El Cristianismo Como Nihilismo

Una voluntad de nada

Nihilismo, para Nietzsche, es la voluntad de nada: el rechazo de la vida tal como es, con su cuerpo, su sufrimiento, su paso. Acusa al cristianismo de ser exactamente eso, aunque disfrazado de esperanza. Al colocar el sentido de la existencia en un mundo "del más allá", el cristianismo vaciaría este mundo de valor. La muerte, el pecado, el juicio, la inmortalidad del alma serían todos modos de decir no al aquí y ahora.

En su lectura, el cristiano es entrenado a desconfiar de los instintos, del placer, de la salud, del orgullo, de todo lo que afirma la vida terrena. La religión que promete el cielo estaría, en la práctica, enseñando a despreciar la tierra. Por eso Nietzsche la llama hostil a la vida: no porque los cristianos sean infelices, sino porque el sistema de valores tomaría el sufrimiento y la negación como camino.

1 No cristianismo, nem a moral nem a religião tocam em qualquer ponto da realidade. causas imaginárias ("Deus", "alma", "eu", "espírito", "o livre arbítrio" ou então "o não livre"); efeitos imaginários ("pecado", "redenção", "graça", "castigo", "perdão do pecado"). Um trato entre seres imaginários ("Deus", "espíritos", "almas"); uma ciência natural imaginária (antropocêntrica; ausência total do conceito de causas naturais); uma psicologia imaginária (puros mal-entendidos consigo mesmo, interpretações de sensações gerais agradáveis ou desagradáveis, por exemplo dos estados do nervus sympathicus, com ajuda da linguagem cifrada da idiossincrasia religioso-moral, "arrependimento", "remorso", "tentação do diabo", "a proximidade de Deus"); uma teleologia imaginária ("o Reino de Deus", "o juízo final", "a vida eterna"). Esse mundo de pura ficção se distingue muito desfavoravelmente do mundo dos sonhos, porque este reflete a realidade, enquanto aquele falsifica, desvaloriza, nega a realidade. Depois que o conceito de "natureza" foi inventado como contraconceito de "Deus", "natural" teve de virar a palavra para "reprovável", todo aquele mundo de ficção tem sua raiz no ódio ao natural (— a realidade! —), é a expressão de um profundo mal-estar diante do real… Mas com isso tudo se explica. Quem é que tem motivos para mentir para si mesmo e fugir da realidade? Quem sofre dela. Mas sofrer da realidade significa ser uma realidade fracassada… O predomínio dos sentimentos de desprazer sobre os de prazer é a causa daquela moral e religião fictícias: mas tal predomínio é justamente a fórmula da décadence…

2 À mesma conclusão obriga uma crítica do conceito cristão de Deus. Um povo que ainda crê em si mesmo tem também seu próprio Deus. Nele venera as condições pelas quais está por cima, suas virtudes, projeta seu prazer consigo mesmo, seu sentimento de poder, num ser a quem se pode agradecer por isso. Quem é rico quer dar; um povo orgulhoso precisa de um Deus para sacrificar… Religião, dentro de tais pressupostos, é uma forma de gratidão. A pessoa é grata por si mesma: para isso precisa de um Deus. Um Deus assim tem de poder ser útil e prejudicial, tem de poder ser amigo e inimigo, é admirado no bem como no mal. A castração antinatural de um Deus reduzido a um Deus apenas do bem estaria aqui fora de toda desejabilidade. A pessoa precisa do Deus mau tanto quanto do bom: afinal, não deve a própria existência justamente à tolerância, à filantropia… Que valeria um Deus que não conhecesse ira, vingança, inveja, escárnio, astúcia, violência? a quem talvez nem fossem conhecidos os arrebatadores ardeurs da vitória e da destruição? Ninguém entenderia um Deus assim: para que tê-lo? Claro: quando um povo está em ruína; quando sente desaparecer de vez a no futuro, sua esperança de liberdade; quando a submissão lhe entra na consciência como primeira utilidade, as virtudes dos submetidos como condições de sobrevivência, então também seu Deus tem de mudar. Ele se torna agora hipócrita encolhido, medroso, modesto, aconselha a "paz da alma", o não-odiar-mais, a indulgência, o "amor" até a amigo e inimigo. Moraliza sem parar, rasteja para dentro da gruta de cada virtude privada, vira Deus para qualquer um, vira homem privado, vira cosmopolita… Antes ele representava um povo, a força de um povo, tudo que havia de agressivo e sedento de poder na alma de um povo: agora é apenas o bom Deus… De fato, não outra alternativa para os deuses: ou são a vontade de poder e enquanto o forem, serão deuses de um povo ou então a impotência para o poder e então serão necessariamente bons…

