Ester 6
Naquela mesma noite fugiu o sono do rei; então mandou trazer o livro de registro das crônicas, as quais se leram diante do rei.
A insônia do rei é o gozne da trama, e a crítica literária a aponta como exemplo da técnica narrativa de Ester. No texto hebraico não há intervenção divina explícita: o rei simplesmente não dorme, manda ler as crônicas, e cai justo na página que reabilita Mardoqueu. Comentaristas judaicos e cristãos leem aí a 'providência oculta', a mão de Deus operando por trás de coincidências num livro que nunca o nomeia. Leitores céticos veem antes a convenção da novela de corte, em que o acaso oportuno é recurso de enredo, não teologia.O 'livro dos Anais' (em hebraico 'sefer hazzikronot', livro das memórias) ecoa a prática persa real de registrar serviços prestados ao rei. Heródoto e a tradição grega descrevem os 'benfeitores do rei' (orosángai) inscritos em arquivos reais aquemênidas, o que dá cor de verossimilhança local ao detalhe, ainda que não comprove a historicidade do episódio.