A Origem das Espécies - Capítulo VIII: Instinto 3

Instinto

Instinto escravizador. Esse instinto notável foi descoberto primeiro na Formica (Polyerges) rufescens por Pierre Huber, observador ainda melhor do que seu célebre pai. Essa formiga é absolutamente dependente de suas escravas; sem o auxílio delas, a espécie certamente se extinguiria em um único ano. Os machos e as fêmeas férteis não fazem trabalho de espécie alguma, e as operárias, ou fêmeas estéreis, embora muito enérgicas e corajosas na captura de escravas, não realizam nenhum outro trabalho. São incapazes de fazer os próprios ninhos ou de alimentar as próprias larvas. Quando o ninho antigo se torna inconveniente e elas têm de migrar, são as escravas que decidem a migração e de fato carregam as senhoras nas mandíbulas. Tão completamente desamparadas são as senhoras que, quando Huber encerrou trinta delas sem nenhuma escrava, mas com fartura do alimento de que mais gostam, e com suas larvas e pupas para estimulá-las a trabalhar, nada fizeram; nem ao menos conseguiram se alimentar, e muitas morreram de fome. Huber então introduziu uma única escrava (F. fusca), e ela na hora pôs mãos à obra, alimentou e salvou as sobreviventes; fez algumas células, cuidou das larvas e pôs tudo em ordem. O que pode ser mais extraordinário do que esses fatos bem comprovados? Se não conhecêssemos nenhuma outra formiga escravizadora, seria inútil especular como um instinto tão admirável poderia ter sido aperfeiçoado.
Outra espécie, a Formica sanguinea, também foi descoberta primeiro por P. Huber como formiga escravizadora. Essa espécie é encontrada no sul da Inglaterra, e seus hábitos foram acompanhados pelo senhor F. Smith, do Museu Britânico, a quem devo muita informação sobre este e outros assuntos. Embora confiasse plenamente nas afirmações de Huber e do senhor Smith, procurei abordar o tema com um espírito cético, pois qualquer um tem boa desculpa para duvidar da existência de um instinto tão extraordinário quanto o de fazer escravas. Por isso, vou apresentar com algum detalhe as observações que fiz. Abri quatorze ninhos de F. sanguinea e encontrei algumas escravas em todos. Os machos e as fêmeas férteis da espécie escravizada (F. fusca) são encontrados em suas próprias comunidades, e nunca foram observados nos ninhos de F. sanguinea. As escravas são pretas e não passam da metade do tamanho de suas senhoras vermelhas, de modo que o contraste no aspecto é grande. Quando o ninho é levemente perturbado, as escravas às vezes saem e, como as senhoras, ficam muito agitadas e defendem o ninho: quando o ninho é muito perturbado, e as larvas e pupas ficam expostas, as escravas trabalham com energia junto com as senhoras para carregá-las a um lugar seguro. Fica claro, portanto, que as escravas se sentem em casa. Durante os meses de junho e julho, em três anos seguidos, observei por muitas horas vários ninhos em Surrey e Sussex, e nunca vi uma escrava sair ou entrar num ninho. Como, nesses meses, as escravas são muito poucas em número, achei que talvez se comportassem de modo diferente quando mais numerosas; mas o senhor Smith me informa que observou os ninhos em horários variados durante maio, junho e agosto, tanto em Surrey quanto em Hampshire, e nunca viu as escravas, embora presentes em grande número em agosto, saírem ou entrarem no ninho. Por isso, ele as considera escravas estritamente domésticas. As senhoras, por outro lado, podem ser vistas o tempo todo trazendo materiais para o ninho e alimento de todo tipo. Durante o ano de 1860, porém, no mês de julho, deparei com uma comunidade que tinha um estoque excepcionalmente grande de escravas, e observei algumas escravas misturadas às senhoras saindo do ninho e marchando pelo mesmo caminho até um alto pinheiro-da-escócia, a vinte e três metros de distância, que subiram juntas, provavelmente em busca de pulgões ou cochonilhas. Segundo Huber, que teve ampla oportunidade de observação, as escravas na Suíça habitualmente trabalham com as senhoras na construção do ninho, e elas abrem e fecham as portas de manhã e à noite; e, como Huber afirma expressamente, sua principal função é procurar pulgões. Essa diferença nos hábitos usuais das senhoras e das escravas nos dois países provavelmente depende apenas de as escravas serem capturadas em maior número na Suíça do que na Inglaterra.
