Capítulos

Cristo estende a mão direita e levanta Adão do Hades

Descida de Cristo ao Inferno (recensão grega)

A forma grega da mesma obra: moldura mínima, sem os episódios longos do latim, mas com três cenas próprias — João Batista pregando entre os mortos, a repreensão do Inferno a Satanás e o encontro com Enoque e Elias

Relato apócrifo do que Cristo teria feito entre a sexta-feira da crucificação e a manhã da ressurreição: a entrada no reino dos mortos, o confronto com Satanás e o Inferno personificados, e a libertação dos justos que ali esperavam desde Adão. Circula como segunda parte do Evangelho de Nicodemos, colada ao final dos Atos de Pilatos, e é o texto que deu forma narrativa ao episódio que a arte e o teatro medievais chamariam de harrowing of hell, o saque do inferno.

Esta página traz a recensão grega, transmitida como recensão B dos Atos de Pilatos. É a forma curta: moldura mínima, sem os episódios longos do latim, mas com três cenas próprias que a outra recensão não tem. Os dois relatores nunca são nomeados: assinam como "os dois irmãos gêmeos" e são apresentados como filhos do Simeão que tomou o menino Jesus nos braços.

A obra chegou também numa forma latina, que não é tradução desta nem esta daquela em sentido simples: divergem no enquadramento, na extensão e em episódios inteiros. Quem procura a forma longa, com os três mestres vindos da Galileia, os relatores nomeados Karino e Lêucio, a busca de Seth pelo óleo da misericórdia e o bom ladrão carregando a cruz, quer a outra página.

(Descida de Cristo ao Inferno 1:1)

O que só existe nesta recensão

Três cenas aparecem aqui e não na latina. Elas são a razão para ler esta forma mesmo depois de ler a outra.

As três cenas próprias

Há ainda um detalhe de desfecho sem paralelo na latina: os dois relatores contam que foram enviados a se batizar no Jordão junto com os outros ressuscitados antes de dar testemunho, e que entregaram metade do escrito aos pontífices e metade a José de Arimateia e Nicodemos, antes de desaparecer.

(Descida de Cristo ao Inferno (recensão grega) 11:1)

O que esta recensão não tem

A moldura judiciária é enxuta. Não há os três mestres galileus, não há os dois ressuscitados escrevendo em salas separadas nem a conferência dos dois rolos ao final, não há Karino e Lêucio nomeados, não há o episódio de Seth e do óleo da misericórdia, e não há o bom ladrão chegando ao paraíso com a cruz às costas. O que existe é uma cena curta de juramento: José de Arimateia aponta os filhos de Simeão, os sepulcros são achados vazios, e os dois são levados à sinagoga em Jerusalém, onde juram sobre o Antigo Testamento antes de pedir papel e tinta.

(Descida de Cristo ao Inferno (recensão grega) 1:2)

Autoria e datação

A obra é anônima e pseudoepigráfica. Apresenta-se como depoimento escrito por dois mortos que voltaram, recurso que a torna auto-testemunhal e imune a verificação. A recensão latina nomeia os dois como Karino e Lêucio, e editores desde o século XIX leem nesse par o nome de Lêucio Karino, autor lendário a quem a antiguidade tardia atribuía vários Atos apócrifos. Esta recensão não faz isso: os relatores ficam anônimos do começo ao fim, o que remove daqui a única pista, ainda que frágil, de assinatura.

Convém separar duas camadas. Os Atos de Pilatos, a primeira parte da obra, retomam uma tradição antiga: Justino Mártir (por volta de 150) e Tertuliano (por volta de 197) já remetem o leitor a atas redigidas no tempo de Pilatos, embora não se saiba se falavam deste texto ou de um documento perdido.

(1 Apologia de Justino Mártir 35:9)

(Apologia (Tertuliano) 21:14)

A Descida é mais tardia e nada indica que tenha nascido junto com os Atos de Pilatos: ela não aparece na recensão grega A do Evangelho de Nicodemos nem nas versões orientais antigas (copta, siríaca, armênia), que transmitem só a primeira parte. Em grego, a Descida só é atestada na recensão B.

