João 1
No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.
O termo traduzido por 'Verbo' é o grego 'Lógos', que reúne os sentidos de palavra, razão e princípio ordenador. A maioria dos estudiosos vê aqui um fundo na Sabedoria personificada do judaísmo, que em Provérbios 8:22-31 já existia antes da criação e participava dela, e em Eclesiástico 24 e Sabedoria 7-9 é descrita como emanação de Deus. Outros apontam para o uso de 'Lógos' em Fílon de Alexandria (séc. I) e no estoicismo, onde designa a razão divina que permeia o cosmos. O autor parece reaproveitar essa linguagem para identificar tal princípio com Jesus.A frase final, 'e o Verbo era Deus' ('kai theòs ên ho lógos'), é uma das mais debatidas do Novo Testamento, e a discussão gira em torno de a palavra 'theós' aparecer sem artigo. A leitura majoritária a entende como predicado qualitativo: o Verbo compartilha a natureza divina. A Tradução do Novo Mundo das Testemunhas de Jeová verte 'um deus', leitura rejeitada pela maioria dos helenistas, que apontam para a regra de Colwell e para o paralelismo com 'estava com Deus'. Há ainda quem proponha sentido qualitativo ('o Verbo era divino'). Em qualquer caso, o prólogo distingue o Verbo do 'Deus' com quem ele 'estava', tensão que séculos depois alimentaria os debates trinitários.
Ele estava no princípio com Deus.
Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez.
A afirmação de que 'todas as coisas foram feitas por ele' atribui ao Verbo um papel ativo na criação, função que o Antigo Testamento reserva a Deus (Gênesis 1) e que a tradição sapiencial já associava à Sabedoria (Provérbios 8:30). É um dos pontos altos da cristologia joanina. A divisão das frases entre os versos 3 e 4 ('sem ele nada do que foi feito se fez. Nele estava a vida') varia nos manuscritos e na pontuação antiga, e foi explorada de modos diferentes em controvérsias cristológicas dos primeiros séculos.
Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens.