, ou distinguindo um desejo revelado de Deus de seu decreto eterno; nesse quadro, a vontade decretiva de Deus se cumpre sempre, e a graça que salva é eficaz e particular. O versículo segue sendo um dos textos mais disputados entre as tradições, e a Parte V é o lugar onde Molina expõe sua resposta sem fechar o debate.
Achei importante incluir nesta Concordia o meu ensinamento sobre este tema, pois ele nos ajudará a compreender melhor como a liberdade da nossa vontade se harmoniza com a providência, a predestinação e a reprovação divinas.Luís de Molina, Concordia do Livre Arbítrio - Parte V 1:1
Relevância
A Parte V é breve, mas guarda o coração do molinismo aplicado a um único versículo. Para o leitor cristão, ela oferece a tentativa mais influente de sustentar que Deus quer de fato salvar a todos sem sacrificar nem a liberdade humana nem a soberania divina. Para o leitor que vem da tradição reformada ou apenas curioso, ela é a contraparte de um debate vivo: a mesma frase de Paulo lida de modos opostos por leitores igualmente sérios. O texto recompensa quem acompanha as distinções com atenção, vontade antecedente e consequente, significada e de beneplácito, e julga por si de que lado a leitura de 1 Timóteo 2:4 é mais convincente.