A Origem das Espécies - Capítulo IV: A Seleção Natural, ou a Sobrevivência do Mais Apto 1

A Seleção Natural

Como a luta pela existência, que discuti brevemente no último capítulo, vai atuar em relação à variação? O princípio da seleção, que vimos ser tão poderoso nas mãos do homem, pode se aplicar na natureza? Acredito que veremos que ele pode atuar de forma muito eficiente. Tenha em mente a quantidade infinita de pequenas variações e diferenças individuais que ocorrem em nossas produções domésticas e, em menor grau, naquelas em estado natural, assim como a força da tendência hereditária. Sob domesticação, pode-se dizer com verdade que toda a organização do ser se torna, em certo grau, plástica. Mas a variabilidade que encontramos quase universalmente em nossas produções domésticas não é produzida diretamente pelo homem, como Hooker e Asa Gray observaram bem. Ele não consegue criar variedades nem impedir que elas surjam; consegue preservar e acumular as que de fato surgem. Sem intenção, ele expõe os seres orgânicos a condições de vida novas e mutáveis, e a variabilidade se segue. Mas mudanças semelhantes nas condições podem ocorrer, e ocorrem, na natureza. Tenha em mente também o quanto são infinitamente complexas e perfeitamente ajustadas as relações mútuas de todos os seres orgânicos entre si e com suas condições físicas de vida. Em consequência, quão infinitamente variadas diversidades de estrutura poderiam ser úteis a cada ser sob condições de vida que mudam. Será que então se pode julgar improvável, visto que variações úteis ao homem sem dúvida ocorreram, que outras variações úteis de algum modo a cada ser na grande e complexa batalha da vida ocorram ao longo de muitas gerações sucessivas? Se tais variações ocorrem, podemos duvidar (lembrando que nascem muito mais indivíduos do que podem sobreviver) de que os indivíduos com qualquer vantagem, por menor que seja, sobre os outros, teriam a melhor chance de sobreviver e procriar sua espécie? Por outro lado, podemos ter certeza de que qualquer variação minimamente prejudicial seria rigidamente destruída. A essa preservação das diferenças individuais e variações favoráveis, e a destruição das que são prejudiciais, dei o nome de seleção natural, ou sobrevivência do mais apto. As variações que não são nem úteis nem prejudiciais não seriam afetadas pela seleção natural, e ficariam ou como um elemento flutuante, como talvez vejamos em certas espécies polimórficas, ou acabariam por se fixar, em razão da natureza do organismo e da natureza das condições.
Vários autores entenderam mal a expressão seleção natural ou levantaram objeções a ela. Alguns até imaginaram que a seleção natural induz a variabilidade, quando ela implica apenas a preservação das variações que surgem e são benéficas ao ser sob suas condições de vida. Ninguém se opõe a que os agricultores falem dos efeitos poderosos da seleção feita pelo homem. E nesse caso as diferenças individuais dadas pela natureza, que o homem seleciona com algum objetivo, precisam necessariamente surgir primeiro. Outros objetaram que a palavra seleção implica escolha consciente nos animais que se modificam. E chegou-se a argumentar que, como as plantas não têm vontade, a seleção natural não se aplicaria a elas. No sentido literal da palavra, sem dúvida, seleção natural é uma expressão falsa. Mas quem se opôs a que os químicos falem das afinidades eletivas dos vários elementos? E, no entanto, não se pode dizer, a rigor, que um ácido eleja a base com que se combina de preferência. Disseram que eu falo da seleção natural como uma potência ativa ou uma divindade. Mas quem se opõe a que um autor fale da atração da gravidade como aquilo que governa os movimentos dos planetas? Todo mundo sabe o que se quer dizer e o que está implícito nessas expressões metafóricas, e elas são quase necessárias para a concisão. Da mesma forma, é difícil evitar personificar a palavra Natureza. Mas, ao falar de natureza, refiro-me apenas à ação e ao produto conjuntos de muitas leis naturais, e, por leis, à sequência de eventos como a verificamos. Com um pouco de familiaridade, essas objeções superficiais serão esquecidas.