Um dia tive a sorte de presenciar uma migração de F. sanguinea de um ninho para outro, e foi um espetáculo fascinante ver as senhoras carregando com cuidado suas escravas nas mandíbulas, em vez de serem carregadas por elas, como acontece com F. rufescens. Em outro dia minha atenção foi atraída por umas vinte formigas escravagistas rondando o mesmo lugar, claramente não em busca de comida. Elas se aproximavam e eram repelidas com vigor por uma comunidade independente da espécie escrava (F. fusca), e às vezes até três dessas formigas se agarravam às pernas da F. sanguinea escravagista. Esta matava sem piedade suas pequenas adversárias e levava os corpos como alimento ao ninho, a vinte e seis metros de distância, mas ficou impedida de obter qualquer pupa para criar como escrava. Então eu desenterrei um pequeno lote de pupas de F. fusca de outro ninho e o coloquei num ponto descoberto perto do local do combate. As pupas foram avidamente agarradas e levadas pelas tiranas, que talvez imaginassem que, afinal, tinham vencido o combate recente.
Ao mesmo tempo coloquei no mesmo lugar um pequeno lote de pupas de outra espécie, F. flava, com algumas dessas pequenas formigas amarelas ainda agarradas aos fragmentos do ninho. Essa espécie às vezes é transformada em escrava, embora raramente, como descreveu o sr. Smith. Apesar de tão pequena, ela é muito corajosa, e eu a vi atacar outras formigas com ferocidade. Numa ocasião encontrei, para minha surpresa, uma comunidade independente de F. flava sob uma pedra, embaixo de um ninho da escravagista F. sanguinea; e quando perturbei sem querer os dois ninhos, as pequenas formigas atacaram suas grandes vizinhas com coragem surpreendente. Eu estava curioso para saber se a F. sanguinea conseguia distinguir as pupas de F. fusca, que ela costuma transformar em escravas, das pupas da pequena e furiosa F. flava, que ela raramente captura, e ficou evidente que ela as distinguia na hora. Como vimos, ela agarrava as pupas de F. fusca com avidez e rapidez, mas ficava muito assustada ao encontrar as pupas, ou até mesmo a terra do ninho, de F. flava, e fugia depressa. Mas em cerca de quinze minutos, logo depois que todas as pequenas formigas amarelas se afastaram, ela criou coragem e levou as pupas.
Numa tarde visitei outra comunidade de F. sanguinea e encontrei várias dessas formigas voltando para casa e entrando nos ninhos, carregando os corpos de F. fusca (o que mostra que não era uma migração) e numerosas pupas. Segui uma longa fila de formigas carregadas de espólio por cerca de trinta e seis metros, de volta a um tufo muito denso de urze, de onde vi sair o último indivíduo de F. sanguinea, carregando uma pupa. Mas não consegui encontrar o ninho devastado na urze espessa. O ninho, porém, devia estar bem perto, pois dois ou três indivíduos de F. fusca corriam de um lado para outro em enorme agitação, e um deles estava parado, imóvel, com a própria pupa na boca, no topo de um ramo de urze, uma imagem de desespero diante do lar saqueado.
Esses são os fatos, embora não precisassem de confirmação minha, a respeito do extraordinário instinto de fazer escravas. Repare que contraste entre os hábitos instintivos da F. sanguinea e os da F. rufescens, do continente. Esta última não constrói o próprio ninho, não decide suas próprias migrações, não recolhe comida para si nem para a prole, e nem sequer consegue se alimentar: depende totalmente de suas numerosas escravas. A Formica sanguinea, por outro lado, tem muito menos escravas, e no início do verão pouquíssimas. As senhoras decidem quando e onde um novo ninho será formado, e quando migram são elas que carregam as escravas. Tanto na Suíça quanto na Inglaterra, as escravas parecem cuidar com exclusividade das larvas, e as senhoras saem em expedições escravagistas. Na Suíça escravas e senhoras trabalham juntas, fabricando e trazendo material para o ninho: ambas, mas principalmente as escravas, tratam e ordenham, por assim dizer, seus pulgões; e assim ambas recolhem comida para a comunidade. Na Inglaterra, em geral as senhoras deixam o ninho para recolher material de construção e comida para si, para as escravas e para as larvas. De modo que as senhoras neste país recebem muito menos serviço de suas escravas do que recebem na Suíça.