3 Onde quer que, sob alguma forma, a vontade de poder decline, sempre também um retrocesso fisiológico, uma décadence. A divindade da décadence, amputada de suas virtudes e impulsos mais viris, torna-se agora necessariamente o Deus dos fisiologicamente retrocedidos, dos fracos. Eles não se chamam a si mesmos de fracos, chamam-se "os bons"… Entende-se, sem que faça falta nenhum aceno a mais, em que momentos da história então se torna possível a ficção dualista de um Deus bom e um Deus mau. Com o mesmo instinto com que os submetidos rebaixam seu Deus a "o bem em si", eles riscam do Deus de seus vencedores as qualidades boas; vingam-se de seus senhores diabolizando o Deus deles. O bom Deus, tanto quanto o diabo: ambos rebentos da décadence. Como ainda hoje se pode ceder tanto à ingenuidade dos teólogos cristãos, a ponto de decretar com eles que a evolução do conceito de Deus, do "Deus de Israel", do Deus nacional, ao Deus cristão, à suma de tudo que é bom, seja um progresso? Mas até Renan o faz. Como se Renan tivesse direito à ingenuidade! O contrário salta aos olhos. Quando os pressupostos da vida ascendente, quando tudo que é forte, valente, dominador, orgulhoso é eliminado do conceito de Deus, quando passo a passo ele afunda até virar símbolo de um cajado para os cansados, de uma âncora de salvação para todos os que se afogam, quando vira Deus dos pobres-coitados, Deus dos pecadores, Deus dos doentes por excelência, e o predicado "salvador", "redentor" sobra por assim dizer como o predicado divino em geral: de que fala tal transformação? tal redução do divino? Claro: "o Reino de Deus" ficou com isso maior. Antes ele tinha apenas seu povo, seu povo "eleito". Nesse meio-tempo, tal qual seu próprio povo, ele saiu para o estrangeiro, para a peregrinação, e desde então não parou mais em parte alguma: até que finalmente ficou em casa em toda parte, o grande cosmopolita, até conquistar para o seu lado "o grande número" e a metade da Terra. Mas o Deus do "grande número", o democrata entre os deuses, mesmo assim não se tornou um orgulhoso deus pagão: continuou judeu, continuou o Deus dos cantos, o Deus de todos os recantos e lugares escuros, de todos os bairros insalubres do mundo inteiro!… Seu império mundial continua sendo, como antes, um império subterrâneo, um hospital, um império de porão, um império de gueto… E ele mesmo, tão pálido, tão fraco, tão décadent… Até os mais pálidos dos pálidos ainda se tornaram seus senhores, os senhores metafísicos, os albinos do conceito. Estes teceram tanto tempo à volta dele que, hipnotizado por seus movimentos, ele mesmo virou aranha, ele mesmo virou metafísico. Daí em diante voltou a tecer o mundo a partir de si sub specie Spinozae —, daí em diante se transfigurou em algo cada vez mais fino e mais pálido, virou "ideal", virou "espírito puro", virou "absolutum", virou "coisa em si"… Declínio de um Deus: Deus virou "coisa em si"…

4 O conceito cristão de Deus Deus como Deus dos doentes, Deus como aranha, Deus como espírito é um dos conceitos de Deus mais corrompidos a que se chegou na Terra; talvez represente até o ponto mais baixo no movimento descendente do tipo divino. Deus degenerado em contradição da vida, em vez de ser sua transfiguração e seu eterno sim! Em Deus, declarada guerra à vida, à natureza, à vontade de viver! Deus como fórmula de toda calúnia do "aquém", de toda mentira sobre o "além"! Em Deus, divinizado o nada, santificada a vontade de nada!…

