Salmos 114
בְּצֵאת יִשְׂרָאֵל מִמִּצְרָיִם בֵּית יַעֲקֹב מֵעַם לֹעֵז ׃
Este é um hino breve (8 versos) que celebra o Êxodo. Faz parte do chamado 'Hallel Egípcio' (Salmos 113-118), bloco cantado nas grandes festas judaicas, em especial na ceia de Páscoa (Pessach). Segundo a Mishná (Pesahim 10), o Hallel era dividido em torno da refeição pascal; muitos identificam neste conjunto o 'hino' que Jesus e os discípulos cantaram após a última ceia (Mt 26:30). A expressão 'povo de língua estranha' traduz um termo hebraico raro (lo'ez), que aparece só aqui no Antigo Testamento e designa um idioma incompreensível, estrangeiro.
הָיְתָה יְהוּדָה לְקָדְשׁוֹ יִשְׂרָאֵל מַמְשְׁלוֹתָיו ׃
O texto hebraico não diz que Judá foi o santuário 'de Deus', mas que Judá tornou-se o santuário e Israel o domínio (ou reino) Dele. Aqui 'Judá' e 'Israel' funcionam como paralelo poético para todo o povo no momento da saída do Egito, antes mesmo da divisão entre os dois reinos. Alguns leem nisso uma perspectiva pós-exílica que reunifica simbolicamente as tribos sob a centralidade de Jerusalém.
הַיָּם רָאָה וַיָּנֹס הַיַּרְדֵּן יִסֹּב לְאָחוֹר ׃
O verso une duas travessias separadas por uma geração: a abertura do mar na saída do Egito (Êxodo) e a parada do rio Jordão na entrada da Terra (Josué). A poesia personifica o mar e o rio, que 'veem' e 'fogem'. Boa parte da crítica reconhece aqui um eco da mitologia cananeia: no Ciclo de Baal, de Ugarit, o deus da tempestade combate o caos representado pelo par 'Príncipe Mar' (Yam) e 'Juiz Rio' (Nahar). O salmo reaproveita essa imagem antiga de mar e rio como adversários que recuam, mas a esvazia de politeísmo: quem os faz fugir é o Deus de Jacó.
הֶהָרִים רָקְדוּ כְאֵילִים גְּבָעוֹת כִּבְנֵי־צֹאן ׃
A imagem dos montes que 'saltam como carneiros' pertence ao repertório das teofanias (manifestações de Deus) do Antigo Oriente, em que a presença divina abala a natureza. Há quem associe os tremores ao Sinai; outros leem como hipérbole poética convencional, sem fundo sísmico literal. A linguagem é próxima da do Cântico de Débora (Jz 5:4-5), em que montes se derretem diante do SENHOR.
מַה־לְּךָ הַיָּם כִּי תָנוּס הַיַּרְדֵּן תִּסֹּב לְאָחוֹר ׃
Os versos 5-6 retomam, em forma de perguntas retóricas, exatamente as imagens dos versos 3-4. Esse recurso de repetir e interrogar, comum na poesia hebraica, cria suspense: o salmo adia até o verso 7 a resposta (a causa é a presença de Deus). É uma técnica de paralelismo que estudiosos apontam como exemplo da construção especialmente refinada deste salmo, com quatro estrofes de duas linhas bem equilibradas.
הֶהָרִים תִּרְקְדוּ כְאֵילִים גְּבָעוֹת כִּבְנֵי־צֹאן ׃
מִלִּפְנֵי אָדוֹן חוּלִי אָרֶץ מִלִּפְנֵי אֱלוֹהַּ יַעֲקֹב ׃
A resposta às perguntas dos versos 5-6 chega aqui: a natureza recua diante da presença ('face') do Senhor. O hebraico do verbo é incomum; algumas traduções entendem 'treme', outras 'contorce-te' ou 'dança', mantendo a ambiguidade entre temor e celebração. O título 'Deus de Jacó' enraíza a cena no Deus dos patriarcas, ligando a libertação do Êxodo às promessas anteriores.
הַהֹפְכִי הַצּוּר אֲגַם־מָיִם חַלָּמִישׁ לְמַעְיְנוֹ־מָיִם ׃
Alusão ao episódio da rocha que jorrou água no deserto. As duas palavras hebraicas usadas para 'rochedo' e 'seixo' são distintas e relativamente raras, reforçando o paralelismo poético. A tradição cristã primitiva releu essa rocha como figura de Cristo (1 Co 10:4), mas no contexto original o foco é o sustento milagroso de Deus durante a peregrinação no deserto.