Compreenderemos melhor o curso provável da seleção natural tomando o caso de um país que passa por alguma pequena mudança física, por exemplo, de clima. Os números proporcionais de seus habitantes vão sofrer uma mudança quase imediata, e algumas espécies provavelmente se extinguirão. Podemos concluir, pelo que vimos sobre o modo íntimo e complexo como os habitantes de cada país estão ligados entre si, que qualquer mudança nas proporções numéricas dos habitantes, independentemente da própria mudança de clima, afetaria seriamente os demais. Se o país tivesse fronteiras abertas, formas novas certamente imigrariam, e isso também perturbaria seriamente as relações de alguns dos antigos habitantes. Lembre-se de quão poderosa se mostrou a influência de uma única árvore ou de um único mamífero introduzido. Mas no caso de uma ilha, ou de um país parcialmente cercado por barreiras, ao qual formas novas e mais bem adaptadas não pudessem entrar livremente, então teríamos lugares na economia da natureza que com certeza seriam mais bem ocupados se alguns dos habitantes originais fossem modificados de algum modo. Pois, se a área estivesse aberta à imigração, esses mesmos lugares teriam sido tomados por intrusos. Em tais casos, pequenas modificações que de algum modo favorecessem os indivíduos de qualquer espécie, adaptando-os melhor às suas condições alteradas, tenderiam a ser preservadas, e a seleção natural teria espaço livre para a obra de aperfeiçoamento.
Temos bons motivos para acreditar, como mostrei no primeiro capítulo, que mudanças nas condições de vida geram uma tendência ao aumento da variabilidade. E, nos casos anteriores, as condições mudaram, o que claramente seria favorável à seleção natural, por oferecer uma chance maior de surgirem variações vantajosas. A menos que tais variações ocorram, a seleção natural nada pode fazer. Sob o termo variações, nunca se deve esquecer que as simples diferenças individuais estão incluídas. Assim como o homem consegue produzir um grande resultado em seus animais e plantas domésticos somando, em qualquer direção dada, as diferenças individuais, também a seleção natural conseguiria, que com muito mais facilidade, por dispor de um tempo de ação incomparavelmente maior. Tampouco acredito que seja necessária qualquer grande mudança física, como a de clima, ou qualquer grau incomum de isolamento que detenha a imigração, para que lugares novos e desocupados fiquem disponíveis para a seleção natural preencher, aperfeiçoando alguns dos habitantes que variam. Pois, como todos os habitantes de cada país estão lutando juntos com forças finamente equilibradas, modificações extremamente pequenas na estrutura ou nos hábitos de uma espécie muitas vezes lhe dariam uma vantagem sobre as outras. E novas modificações do mesmo tipo muitas vezes aumentariam ainda mais essa vantagem, enquanto a espécie continuasse sob as mesmas condições de vida e se beneficiasse de meios semelhantes de subsistência e defesa. Não se pode citar nenhum país em que todos os habitantes nativos estejam hoje tão perfeitamente adaptados uns aos outros e às condições físicas em que vivem que nenhum deles pudesse ser ainda mais bem adaptado ou aperfeiçoado. Pois, em todos os países, os nativos foram de tal forma vencidos por produções naturalizadas que permitiram que alguns estrangeiros tomassem posse firme da terra. E, como os estrangeiros venceram assim, em todos os países, alguns dos nativos, podemos concluir com segurança que os nativos poderiam ter sido modificados com vantagem, de modo a resistir melhor aos intrusos.
Se o homem consegue produzir, e certamente produziu, um grande resultado por seus meios de seleção metódicos e inconscientes, o que não conseguirá a seleção natural? O homem pode atuar sobre os caracteres externos e visíveis. A Natureza, se me for permitido personificar a preservação natural ou a sobrevivência do mais apto, não importância alguma à aparência, exceto na medida em que ela seja útil a algum ser. Ela pode atuar sobre cada órgão interno, sobre cada matiz de diferença constitucional, sobre toda a maquinaria da vida. O homem seleciona apenas em proveito próprio. A Natureza, apenas em proveito do ser de que cuida. Cada caráter selecionado é plenamente exercido por ela, como está implícito no próprio fato de sua seleção. O homem mantém num mesmo país os nativos de muitos climas. Raramente exercita cada caráter selecionado de um modo peculiar e adequado. Ele alimenta um pombo de bico longo e um de bico curto com a mesma comida. Não exercita de nenhum modo peculiar um quadrúpede de dorso longo ou de pernas longas. Expõe ao mesmo clima ovelhas de longa e de curta. Não permite que os machos mais vigorosos lutem pelas fêmeas. Não destrói rigidamente todos os animais inferiores, mas protege durante cada estação variável, até onde está em seu poder, todas as suas produções. Muitas vezes começa sua seleção a partir de alguma forma meio monstruosa, ou ao menos de alguma modificação saliente o bastante para chamar a atenção ou ser claramente útil a ele. Na natureza, as menores diferenças de estrutura ou constituição bem podem fazer pender a balança finamente equilibrada na luta pela vida, e assim serem preservadas. Quão passageiros são os desejos e os esforços do homem! Quão curto é o seu tempo e, em consequência, quão pobres serão os seus resultados, comparados com os acumulados pela Natureza ao longo de períodos geológicos inteiros! Podemos então nos espantar de que as produções da Natureza sejam de caráter muito mais verdadeiro que as do homem, de que sejam infinitamente mais bem adaptadas às mais complexas condições de vida e ostentem claramente a marca de uma fabricação muito superior?