Por quais etapas o instinto da F. sanguinea surgiu, não vou me arriscar a conjeturar. Mas como as formigas que não são escravagistas vão, segundo vi, levar embora pupas de outras espécies, se elas estiverem espalhadas perto dos ninhos, é possível que pupas originalmente estocadas como alimento acabassem se desenvolvendo; e as formigas estrangeiras assim criadas sem intenção seguiriam seus próprios instintos e fariam o trabalho que pudessem. Se a presença delas se mostrasse útil à espécie que as havia capturado, se fosse mais vantajoso para essa espécie capturar operárias do que gerá-las, o hábito de recolher pupas, originalmente como comida, poderia ser fortalecido pela seleção natural e tornado permanente para a finalidade muito diferente de criar escravas. Uma vez adquirido o instinto, mesmo que praticado em escala muito menor do que na nossa F. sanguinea britânica, que, como vimos, é menos auxiliada por suas escravas do que a mesma espécie na Suíça, a seleção natural poderia aumentar e modificar o instinto, sempre supondo que cada modificação fosse útil à espécie, até se formar uma formiga tão miseravelmente dependente das escravas quanto a Formica rufescens.
Instinto de construir células na abelha-de-colmeia. Não vou entrar aqui em detalhes minuciosos sobre o assunto, mas apenas dar um resumo das conclusões a que cheguei. É preciso ser um homem obtuso para examinar a estrutura primorosa de um favo, tão belamente adaptada à sua finalidade, sem uma admiração entusiasmada. Os matemáticos nos dizem que as abelhas resolveram na prática um problema difícil, e fizeram suas células no formato exato para conter a maior quantidade possível de mel com o menor gasto possível da preciosa cera na construção. se observou que um operário habilidoso, com ferramentas e medidas adequadas, teria muita dificuldade de fazer células de cera na forma exata, e no entanto isso é realizado por uma multidão de abelhas trabalhando numa colmeia escura. Por mais instintos que se queira conceder a elas, parece à primeira vista inconcebível como conseguem fazer todos os ângulos e planos necessários, ou mesmo perceber quando estão corretamente feitos. Mas a dificuldade não é nem de longe tão grande quanto parece à primeira vista: todo esse belo trabalho pode ser mostrado, eu acho, como resultado de uns poucos instintos simples.
Fui levado a investigar o assunto pelo sr. Waterhouse, que mostrou que a forma da célula está em estreita relação com a presença das células vizinhas; e o ponto de vista a seguir talvez possa ser considerado apenas uma modificação da teoria dele. Olhemos para o grande princípio da gradação e vejamos se a natureza não nos revela o seu método de trabalho. Numa ponta de uma série curta temos os mamangavas, que usam seus casulos velhos para guardar mel, às vezes acrescentando a eles tubos curtos de cera, e também fazem células de cera arredondadas, separadas e bem irregulares. Na outra ponta da série temos as células da abelha-de-colmeia, dispostas em camada dupla: cada célula, como é bem sabido, é um prisma hexagonal, com as bordas da base de seus seis lados chanfradas de modo a se unir a uma pirâmide invertida de três losangos. Esses losangos têm certos ângulos, e os três que formam a base piramidal de uma única célula de um lado do favo entram na composição das bases de três células vizinhas do lado oposto. Na série entre a perfeição extrema das células da abelha-de-colmeia e a simplicidade das do mamangava, temos as células da Melipona domestica do México, descritas e ilustradas com cuidado por Pierre Huber. A própria Melipona é intermediária em estrutura entre a abelha-de-colmeia e o mamangava, mas mais próxima deste último: ela forma um favo de cera quase regular, de células cilíndricas, em que os filhotes são chocados, e, além disso, algumas células grandes de cera para guardar mel. Essas últimas células são quase esféricas e de tamanhos quase iguais, e se agregam numa massa irregular. Mas o ponto importante a notar é que essas células são sempre feitas naquele grau de proximidade umas das outras em que elas teriam se cruzado ou penetrado umas nas outras se as esferas tivessem sido completadas; mas isso nunca é permitido, pois as abelhas constroem paredes de cera perfeitamente planas entre as esferas que assim tendem a se cruzar. Por isso, cada célula consiste numa porção esférica externa e em duas, três ou mais superfícies planas, conforme a célula esteja vizinha a duas, três ou mais outras células. Quando uma célula se apoia em três outras células, o que, por serem as esferas quase do mesmo tamanho, acontece com muita frequência e por necessidade, as três superfícies planas se unem numa pirâmide; e essa pirâmide, como observou Huber, é claramente uma imitação grosseira da base piramidal de três lados da célula da abelha-de-colmeia. Assim como nas células da abelha-de-colmeia, aqui também as três superfícies planas de qualquer célula entram necessariamente na construção de três células vizinhas. É óbvio que a Melipona economiza cera, e o que é mais importante, trabalho, com essa maneira de construir; pois as paredes planas entre as células vizinhas não são duplas, mas têm a mesma espessura das porções esféricas externas, e ainda assim cada porção plana forma parte de duas células.
