Salmos 100
מִזְמוֹר לְתוֹדָה הָרִיעוּ לַיהוָה כָּל־הָאָרֶץ ׃
O Salmo 100 é um hino de louvor (gênero 'hino'), o último do bloco de salmos de entronização de YHWH no Livro IV do Saltério (especialmente 93, 95-99, marcados pelo grito 'YHWH reina', em hebraico 'YHWH malak'). A superscrição hebraica do salmo é 'mizmor le-todah', traduzida como 'salmo para a ação de graças' (ou 'para o sacrifício de graças', a oferta 'todah' do Templo). A tradição judaica liga o salmo ao 'korban todah', oferta trazida por quem escapou de perigo; é também possível ler o termo como descrição do conteúdo, não do rito.A convocação 'todas as terras' (ou 'toda a terra') universaliza o louvor: não só Israel, mas todos os povos são chamados a aclamar YHWH como rei. Estudiosos do culto debatem se salmos como este refletiam uma festa anual de entronização de YHWH no Templo, ao modo da entronização ritual do deus-rei em outras culturas do Antigo Oriente (a hipótese, associada a Sigmund Mowinckel, é influente mas contestada: não há evidência direta de tal festa no calendário israelita).
עִבְדוּ אֶת־יְהוָה בְּשִׂמְחָה בֹּאוּ לְפָנָיו בִּרְנָנָה ׃
דְּעוּ כִּי־יְהוָה הוּא אֱלֹהִים הוּא־עָשָׂנוּ וְלֹא אֲנַחְנוּ עַמּוֹ וְצֹאן מַרְעִיתוֹ ׃
Este verso guarda uma das variantes textuais mais conhecidas do Saltério. O texto consonantal hebraico escrito (o 'ketiv') traz 'lo' com a letra álef, significando 'não': 'ele nos fez, e não nós a nós mesmos', leitura seguida pela ACF, pela NKJV e pela NASB. A nota marginal dos massoretas (o 'qere') manda ler 'lo' com a letra vav, significando 'a ele' ou 'dele': 'ele nos fez, e dele nós somos', leitura adotada por NVI, ESV e outras. As duas palavras soam iguais em hebraico, daí a confusão antiga; não há consenso sobre qual é original.A imagem 'ovelhas do seu pasto' aplica a Israel a metáfora real do rei como pastor do povo, comum em todo o Antigo Oriente (reis da Mesopotâmia e do Egito eram chamados 'pastores' de seus súditos). Aqui o pastor é o próprio YHWH-rei, coerente com o tema de entronização do bloco; a mesma figura reaparece no Salmo 23 e é retomada no Novo Testamento (Jo 10:11).
בֹּאוּ שְׁעָרָיו בְּתוֹדָה חֲצֵרֹתָיו בִּתְהִלָּה הוֹדוּ־לוֹ בָּרֲכוּ שְׁמוֹ ׃
'Portas' e 'átrios' situam o salmo no espaço físico do Templo de Jerusalém: a cena é a de uma procissão litúrgica entrando no recinto sagrado para o culto. Isso reforça o 'Sitz im Leben' (situação de origem no culto) como canto de entrada para a oferta de ação de graças.
כִּי־טוֹב יְהֹוָה לְעוֹלָם חַסְדּוֹ וְעַד־דֹּר וָדֹר אֱמוּנָתוֹ ׃