Pode-se dizer, metaforicamente, que a seleção natural está dia e noite, a cada hora, examinando por todo o mundo as menores variações, rejeitando as ruins, preservando e somando todas as boas, trabalhando em silêncio e de modo imperceptível, sempre que e onde quer que surja a oportunidade, no aperfeiçoamento de cada ser orgânico em relação às suas condições de vida orgânicas e inorgânicas. Nada vemos dessas mudanças lentas em curso, até que a mão do tempo marque o longo decorrer das eras. E então é tão imperfeita a nossa visão das eras geológicas muito passadas que vemos apenas que as formas de vida são hoje diferentes do que eram antes.
Para que se opere alguma grande modificação numa espécie, uma variedade, depois de formada, precisa, talvez após um longo intervalo de tempo, voltar a variar ou a apresentar diferenças individuais da mesma natureza favorável de antes. E essas precisam ser novamente preservadas, e assim por diante, passo a passo. Visto que diferenças individuais do mesmo tipo se repetem perpetuamente, isso dificilmente pode ser considerado uma suposição sem fundamento. Mas, se é verdadeira, podemos julgar vendo até que ponto a hipótese concorda com os fenômenos gerais da natureza e os explica. Por outro lado, a crença comum de que a quantidade de variação possível é estritamente limitada também é uma simples suposição.
Embora a seleção natural possa atuar por meio do bem de cada ser e em proveito dele, ainda assim caracteres e estruturas que tendemos a considerar de importância insignificante podem ser afetados por ela. Quando vemos insetos que comem folhas serem verdes, e os que se alimentam de cascas serem de um cinza mosqueado; a perdiz-branca-dos-alpes branca no inverno, e a perdiz-vermelha da cor da urze, devemos acreditar que essas tonalidades são úteis a essas aves e insetos, protegendo-os do perigo. As perdizes, se não fossem destruídas em algum período de suas vidas, aumentariam em números incontáveis. Sabe-se que elas sofrem muito com as aves de rapina, e os falcões se guiam pela visão até suas presas. Tanto é assim que, em partes do continente, as pessoas são advertidas a não criar pombos brancos, por serem os mais sujeitos à destruição. Por isso, a seleção natural pode ser eficaz em dar a cor adequada a cada tipo de perdiz e em manter essa cor, uma vez adquirida, fiel e constante. Tampouco devemos pensar que a destruição ocasional de um animal de uma cor específica produziria pouco efeito. Devemos lembrar como é essencial, num rebanho de ovelhas brancas, destruir um cordeiro com o mais leve traço de preto. Vimos como a cor dos porcos que se alimentam da raiz da paint-root, na Virgínia, determina se eles vão viver ou morrer. Nas plantas, a penugem do fruto e a cor da polpa são consideradas pelos botânicos caracteres de importância mínima. No entanto, ouvimos de um excelente horticultor, Downing, que nos Estados Unidos os frutos de casca lisa sofrem muito mais com um besouro, um Curculio, do que os de casca com penugem; que as ameixas roxas sofrem muito mais com certa doença do que as ameixas amarelas; ao passo que outra doença ataca os pêssegos de polpa amarela muito mais do que os de polpa de outras cores. Se, com todos os recursos da arte, essas pequenas diferenças fazem uma grande diferença no cultivo das diversas variedades, com certeza, em estado natural, onde as árvores teriam de lutar com outras árvores e com uma multidão de inimigos, tais diferenças decidiriam de fato qual variedade, seja um fruto de casca lisa ou com penugem, de polpa amarela ou roxa, haveria de vingar.
Ao examinar muitos pequenos pontos de diferença entre espécies que, até onde nossa ignorância nos permite julgar, parecem totalmente sem importância, não devemos esquecer que o clima, o alimento e assim por diante sem dúvida produziram algum efeito direto. Também é preciso ter em mente que, em razão da lei da correlação, quando uma parte varia e as variações são acumuladas pela seleção natural, outras modificações, muitas vezes da natureza mais inesperada, vão se seguir.