Refletindo sobre esse caso, ocorreu-me que se a Melipona tivesse feito suas esferas a uma certa distância umas das outras, e as tivesse feito de tamanhos iguais e as tivesse arranjado simetricamente numa camada dupla, a estrutura resultante seria tão perfeita quanto o favo da abelha-de-colmeia. Por isso escrevi ao professor Miller, de Cambridge, e esse geômetra teve a gentileza de ler a afirmação a seguir, redigida a partir das informações dele, e me diz que está rigorosamente correta:
Se um número de esferas iguais for traçado com seus centros dispostos em duas camadas paralelas; com o centro de cada esfera à distância de raio x raiz(2), ou raio x 1,41421 (ou a alguma distância menor), dos centros das seis esferas que a cercam na mesma camada; e à mesma distância dos centros das esferas vizinhas na outra camada, paralela; então, se forem formados planos de interseção entre as várias esferas das duas camadas, resultará uma camada dupla de prismas hexagonais unidos por bases piramidais formadas de três losangos; e os losangos e os lados dos prismas hexagonais terão todos os ângulos idênticos às melhores medições feitas das células da abelha-de-colmeia. Mas soube pelo professor Wyman, que fez numerosas medições cuidadosas, que a precisão do trabalho da abelha foi muito exagerada; tanto que, qualquer que seja a forma típica da célula, ela raramente, ou nunca, é realizada.
Por isso podemos concluir com segurança que, se pudéssemos modificar levemente os instintos que a Melipona possui, e que em si não são muito extraordinários, essa abelha faria uma estrutura tão maravilhosamente perfeita quanto a da abelha-de-colmeia. Devemos supor que a Melipona tenha o poder de formar suas células verdadeiramente esféricas e de tamanhos iguais; e isso não seria muito surpreendente, que ela faz isso até certo ponto, e tendo em vista que escavações perfeitamente cilíndricas muitos insetos fazem na madeira, aparentemente girando em torno de um ponto fixo. Devemos supor que a Melipona arranje suas células em camadas niveladas, como faz com suas células cilíndricas; e devemos supor ainda, e essa é a maior dificuldade, que ela consiga de algum modo julgar com precisão a que distância ficar de suas companheiras de trabalho quando várias estão fazendo suas esferas; mas ela é capaz de julgar a distância a ponto de sempre traçar suas esferas de modo a se cruzarem até certo grau; e então une os pontos de interseção com superfícies perfeitamente planas. Por meio dessas modificações de instintos que em si não são muito extraordinários, pouco mais extraordinários do que os que guiam um pássaro a fazer seu ninho, acredito que a abelha-de-colmeia adquiriu, pela seleção natural, suas inimitáveis habilidades arquitetônicas.