5 Que as raças fortes do norte da Europa não tenham repelido de si o Deus cristão não faz, na verdade, nenhuma honra à sua aptidão religiosa, para não falar do gosto. Elas deveriam ter dado conta de um rebento da décadence tão doentio e senil. Mas pesa sobre elas uma maldição por não terem dado conta dele: assimilaram a doença, a velhice, a contradição em todos os seus instintos, desde então não criaram mais nenhum Deus! Quase dois milênios e nem um único Deus novo! Em vez disso, ainda em e como se tivesse pleno direito, como um ultimatum e maximum da força criadora de deuses, do creator spiritus no homem, esse lamentável Deus do monótono-teísmo cristão! essa híbrida criação de decadência, feita de zero, conceito e contradição, na qual todos os instintos de décadence, todas as covardias e fadigas da alma têm sua sanção!

La creación llamada buena

El cristiano tiene aquí un contraargumento fuerte y antiguo: la Biblia abre afirmando el mundo, no negándolo. En el primer capítulo, Dios mira la creación material y la llama buena, repetidamente. Y el centro de la fe cristiana no es la huida del cuerpo, sino su resurrección. La pregunta es si Nietzsche describe el cristianismo real o una versión de él que de hecho enfermó.

31 E viu Deus tudo quanto tinha feito, e eis que era muito bom; e foi a tarde e a manhã, o dia sexto.

10 O ladrão não vem senão a roubar, a matar, e a destruir; eu vim para que tenham vida, e a tenham com abundância.

Perspectivas sobre este tema

Los mismos hechos, leídos por dos lentes que discrepan. Ninguna de las voces habla por la posición de la página: existen para que veas el argumento más fuerte de cada lado.

Crítico Histórico

El desprecio del cuerpo es injerto platónico sobre la Biblia, y la costura es datable.

La acusación de Nietzsche tiene un punto de apoyo textual que suele incomodar: el alma inmortal, separable del cuerpo y más noble que él, es una idea griega, no hebrea. En el vocabulario del Antiguo Testamento, nephesh no es un espíritu que sobrevive intacto a la muerte, es la vida que respira, el ser vivo entero, cuerpo y aliento juntos. El dualismo que opone alma pura a cuerpo corruptible entra en el judaísmo helenístico, con Filón de Alejandría como caso clásico de síntesis entre Platón y la Torá, y de ahí en los Padres de la Iglesia. Cuando la predicación cristiana trata el cuerpo como prisión y la muerte como liberación del alma, está más cerca del Fedón de Platón que del Génesis. Es el suelo real donde la crítica de Nietzsche crece.

La historia del ascetismo confirma el resto de la acusación sin que se necesite inventar nada. El monaquismo del desierto, la flagelación, el ayuno llevado a la enfermedad, la sospecha sistemática del placer: existió de hecho un largo linaje cristiano que trató la mortificación de la carne como virtud y el desprecio del mundo como señal de santidad. La escatología, la estructura del ya y todavía no, proporcionó el mecanismo: si el sentido verdadero está en el porvenir, el presente se vuelve sala de espera, y la vida que se tiene ahora puede ser aplazada en nombre de lo que vendrá. Nietzsche llama a eso voluntad de nada, decir no al aquí y ahora travestido de esperanza. Históricamente, no es caricatura afirmar que ciertas corrientes cristianas hicieron exactamente eso.

Donde la acusación se debilita es justamente donde el material bíblico resiste a la filosofía que le fue sobrepuesta. Génesis 1:31 declara la creación buena, y la esperanza hebrea central no es la huida del alma hacia un más allá incorpóreo, sino la resurrección del cuerpo, la reafirmación de la materia. Aquí la tensión interna al cristianismo trabaja contra Nietzsche tanto como contra la teología que ataca: el nihilismo que denuncia es más el platonismo que el cristianismo absorbió que el núcleo de los textos hebreos. El blanco correcto de la crítica no es la Biblia como documento, es una capa interpretativa, griega y ascética, que se sedimentó por encima de ella a lo largo de siglos.

