A Origem das Espécies - Capítulo XV: Recapitulação e Conclusão 4
Recapitulação e Conclusão
De agora em diante seremos obrigados a reconhecer que a única distinção entre espécies e variedades bem marcadas é que estas são conhecidas, ou se crê serem, ligadas hoje por gradações intermediárias, ao passo que as espécies já estiveram assim ligadas no passado. Por isso, sem rejeitar a consideração da existência atual de gradações intermediárias entre quaisquer duas formas, seremos levados a ponderar com mais cuidado e a valorizar mais o montante real de diferença entre elas. É bem possível que formas hoje geralmente reconhecidas como meras variedades venham a ser julgadas dignas de nomes específicos. E, nesse caso, a linguagem científica e a comum entrarão em acordo. Em suma, teremos de tratar as espécies do mesmo modo como tratam os gêneros aqueles naturalistas que admitem que os gêneros são apenas combinações artificiais feitas por conveniência. Isso pode não ser uma perspectiva animadora, mas ao menos ficaremos livres da busca vã pela essência não descoberta e indescobrível do termo espécie.
Os demais ramos, mais gerais, da história natural ganharão muito em interesse. Os termos usados pelos naturalistas, como afinidade, parentesco, comunidade de tipo, paternidade, morfologia, caracteres adaptativos, órgãos rudimentares e abortados, e outros, deixarão de ser metafóricos e passarão a ter um significado claro. Quando não mais olharmos para um ser orgânico como um selvagem olha para um navio, como algo totalmente fora de sua compreensão; quando encararmos toda produção da natureza como algo que teve uma longa história; quando contemplarmos toda estrutura e instinto complexos como a soma de muitos artifícios, cada um útil ao seu possuidor, do mesmo modo como qualquer grande invento mecânico é a soma do trabalho, da experiência, da razão e até dos erros de inúmeros operários; quando assim olharmos para cada ser orgânico, quanto mais interessante, falo por experiência, se torna o estudo da história natural!
Um campo de pesquisa grandioso e quase intocado se abrirá, sobre as causas e leis da variação, sobre a correlação, sobre os efeitos do uso e do desuso, sobre a ação direta das condições externas, e assim por diante. O estudo das produções domésticas crescerá imensamente em valor. Uma nova variedade criada pelo homem será objeto de estudo bem mais importante e interessante do que mais uma espécie acrescentada à infinidade de espécies já registradas. Nossas classificações virão a ser, na medida em que isso for possível, genealogias, e então darão de fato o que se pode chamar de plano da criação. As regras para classificar sem dúvida ficarão mais simples quando tivermos um objetivo definido em vista. Não possuímos nenhuma árvore genealógica nem brasões, e temos de descobrir e rastrear as muitas linhas divergentes de descendência em nossas genealogias naturais, por meio de caracteres de qualquer tipo que tenham sido herdados há muito tempo. Os órgãos rudimentares falarão de modo infalível sobre a natureza de estruturas perdidas há muito. Espécies e grupos de espécies chamados aberrantes, e que se poderia, por capricho, chamar de fósseis vivos, nos ajudarão a formar um quadro das formas de vida antigas. A embriologia muitas vezes nos revelará a estrutura, em certo grau obscurecida, dos protótipos de cada grande classe.
Quando pudermos ter certeza de que todos os indivíduos de uma mesma espécie, e todas as espécies estreitamente aparentadas da maioria dos gêneros, descenderam, dentro de um período não muito remoto, de um único ancestral, e migraram de algum único local de nascimento; e quando conhecermos melhor os muitos meios de migração, então, à luz que a geologia hoje lança, e continuará a lançar, sobre antigas mudanças de clima e de nível do solo, certamente seremos capazes de rastrear de modo admirável as antigas migrações dos habitantes do mundo inteiro. Mesmo no presente, comparando as diferenças entre os habitantes do mar nos lados opostos de um continente, e a natureza dos vários habitantes desse continente em relação a seus aparentes meios de imigração, pode-se lançar alguma luz sobre a geografia antiga.