Mas essa teoria pode ser testada por experimento. Seguindo o exemplo do sr. Tegetmeier, separei dois favos e coloquei entre eles uma tira de cera retangular, longa e grossa: as abelhas imediatamente começaram a escavar nela minúsculas covas circulares; e à medida que aprofundavam essas pequenas covas, faziam-nas cada vez mais largas, até se transformarem em bacias rasas, que pareciam aos olhos perfeitamente exatas ou partes de uma esfera, e com cerca do diâmetro de uma célula. Foi muito interessante observar que, sempre que várias abelhas tinham começado a escavar essas bacias próximas umas das outras, elas haviam começado o trabalho a uma distância tal entre si que, quando as bacias atingiam a largura mencionada acima (ou seja, cerca da largura de uma célula comum) e tinham uma profundidade de cerca de um sexto do diâmetro da esfera de que faziam parte, as bordas das bacias se cruzavam ou penetravam umas nas outras. Assim que isso acontecia, as abelhas paravam de escavar e começavam a erguer paredes planas de cera sobre as linhas de interseção entre as bacias, de modo que cada prisma hexagonal era construído sobre a borda recortada de uma bacia lisa, em vez de sobre as bordas retas de uma pirâmide de três lados, como no caso das células comuns.
Em seguida coloquei na colmeia, em vez de um pedaço grosso e retangular de cera, uma crista fina e estreita, com gume de faca, tingida de vermelhão. As abelhas imediatamente começaram, dos dois lados, a escavar pequenas bacias próximas umas das outras, da mesma maneira de antes; mas a crista de cera era tão fina que os fundos das bacias, se fossem escavados até a mesma profundidade do experimento anterior, teriam penetrado uns nos outros pelos lados opostos. As abelhas, porém, não deixaram isso acontecer, e interromperam suas escavações no momento certo; de modo que as bacias, assim que ficavam um pouco mais fundas, passavam a ter bases planas; e essas bases planas, formadas por finas plaquinhas da cera vermelhão deixada sem roer, ficavam situadas, até onde os olhos podiam julgar, exatamente ao longo dos planos de interseção imaginária entre as bacias do lado oposto da crista de cera. Em algumas partes, pequenas porções, em outras, grandes porções de uma placa romboidal eram assim deixadas entre as bacias opostas, mas o trabalho, dada a situação artificial, não foi feito com capricho. As abelhas devem ter trabalhado quase no mesmo ritmo ao roer em círculo e aprofundar as bacias dos dois lados da crista de cera vermelhão, para conseguir assim deixar placas planas entre as bacias, parando o trabalho nos planos de interseção.
Considerando como a cera fina é flexível, não vejo dificuldade alguma em as abelhas, enquanto trabalham nos dois lados de uma tira de cera, perceberem quando roeram a cera até a espessura fina adequada, e então pararem o trabalho. Nos favos comuns, pareceu-me que as abelhas nem sempre conseguem trabalhar exatamente no mesmo ritmo dos lados opostos; pois notei losangos meio prontos na base de uma célula recém-iniciada, que eram ligeiramente côncavos de um lado, onde suponho que as abelhas tinham escavado depressa demais, e convexos do lado oposto, onde tinham trabalhado mais devagar. Num caso bem nítido, recoloquei o favo na colmeia, deixei as abelhas continuarem trabalhando por um curto período e examinei de novo a célula, e descobri que a placa romboidal tinha sido completada e ficado perfeitamente plana: era totalmente impossível, dada a espessura mínima da plaquinha, que tivessem conseguido isso roendo o lado convexo; e suspeito que, nesses casos, as abelhas se posicionam nas células opostas e empurram e dobram a cera maleável e quente (o que, como testei, se faz com facilidade) para o seu plano intermediário adequado, e assim a achatam.
A partir do experimento da crista de cera vermelhão, podemos ver que, se as abelhas fossem construir para si uma parede fina de cera, conseguiriam fazer suas células no formato adequado, posicionando-se à distância certa umas das outras, escavando no mesmo ritmo e procurando fazer cavidades esféricas iguais, mas nunca deixando as esferas penetrarem umas nas outras. Ora, as abelhas, como se com clareza ao examinar a borda de um favo em crescimento, de fato fazem uma parede ou borda externa irregular em volta de todo o favo; e elas a roem dos lados opostos, sempre trabalhando em círculo à medida que aprofundam cada célula. Elas não fazem ao mesmo tempo toda a base piramidal de três lados de uma célula, mas apenas aquela única placa romboidal que fica na borda extrema em crescimento, ou as duas placas, conforme o caso; e nunca completam as bordas superiores das placas romboidais até que as paredes hexagonais sejam iniciadas. Algumas dessas afirmações divergem das feitas pelo justamente célebre Huber, o pai, mas estou convencido de sua exatidão; e se eu tivesse espaço, poderia mostrar que estão de acordo com a minha teoria.