Assim como vemos que as variações que, sob domesticação, aparecem em algum período específico da vida tendem a reaparecer na prole no mesmo período (por exemplo, na forma, no tamanho e no sabor das sementes das muitas variedades de nossas plantas culinárias e agrícolas; nas fases de lagarta e casulo das variedades do bicho-da-seda; nos ovos das aves de criação e na cor da penugem de seus pintinhos; nos chifres de nossas ovelhas e gado quando quase adultos), também em estado natural a seleção natural poderá atuar sobre os seres orgânicos e modificá-los em qualquer idade, pelo acúmulo de variações vantajosas naquela idade e por sua transmissão hereditária numa idade correspondente. Se for vantajoso para uma planta ter suas sementes cada vez mais amplamente disseminadas pelo vento, não vejo maior dificuldade em que isso seja realizado pela seleção natural do que naquela com que o cultivador de algodão aumenta e aperfeiçoa por seleção a penugem nas cápsulas de seus algodoeiros. A seleção natural pode modificar e adaptar a larva de um inseto a uma série de contingências totalmente diferentes das que dizem respeito ao inseto adulto, e essas modificações podem afetar, por correlação, a estrutura do adulto. Assim, inversamente, modificações no adulto podem afetar a estrutura da larva. Mas, em todos os casos, a seleção natural garantirá que elas não sejam prejudiciais, pois, se fossem, a espécie se extinguiria.
A seleção natural modificará a estrutura do filhote em relação ao progenitor e a do progenitor em relação ao filhote. Nos animais sociais, ela adaptará a estrutura de cada indivíduo em benefício de toda a comunidade, se a comunidade se beneficiar da mudança selecionada. O que a seleção natural não pode fazer é modificar a estrutura de uma espécie, sem lhe dar nenhuma vantagem, em proveito de outra espécie. E, embora se encontrem afirmações nesse sentido em obras de história natural, não consigo achar um único caso que resista à investigação. Uma estrutura usada apenas uma vez na vida de um animal, se for de grande importância para ele, poderia ser modificada em qualquer medida pela seleção natural. Por exemplo, as grandes mandíbulas que certos insetos possuem, usadas exclusivamente para abrir o casulo, ou a ponta dura do bico das aves ainda não chocadas, usada para quebrar os ovos. Afirmou-se que, dos melhores pombos-volteadores de bico curto, um número maior morre dentro do ovo do que consegue sair dele, de modo que os criadores ajudam no ato de chocar. Ora, se a natureza tivesse de tornar muito curto o bico de um pombo adulto em proveito da própria ave, o processo de modificação seria muito lento, e haveria simultaneamente a mais rigorosa seleção de todos os filhotes dentro do ovo que tivessem os bicos mais fortes e mais duros, pois todos os de bico fraco morreriam inevitavelmente. Ou então poderiam ser selecionadas cascas mais delicadas e mais fáceis de quebrar, que se sabe que a espessura da casca varia como qualquer outra estrutura.
Convém aqui observar que, em todos os seres, deve haver muita destruição fortuita, que pode ter pouca ou nenhuma influência sobre o curso da seleção natural. Por exemplo, um número imenso de ovos ou sementes é devorado a cada ano, e estes poderiam ser modificados pela seleção natural se variassem de algum modo que os protegesse de seus inimigos. No entanto, muitos desses ovos ou sementes talvez, se não fossem destruídos, tivessem dado origem a indivíduos mais bem adaptados às suas condições de vida do que qualquer um dos que por acaso sobreviveram. Da mesma forma, um número imenso de animais e plantas adultos, estejam ou não mais bem adaptados às suas condições, precisa ser destruído a cada ano por causas acidentais, que não seriam atenuadas nem no mínimo grau por certas mudanças de estrutura ou constituição que de outros modos seriam benéficas à espécie. Mas, por mais pesada que seja a destruição dos adultos, se o número que pode existir em qualquer região não for totalmente contido por tais causas (ou, ainda, por maior que seja a destruição de ovos ou sementes, de modo que uma centésima ou milésima parte se desenvolva), ainda assim, dentre os que sobrevivem, os indivíduos mais bem adaptados, supondo que haja alguma variabilidade numa direção favorável, tenderão a propagar sua espécie em números maiores do que os menos bem adaptados. Se os números forem totalmente contidos pelas causas que acabei de indicar, como muitas vezes terá acontecido, a seleção natural será impotente em certas direções benéficas. Mas isso não é uma objeção válida à sua eficácia em outros momentos e de outros modos, pois estamos longe de ter qualquer razão para supor que muitas espécies passem por modificação e aperfeiçoamento ao mesmo tempo e na mesma área.