Cânticos 3
De noite, em minha cama, busquei aquele a quem ama a minha alma; busquei-o, e não o achei.
Quem fala aqui é a amada (a chamada 'Sulamita'); o verso abre uma sequência de busca noturna (vv. 1-4) que muitos leem como sonho ou devaneio. O motivo da mulher que procura o amante de noite, sem encontrá-lo, tem paralelo direto na poesia amorosa egípcia do Império Novo (séc. 13-12 a.C.): no Papiro Chester Beatty I, a moça canta que passou a noite procurando o amado e percorrendo a casa sem o achar. A repetição 'busquei-o, e não o achei' é recurso típico do gênero, marcando a ânsia do desejo.A expressão 'aquele a quem ama a minha alma', repetida quatro vezes nos vv. 1-4, é a forma como a amada designa o amante ao longo do poema, sem nomeá-lo. Na leitura literal, é linguagem de paixão humana; na leitura alegórica (judaica: amor entre YHWH e Israel; cristã: Cristo e a Igreja ou a alma), passa a designar o objeto do amor divino.