A nobre ciência da geologia perde glória por causa da extrema imperfeição do registro. A crosta da Terra, com seus restos nela embutidos, não deve ser vista como um museu bem abastecido, mas como uma coleção pobre, feita ao acaso e em raros intervalos. Reconhecer-se-á que o acúmulo de cada grande formação fossilífera dependeu de uma ocorrência incomum de circunstâncias favoráveis, e que os intervalos em branco entre os estágios sucessivos tiveram vasta duração. Mas seremos capazes de medir com alguma segurança a duração desses intervalos comparando as formas orgânicas anteriores e posteriores. Devemos ser cautelosos ao tentar correlacionar como rigorosamente contemporâneas duas formações que não incluam muitas espécies idênticas, com base na sucessão geral das formas de vida. Como as espécies são produzidas e exterminadas por causas de ação lenta e ainda existentes, e não por atos milagrosos de criação; e como a mais importante de todas as causas de mudança orgânica é uma que é quase independente das condições físicas alteradas, e talvez subitamente alteradas, a saber, a relação mútua entre organismo e organismo, em que a melhoria de um organismo acarreta a melhoria ou a extinção de outros; segue-se que o montante de mudança orgânica nos fósseis de formações consecutivas provavelmente serve como uma medida razoável do decurso relativo, ainda que não real, do tempo. Um conjunto de espécies, porém, mantendo-se reunido, poderia permanecer por longo período sem mudança, enquanto, dentro do mesmo período, várias dessas espécies, ao migrar para novos países e entrar em competição com associados estrangeiros, poderiam se modificar. Por isso não devemos superestimar a precisão da mudança orgânica como medida do tempo.
No futuro vejo campos abertos para pesquisas bem mais importantes. A psicologia se assentará com segurança sobre o fundamento já bem lançado pelo sr. Herbert Spencer, o da necessária aquisição de cada faculdade e capacidade mental por gradação. Muita luz se lançará sobre a origem do homem e sua história.
Autores da mais alta eminência parecem plenamente satisfeitos com a ideia de que cada espécie foi criada de modo independente. A meu ver, harmoniza-se melhor com o que conhecemos das leis impressas na matéria pelo Criador que a produção e a extinção dos habitantes passados e presentes do mundo se tenham devido a causas secundárias, como as que determinam o nascimento e a morte do indivíduo. Quando vejo todos os seres não como criações especiais, mas como os descendentes diretos de alguns poucos seres que viveram muito antes de se depositar o primeiro leito do sistema cambriano, eles me parecem ennobrecidos. A julgar pelo passado, podemos com segurança inferir que nenhuma espécie viva transmitirá sua semelhança inalterada a um futuro distinto. E, das espécies hoje vivas, pouquíssimas transmitirão descendência de qualquer tipo a um futuro muito distante, pois o modo como todos os seres orgânicos estão agrupados mostra que o maior número de espécies em cada gênero, e todas as espécies em muitos gêneros, não deixaram descendentes, mas se extinguiram por completo. Podemos, até certo ponto, lançar um olhar profético para o futuro e prever que serão as espécies comuns e amplamente distribuídas, pertencentes aos grupos maiores e dominantes dentro de cada classe, que afinal prevalecerão e gerarão novas espécies dominantes. Como todas as formas vivas de vida são os descendentes diretos das que viveram muito antes da época cambriana, podemos ter certeza de que a sucessão ordinária por geração nunca foi rompida uma única vez, e que nenhum cataclismo desolou o mundo inteiro. Por isso podemos olhar com alguma confiança para um futuro seguro de grande duração. E, como a seleção natural trabalha unicamente por meio do bem de cada ser e para o bem dele, todos os dons corporais e mentais tenderão a progredir rumo à perfeição.
É interessante contemplar uma margem emaranhada, vestida de muitas plantas de muitos tipos, com aves cantando nos arbustos, com vários insetos esvoaçando ao redor, e com vermes rastejando pela terra úmida, e refletir que essas formas tão elaboradamente construídas, tão diferentes umas das outras, e dependentes umas das outras de modo tão complexo, foram todas produzidas por leis que atuam ao nosso redor. Essas leis, tomadas no sentido mais amplo, são o Crescimento com reprodução; a Hereditariedade, quase implícita na reprodução; a Variabilidade decorrente da ação indireta e direta das condições de vida, e do uso e do desuso; uma Taxa de Aumento tão alta que leva a uma Luta pela Vida e, em consequência, à Seleção Natural, acarretando a Divergência de Caráter e a Extinção das formas menos aperfeiçoadas. Assim, da guerra da natureza, da fome e da morte, segue-se diretamente o objeto mais elevado que somos capazes de conceber, a saber, a produção dos animais superiores. Há grandeza nesta visão da vida, com seus vários poderes, tendo sido originalmente insuflados pelo Criador em algumas poucas formas, ou numa só; e que, enquanto este planeta seguiu girando segundo a lei fixa da gravidade, a partir de um começo tão simples, formas infindáveis, belíssimas e maravilhosíssimas, foram e estão sendo desenvolvidas.