A pegadinha: grego não quer dizer mais antigo

É a questão mais importante desta página, e o resultado é contraintuitivo. Tischendorf e a erudição do século XIX supunham um original grego antigo, do qual o latim descenderia. Um ponto hoje é pacífico: a forma grega que temos não é esse texto antigo. Rémi Gounelle, que reeditou e estudou a tradição bizantina, trata a recensão B não como descendente direta de um apócrifo grego perdido, mas como retroversão ampliada do latim A, feita por volta dos séculos IX e X. Essa retroversão é a mais antiga de três formas sucessivas: as outras duas a ampliam nos séculos XII e XIII e depois a expurgam nos séculos XIV e XV.

A consequência é que o texto desta página é mais recente que o da recensão latina, apesar de estar na língua que se costuma associar ao original cristão primitivo. O que continua em disputa é o que existia antes disso. Izydorczyk admite que o enredo pode ter nascido em meio grego, já que homilias gregas dos séculos V e VI atribuídas a Eusébio de Alexandria e a Epifânio contam cena parecida, e ele mesmo classifica como especulação decidir se a Descida foi traduzida do grego ou já era latina quando se juntou aos Atos de Pilatos. O que se pode afirmar sem hedge é que o texto sobrevivente mais antigo é latino.

Manuscritos

A distância entre as duas recensões, aqui, é grande e mensurável. A tradição grega B é pequena e tardia; a latina é enorme e medieval.

RecensãoManuscritosDatação dos códices
Grega (recensão B, esta)Cerca de trinta códices bizantinos. Gounelle (2008) os edita em sinopse segundo três formas textuais sucessivas, que rebatizou de M1, M2 e M3 para não confundir a recensão grega B com a latina B.Todos tardios. M. R. James (1924) registrava que nenhuma cópia conhecida da recensão B era anterior ao século XV. A tradição seguiu sendo copiada muito depois: a recensão gozava de estima no Monte Atos ainda no século XIX.
LatinaBase enorme. O censo de Zbigniew Izydorczyk (1993) registra mais de quatrocentos códices latinos do Evangelho de Nicodemos, além de uma dúzia perdidos ou destruídos.Quase todos medievais. É a via pela qual o texto entrou na Europa ocidental.

A leitura honesta desse quadro: a recensão grega é o testemunho mais enxuto, não o mais antigo, e a escassez de cópias limita o que se pode reconstruir do seu estágio original.

Conteúdo

A moldura: dois ressuscitados depõem em Jerusalém

A luz no Hades e a pregação aos mortos

A disputa entre Satanás e o Inferno

A entrada do Rei da Glória

A libertação dos justos

Tudo o que ganhaste pela árvore da ciência puseste a perder pela cruz. Todo o teu gozo converteu-se em tristeza.

Descida de Cristo ao Inferno (recensão grega) 7:1

A base bíblica e o que o texto acrescenta

O Novo Testamento fala de uma pregação aos mortos e de uma descida, mas em passagens breves e disputadas. A primeira carta de Pedro é o núcleo do debate: quem são os "espíritos em prisão", quando ocorreu a pregação e a quem ela se destinava seguem sem leitura única entre os intérpretes.

(1Pe 3:18-20)

(1Pe 4:6)

Paulo, citando o Salmo 68, fala de uma descida às "partes mais baixas da terra" e de uma subida acima de todos os céus. A expressão é lida por uns como o mundo dos mortos e por outros simplesmente como a encarnação.

(Ef 4:8-10)

Mateus registra que, na morte de Jesus, sepulcros se abriram e muitos santos ressuscitaram. Esse é o gancho narrativo de que a obra parte: os relatores são apresentados como parte desse grupo.

(Mt 27:52-53)

O texto litúrgico que estrutura a cena das portas, nas duas recensões, é o Salmo 24. A pergunta "quem é este Rei da Glória?" e a resposta "o Senhor forte e poderoso" vêm daí, palavra por palavra.