Para la cuestión de la inerrancia, lo que esto expone no es error factual, es estratificación. La doctrina cristiana del alma no brota limpia de una revelación única: es una costura, documentada y datable, entre una antropología hebrea monista y una metafísica griega dualista, reconciliadas a duras penas por Ireneo y Agustín. Reconocer eso no decide si Nietzsche tiene razón sobre el valor de la vida; decide algo más modesto y verificable, que aquello que se presenta como enseñanza bíblica unitaria sobre cuerpo y alma es, en verdad, resultado de una negociación histórica entre tradiciones rivales. La fuerza de la acusación está en apuntar a esa costura. Su debilidad está en confundir la costura con el tejido original.

Apologista Evidencial

El centro de la fe es la resurrección del cuerpo, el opuesto exacto del nihilismo.

Nietzsche acertó en un blanco real, y la honestidad exige empezar por ahí. Hubo, sí, un cristianismo que entrenó generaciones a despreciar el cuerpo, a tratar el placer como sospechoso y esta vida como antesala descartable del más allá. El ascetismo extremo de ciertos eremitas, la hostilidad de mucha predicación al deseo, la lectura que hace de la carne un enemigo metafísico: nada de eso es invención de Nietzsche, está documentado y describe con precisión un patológico que existió. El problema de su argumento no es la observación, es la identificación. Toma la deformación por el original, y es en ese punto donde la evidencia trabaja contra él.

El dualismo que desprecia el cuerpo no nace en la Biblia hebrea, entra por fuera, sobre todo vía platonismo. La teología hebrea es enfáticamente afirmadora del mundo: la creación es declarada buena en Génesis 1, la bendición es la fecundidad, la fiesta, el vino que alegra el corazón del hombre, la tierra que mana leche y miel. No hay aquí salvación como huida del cuerpo, hay el cuerpo como bueno por proyecto. John Walton, al reconstruir el ambiente cognitivo del Antiguo Oriente, muestra que el ser humano de Génesis no es un espíritu aprisionado en la materia, sino una criatura formada por un Dios que ama lo que hace y la instala en un jardín para vivir y disfrutar en él. El resentimiento contra la vida que Nietzsche diagnostica es, en el origen, ajeno a ese texto.

Y el centro del cristianismo, lejos de ser la huida del cuerpo, es su resurrección, el opuesto exacto del nihilismo. N.T. Wright argumenta que la esperanza cristiana fue sistemáticamente mal comprendida a causa de una infiltración platónica: se cambió el evangelio de la nueva creación por un cielo desencarnado que el Nuevo Testamento nunca prometió. Ni Jesús ni Pablo imaginan la salvación como evasión de la fisicalidad; imaginan cuerpos transformados y una tierra renovada, restauración y no escape. La encarnación afirma que Dios asume carne; la resurrección afirma que la carne tiene futuro eterno. Una religión que pone un cuerpo glorificado en el centro de su esperanza es lo inverso de una religión que niega la vida. Irónicamente, Nietzsche combate el platonismo que él mismo identificó como enemigo de la vida, pero lo pega a la fe encarnada que más resistió a él.

Concedo lo que debe concederse: el cristianismo histórico produjo versiones enfermas que merecen el latigazo de Nietzsche, y la fe no disuelve esa parte. Señalar que la deformación no es el original no borra siglos en que la deformación fue predicada como si lo fuera. Lo que queda abierto no es si hubo nihilismo cristiano, lo hubo, sino si es la esencia o la enfermedad de la fe. La mejor teología, de Ireneo contra la gnosis a Wright contra el cielo platónico, siempre combatió el desprecio por el cuerpo como traición al evangelio, no como su consecuencia. El blanco legítimo de Nietzsche es el cristianismo del resentimiento; lo que se equivoca es el del Credo, que confiesa la resurrección de la carne.