Capítulos

O arcanjo Miguel e o adversário disputando o corpo de Moisés

Testamento e Assunção de Moisés

Discurso de despedida de Moisés a Josué, preservado num único palimpsesto latino: a fonte que os Padres apontaram para a disputa pelo corpo de Moisés em Judas 9

Tradução e Comentários por: Sandro Rogério

Discurso de despedida atribuído a Moisés, escrito por um judeu anônimo do período do Segundo Templo. Moisés, prestes a morrer, entrega os livros a Josué e lhe descreve toda a história futura de Israel, da entrada na terra até o fim dos tempos. É o texto que a tradição cristã antiga apontou como fonte da disputa entre o arcanjo Miguel e o diabo pelo corpo de Moisés, mencionada na carta de Judas.

Um livro com dois nomes

O título tradicional é Assunção de Moisés, mas o texto que sobreviveu não contém assunção nenhuma: é um testamento, o gênero do discurso de despedida do patriarca moribundo ao sucessor, no molde de Deuteronômio 31 a 34 e dos Testamentos dos Doze Patriarcas. Por isso boa parte da bibliografia acadêmica atual o chama de Testamento de Moisés, enquanto a edição crítica de Johannes Tromp (1993) manteve Assumption of Moses. Os dois nomes circulam, e nenhum é errado.

A confusão vem das listas antigas. A Estiquiometria de Nicéforo (catálogo anexo ao patriarca de Constantinopla, século IX) registra lado a lado um Testamento de Moisés e uma Assunção de Moisés, como duas obras; o Decreto Gelasiano (século VI) rejeita uma Assumptio Moysis. Há três leituras possíveis, e nenhuma está provada: eram duas obras distintas e o que temos é o Testamento (posição de R. H. Charles, hoje majoritária); eram duas obras que se fundiram numa só na transmissão; ou era uma obra só com dois títulos correntes.

O manuscrito único

A obra sobrevive em um só manuscrito: um palimpsesto latino da Biblioteca Ambrosiana de Milão (Ambrosianus C 73 inf.), o mesmo códice que preserva os fragmentos latinos do Livro dos Jubileus. Foi descoberto e publicado por Antonio Maria Ceriani em 1861. Palimpsesto significa que o pergaminho foi raspado e reaproveitado para outro texto, então versículos inteiros estão ilegíveis. A cópia é datada do século VI, feita a partir de um exemplar do século V.

O latim não é o original. O consenso é uma cadeia de traduções: latim a partir do grego, e o grego a partir de um original semítico, provavelmente hebraico, deduzido pelos hebraísmos que atravessaram as duas traduções. Uma minoria defendeu composição direta em grego, mas não é a posição dominante.

O mais importante para o leitor: falta entre um terço e metade da obra. O texto se interrompe no meio de uma frase no capítulo 12, sem conclusão. A morte, o sepultamento e a assunção de Moisés estavam justamente na parte perdida. Qualquer afirmação sobre o que a obra completa dizia é inferência, não leitura.

Judas 9 e a disputa pelo corpo de Moisés

A carta de Judas menciona uma cena que não existe em livro nenhum do Antigo Testamento: o arcanjo Miguel disputando com o diabo a respeito do corpo de Moisés, sem ousar proferir juízo de maldição.

(Jd 1:9)

Padres dos séculos II e III identificaram a fonte com esta obra. Orígenes, em Sobre os Princípios III.2.1, é o testemunho mais explícito: diz que na Ascensão de Moisés, livro mencionado pelo apóstolo Judas, Miguel disputa com o diabo acerca do corpo de Moisés. Clemente de Alexandria, Dídimo, o Cego e Gelásio de Cízico também citam a obra pelo nome. Foi uma dessas citações de Gelásio que permitiu a Ceriani identificar o palimpsesto que tinha nas mãos.

A ressalva é indispensável: a cena não está no texto que sobreviveu. A ligação com Judas depende do testemunho patrístico somado à suposição de que o final perdido a continha. Judas não nomeia fonte alguma. E há divergência antiga: Severo de Antioquia, no século VI, atribui o episódio ao Livro dos Jubileus, não a esta obra, embora o episódio também não conste do Jubileus que temos, o que levou M. R. James a supor que Severo lia um códice com as duas obras juntas e trocou os títulos. Outros propõem que Judas dependa de tradição oral judaica em torno de Deuteronômio 34:6 (ninguém sabe onde Moisés foi sepultado), ou de Zacarias 3, de onde vem quase palavra por palavra a fórmula "o Senhor te repreenda".

(Zc 3:2)

Quando foi escrito

Não há data consensual. A posição majoritária situa a obra no início do século I d.C., entre 4 a.C. e 30 d.C. A base é o capítulo 6: um rei insolente, fora da linhagem sacerdotal, que reina trinta e quatro anos e deixa filhos que governam por períodos curtos, leitura natural de Herodes, o Grande e seus herdeiros; em seguida vem um rei poderoso do Ocidente que queima o santuário e crucifica, identificado com Quintílio Varo e a repressão de 4 a.C. Como não há sinal algum da destruição do Templo em 70 d.C., esse é o limite superior. Defendem essa datação Charles, Priest, Collins, Knibb e Tromp, este último sustentando que a obra é de autor único, sem camadas.