(Sl 24:7-10)

O repertório profético desta recensão é mais amplo que o da latina. O Isaías daqui cita a terra de Zabulão e de Neftali, e mais adiante junta a promessa de que os mortos ressuscitarão com o desafio "onde está, ó morte, a tua vitória?", que no Novo Testamento aparece na boca de Paulo.

(Is 9:1-2)

(Is 26:19)

(Os 13:14)

(1Co 15:55)

O que o Novo Testamento não oferece, e a obra fornece, é o roteiro: o diálogo entre Satanás e o Inferno, a resistência armada às portas, o acorrentamento do adversário, a pregação de João Batista entre os mortos e o encontro com Enoque e Elias. Nada disso é escritura; é desenvolvimento narrativo de um punhado de versículos.

Antecedentes e paralelos

A ideia da pregação aos mortos é bem anterior a esta obra. O Evangelho de Pedro, do século II, traz uma cena curta e estranha em que uma voz do céu pergunta se houve pregação aos que dormem, e a própria cruz responde que sim.

(Evangelho de Pedro 1:41-42)

O elo com a primeira parte do Evangelho de Nicodemos é direto: José de Arimateia, Nicodemos, Anás e Caifás, que abrem esta Descida, são personagens dos Atos de Pilatos.

(Evangelho de Nicodemos 16:6)

Entre os autores cristãos antigos, o tema aparece bem antes do texto: Inácio de Antioquia, Irineu, Melitão de Sardes, Tertuliano e Orígenes tratam de alguma forma da ação de Cristo entre os mortos. A obra não inventou a crença; deu a ela enredo, personagens e diálogo.

Recepção e canonicidade

A obra nunca foi canônica em tradição alguma, nem no Oriente nem no Ocidente, e não consta de nenhuma lista canônica antiga. A recensão grega teve alcance menor que a latina: circulou em meio bizantino, em poucas cópias tardias, enquanto no Ocidente o Evangelho de Nicodemos virou matéria de sermão, de iluminura e de teatro, com o ciclo do saque do inferno fixo nos mistérios ingleses e franceses dos séculos XIV e XV.

A cena é hoje mais conhecida pela linha do Credo dos Apóstolos, "desceu aos infernos", mas convém não inverter a cronologia. A cláusula aparece em texto credal pela primeira vez na quarta fórmula de Sirmio (359), formulário de linha homeia, retomado nos textos aparentados de Nice e Constantinopla. A forma latina descendit ad inferna é citada por Rufino de Aquileia por volta de 404, que observa que a cláusula não estava nem no credo romano nem nos orientais que conhecia, e que seu sentido lhe parecia equivalente ao de "foi sepultado". Ou seja, a crença já era formulada em credo antes de a Descida assumir a forma que temos. O que a obra fez foi popularizar uma cena, não criar um artigo de fé.

A leitura da própria descida nunca foi unânime. A teologia católica medieval e tridentina fala de um limbo dos patriarcas, de onde Cristo tira os justos que já estavam salvos. A ortodoxia lê a Anástasis como esvaziamento do Hades, com alcance mais amplo, e é dessa leitura que esta recensão está mais próxima: aqui o Inferno declara que nele "não ficou nenhum morto". Lutero manteve a descida como acontecimento real e triunfal; Calvino a interpretou como figura do sofrimento penal de Cristo na cruz, e boa parte da tradição reformada o segue. A obra representa uma dessas leituras, a mais dramática, não a posição comum da igreja antiga.

Edições de referência

O texto de base que circulou por mais de um século é o de Constantin von Tischendorf, Evangelia Apocrypha (1853; segunda edição em 1876), que imprimiu lado a lado a forma grega e as duas latinas. A edição moderna da tradição grega é a de Rémi Gounelle, Les recensions byzantines de l'Évangile de Nicodème (Turnhout e Prahins, 2008), com edição sinóptica das famílias bizantinas, complementada pelo seu estudo La descente du Christ aux enfers: institutionnalisation d'une croyance (Paris, 2000). Para a tradição latina, o censo de referência é o de Zbigniew Izydorczyk, Manuscripts of the Evangelium Nicodemi: A Census (Toronto, 1993).