A posição concorrente propõe um núcleo macabaico, por volta de 165 a.C., atualizado no século I. A base é o capítulo 8, cuja perseguição casa ponto a ponto com Antíoco IV (crucificação de circuncidados, epispasmo forçado, blasfêmia obrigatória), e o capítulo 9, martírio no molde macabaico. Como esses capítulos vêm depois do capítulo 6 na sequência do texto, a cronologia interna se quebra, e a solução é tratar 6 e 7 como interpolação posterior. Defendem essa leitura Jacob Licht e George Nickelsburg. Há ainda propostas minoritárias que releem o rei insolente como Alexandre Janeu, o que deslocaria toda a âncora.

Complicador honesto: o palimpsesto tem passagens numéricas mutiladas, inclusive as contagens de anos, o que enfraquece qualquer datação apoiada em aritmética interna.

Conteúdo

O testamento entregue a Josué

Moisés entrega os livros selados a Josué

A história prevista: exílio, retorno e reis ímpios

A corrupção e o segundo período da ira

Taxo e os sete filhos

Taxo, o levita, e seus sete filhos

O hino do fim

A águia dourada levando Israel às estrelas

O diálogo final com Josué

A assunção segundo o Midrash

O anjo da morte recuando diante do rosto radiante de Moisés

Uma advertência sobre o capítulo 13

O capítulo 13 desta edição não é o final perdido. Como o texto latino se interrompe no capítulo 12, o tradutor completou o volume com um relato da morte de Moisés tirado do Midrash Deuteronômio Rabbah, compilação rabínica muito posterior ao palimpsesto. É outra obra, de outro meio e de outra época, incluída aqui para dar ao leitor uma versão da cena que falta.

Vale notar o que ele não contém: não há disputa entre Miguel e o diabo pelo corpo de Moisés. O antagonista é Samael, o anjo da morte, que recua diante do rosto de Moisés; Miguel aparece apenas preparando o caixão. A cena citada por Judas continua perdida.

Taxo, o enigma

O capítulo 9 é o ponto mais discutido do livro. Taxo não é nome hebraico conhecido, e o texto está corrompido justamente ali. Desde 1861 acumularam-se propostas: gematria lendo o nome como equivalente numérico de Simeão, o que apontaria para Simão Macabeu; identificação com Matatias e seus filhos, pela mesma estrutura de pai e filhos que resistem; emendas que fariam do nome um título como "o ordenador"; e a leitura de que Taxo nunca foi pessoa real, apenas o mártir exemplar. Nenhuma obteve consenso.

O paralelo com 2 Macabeus 7, a mãe e os sete filhos martirizados sob Antíoco IV, é estrutural e evidente. As diferenças teológicas também: em 2 Macabeus os mártires proclamam a ressurreição corporal; aqui a esperança é a vindicação escatológica de Israel, sem ressurreição individual explícita. E a morte de Taxo é passiva, morrer na caverna, não a resistência armada de 1 Macabeus. Vários estudiosos leem isso como polêmica deliberada contra a via das armas.

O que o livro ensina

O recurso central é o vaticinium ex eventu, a profecia depois do fato: Moisés "prevê" o que o autor já viu acontecer, da conquista até Herodes. O ponto em que a previsão deixa de ser precisa e vira expectativa genérica é o principal instrumento de datação da obra.

A teologia é fortemente determinista: Deus preparou tudo desde a criação, até os detalhes mais insignificantes, e Moisés foi escolhido antes da fundação do mundo. Chama atenção a ausência de messias: não há rei davídico, não há templo reconstruído, não há reunião das tribos. A consumação é ação direta de Deus, com um anjo executor. É um dos textos mais citados para mostrar que nem todo apocalipse judaico do período é messiânico.

Então o seu reino surgirá para toda a criação, e Satanás há de ser aniquilado e com ele a tristeza deixará de existir.

Testamento e Assunção de Moisés 10:1

A crítica ao sacerdócio é dura: corruptos, gananciosos, devoradores dos bens dos pobres. Daí as tentativas de situar o autor entre essênios, fariseus quietistas, zelotes ou um grupo levítico dissidente. Nenhuma identificação é consensual, e Priest e Tromp resistem a rótulos sectários.

Canonicidade e recepção

A obra nunca foi canônica em tradição alguma, nem judaica, nem católica, nem ortodoxa, nem etíope, nem protestante. Circulou em ambiente cristão o bastante para ser citada por Clemente, Orígenes, Dídimo e Gelásio entre os séculos II e VI, e para ser explicitamente rejeitada no Decreto Gelasiano. Depois desapareceu do Ocidente latino e só reentrou na discussão em 1861.

Sua importância é dupla: documenta o pensamento apocalíptico judeu do período do Segundo Templo, e alimenta a velha discussão sobre um autor do Novo Testamento usar um livro extrabíblico. Jerônimo registra que alguns rejeitavam a própria carta de Judas por causa disso, o mesmo argumento levantado contra a citação de 1 Enoque.

Edições de referência

A editio princeps é de Ceriani (1861), nos Monumenta sacra et profana. R. H. Charles publicou a tradução inglesa de referência em The Assumption of Moses (1897) e depois em The Apocrypha and Pseudepigrapha of the Old Testament (1913), de onde vêm quase todas as citações que circulam. J. Priest traduziu a obra como Testament of Moses na coletânea de Charlesworth (1983). A edição crítica padrão atual é a de Johannes Tromp, The Assumption of Moses: A Critical Edition with Commentary (Brill, 1993).